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Introdução
Dra. Luisa Lina Villa, pioneira na vacina contra HPV, aborda o impacto do vírus (420 mil mortes/ano globalmente) e a eficácia das vacinas na prevenção de diversos cânceres. Ela destaca a segurança da imunização e a importância da comunicação para combater a desinformação e avançar na erradicação da doença.
- O Papilomavírus Humano (HPV) causa cerca de 420 mil mortes anuais no mundo, associado a cânceres de colo do útero, pênis, ânus, vagina, cabeça e pescoço.
- As vacinas contra HPV são seguras e eficazes, com capacidade comprovada de reduzir drasticamente a infecção e as doenças relacionadas.
- A bióloga Luisa Lina Villa foi peça-chave no desenvolvimento dos imunizantes e na pesquisa da história natural da infecção no Brasil.
- Desinformação e comunicação inadequada são os principais desafios para a adesão à vacinação, superando evidências científicas sólidas sobre a segurança da vacina.
- Estratégias de combate ao HPV incluem a vacinação precoce, ampliação da faixa etária no PNI e a inclusão do teste molecular de DNA-HPV para rastreamento no SUS.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A cada ano, cerca de 420 mil pessoas morrem no mundo todo devido a tumores provocados pelo papilomavírus humano (HPV).
As novas gerações, porém, têm a chance de escrever uma história diferente: são as primeiras a ter acesso a vacinas seguras e eficazes na prevenção do câncer de colo do útero, vagina, pênis, ânus, cabeça e pescoço.
“Assim como ocorreu com a hepatite B, a vacinação contra o HPV mostrou capacidade real de reduzir drasticamente a infecção pelo vírus e as doenças associadas a ele”, afirma Luisa Lina Villa, bióloga ítalo-brasileira que ajudou a desenvolver os imunizantes contra o HPV.
Referência mundial, a pesquisadora chefia o Laboratório de Inovação em Câncer do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).
Recentemente, recebeu o Prêmio Bernardo Garicochea de Pesquisa Oncológica Translacional e o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher por sua contribuição em prol de ferramentas para a erradicação dessas doenças.
A VEJA SAÚDE, ela fala sobre os desafios dessa força-tarefa.
Reportagem: A senhora nasceu em Como, uma pequena cidade no norte da Itália com tradição na fabricação de seda, e chegou ao Brasil na década de 1950, aos 5 anos de idade. Como foi essa mudança?
Luisa Lina Villa: Enfrentávamos muitas dificuldades na Europa. Então meu pai ficou empolgado com a oportunidade de trabalhar na indústria têxtil do Brasil. Eu, minha irmã mais velha e meus pais chegamos em 1956.
Primeiro, moramos três anos em Porto Alegre, onde iniciamos os estudos, e depois nos mudamos de vez para São Paulo, onde construímos nossas carreiras e famílias.
No começo, lembro que minha mãe chorava todos os dias por se sentir sozinha. Mas ela sempre dizia que provavelmente não teríamos na Itália as oportunidades que tivemos aqui.
Ela acreditava que, se tivéssemos ficado lá, nossa vida teria sido mais limitada. Aqui, viu as duas filhas crescerem profissionalmente: eu, na biologia, e minha irmã, na carreira jurídica. Ela sentia que o Brasil nos ofereceu muito, inclusive a ela, como mulher.
Seu fascínio pela ciência foi cultivado desde a infância?
Tenho paixão pela natureza desde muito cedo. Sempre perguntei o porquê das coisas. Aos 11 anos, meu pai viajou aos Estados Unidos e perguntou o que queríamos de lembrança. Não pensei nem em jeans nem em chicletes: eu pedi um microscópio!
E ele comprou. Com aquele instrumento, comecei a enxergar estruturas invisíveis a olho nu, detalhes minúsculos. Era fascinante! Tenho aquele aparelho até hoje.
Eu também lia muito a revista Reader’s Digest [Seleções, no Brasil], que trazia textos de divulgação científica bem acessíveis. Também havia a enciclopédia Barsa, outra grande fonte de aprendizado.
Em 1969, a senhora ingressou no curso de biologia da Universidade de São Paulo (USP). E ainda hoje leciona no Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da instituição. Sempre imaginou que sua carreira a levaria para o campo da inovação em saúde?
Quando prestei vestibular, considerei medicina por um breve momento, mas logo percebi que queria estudar a natureza de forma mais ampla. Escolhi biologia e me formei em 1972.
Em seguida, fiz doutorado em bioquímica no Instituto de Química da USP, trabalhando com genética de leveduras. O tema câncer só se aproximou de mim mais tarde, já nos anos 1980, quando passei a trabalhar no Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer [que não atua mais no Brasil].
Foi assim que comecei minha trajetória científica, movida desde o início pela curiosidade e pelo desejo de entender os mecanismos da vida.
Quando se tornou doutora em bioquímica, a relação entre HPV e câncer ainda não havia sido descoberta. Como começou a trabalhar com o tema?
Depois da minha pesquisa com leveduras, acabei estudando certos genes relacionados a tumores. Normalmente, eles são associados à resistência a terapias e são sinal de mau prognóstico.
Na época, trabalhava com o médico Ricardo Brentani [pioneiro no ensino e na pesquisa em oncologia no Brasil]. Ele me falou sobre conversas que vinha tendo com Harald zur Hausen [Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2008], médico alemão que estava estudando um vírus chamado HPV, que acreditava estar relacionado ao desenvolvimento de alguns cânceres.
Foi a primeira vez que ouvi falar seriamente sobre o assunto.
Qual era a base para esses estudos exploratórios?
Antes de estudar o câncer de colo do útero, comecei investigando o câncer de pênis. Conversando com oncologistas no Hospital das Clínicas, ouvi relatos de que havia cirurgias para esse tumor praticamente todas as semanas, mesmo que ele fosse considerado raro — bem menos incidente do que o câncer de colo do útero.
Na época, dados epidemiológicos já sugeriam que mulheres com múltiplos parceiros tinham maior risco de câncer de colo do útero e que parceiros de mulheres com esse câncer apresentavam maior incidência de câncer de pênis.
Tudo apontava para o envolvimento de um agente sexualmente transmissível no desenvolvimento desses tumores. Só precisávamos saber qual era esse patógeno.

Entre 1983 e 1984, Hausen identificou os tipos 16 e 18 do HPV, responsáveis pela maioria dos tumores de colo do útero e de pênis. Eram as mesmas cepas encontradas no Brasil?
Sim, as amostras estavam em conformidade com os achados de outras regiões. Nossos primeiros estudos com câncer de pênis foram marcantes. Naquela época, recebíamos os membros amputados após a cirurgia para realizar a pesquisa.
Hoje, o fluxo é diferente: o material passa pela patologia, que separa os fragmentos relevantes para diagnóstico, e apenas o excedente vai para pesquisa.
Mas, nos anos 1980, muitas vezes recebíamos a peça inteira para decidir qual parte analisar. A partir desses fragmentos, extraíamos o DNA tumoral e utilizávamos técnicas moleculares para detectar o HPV — algo bastante avançado para o período.
O resultado foi significativo: em cerca de 40 a 50% dos cânceres de pênis analisados, detectamos o vírus, principalmente os tipos 16 e 18. Utilizávamos fragmentos específicos de DNA viral, recebidos de colaboradores ligados a Hausen, para identificar o micro-organismo.
A partir daí, ampliamos os estudos para o câncer de colo do útero e, principalmente, para compreender a história natural da infecção pelo HPV.
Como assim?
A partir desse achado, nós também passamos a estudar o comportamento do vírus — até em homens e mulheres saudáveis. Encontramos HPV em 10% das amostras de colo do útero de mulheres sem câncer.
Em homens, a taxa era ainda maior, aproximadamente 50%. Ou seja, a infecção é extremamente comum — e, na maioria das vezes, assintomática. Foi nesse contexto que ajudamos a definir um ponto crucial: não é qualquer infecção por HPV que leva ao câncer.
A maioria das infecções é transitória. O sistema imunológico elimina o vírus espontaneamente, apenas uma fração desenvolve infecção persistente. E, mesmo assim, o perigo está associado aos tipos de alto risco [16, 18, 31 e 45, principalmente].
Qual é a diferença entre HPV de baixo e alto risco?
Os HPV de baixo risco, que causam verrugas genitais, são diferentes dos de alto risco, que causam câncer. Embora possuam genes semelhantes, nem todos têm a mesma capacidade de transformar as células humanas.
Nos tipos de alto risco, há proteínas virais que sabotam a reprodução das células, tornando-as disfuncionais e imortais. Essas são as células do câncer. Se a infecção de alto risco persiste, uma lesão pré-cancerosa pode surgir e, em uma pequena parcela, se transformar em tumor.
O desenvolvimento de vacinas foi um caminho natural após a descoberta de que certos cânceres surgiam por causa de um vírus?
Sim! E já tínhamos uma experiência bem-sucedida com a vacina contra a hepatite B, desenvolvida a partir de uma proteína viral capaz de induzir forte resposta de anticorpos.
Inspirados nesse modelo, pesquisadores passaram a utilizar a proteína L1 da cápsula do HPV, que forma partículas semelhantes ao vírus capazes de estimular o sistema imunológico sem causar infecção.
Duas vacinas foram desenvolvidas quase em paralelo: uma bivalente, pela GSK, e outra quadrivalente, pela Merck [MSD, no Brasil].
Posteriormente surgiu a nonavalente, que amplia a proteção para sete tipos de alto risco e dois de baixo risco, responsáveis por verrugas genitais. Os resultados foram excelentes.
Assim como ocorreu com a hepatite B, a vacinação contra o HPV mostrou capacidade real de reduzir drasticamente a infecção pelo vírus e as doenças associadas a ele.
Como foi a participação do Brasil nas pesquisas clínicas?
O Brasil teve uma participação fundamental nos ensaios.
Em um dos estudos iniciais que ajudamos a conduzir, cerca de mil mulheres foram voluntárias para receber a vacina, sendo aproximadamente metade brasileiras — número superior ao de outros países envolvidos, como Suécia, Finlândia e Estados Unidos.
Quando a vacina contra o HPV foi incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI), houve uma onda de desinformação que atrapalha a adesão até hoje. Como isso pode ser combatido?
Os estudos mostram que as vacinas são seguras e não provocam eventos adversos graves. Já se discutiu sobre possíveis associações com doenças autoimunes, como a síndrome de Guillain-Barré, e até alegações infundadas sobre autismo.
No entanto, estudos populacionais demonstraram que essas condições ocorrem com a mesma frequência em vacinados e não vacinados. Ou seja, não há relação causal. A vacina é segura.
Em 2016, meninas no Acre relataram ter desmaiado, deixado de andar e permanecido dias na cama após a vacinação. Algumas foram encaminhadas para avaliação na USP. Foram realizados exames completos, como ressonância magnética. E não foi identificado nenhum dano associado à vacina.
A conclusão foi de que se tratava de eventos psicogênicos — manifestações físicas reais desencadeadas por fatores emocionais, como medo, ansiedade ou dor.
Isso não significa “frescura” nem que a pessoa esteja fingindo. São respostas genuínas do organismo a estímulos emocionais intensos. Esse episódio evidenciou que o problema era de comunicação.
Não basta ter evidência científica sólida; é preciso saber comunicá-la. Entender quem está ouvindo, quais são seus medos, quais palavras geram resistência.

Então quais seriam hoje os maiores desafios do Brasil no enfrentamento do HPV?
São de comunicação. Sabemos que a vacina funciona, é segura e previne câncer. O grande trabalho agora é combater a desinformação, melhorar a informação pública e garantir que a população tenha acesso a dados claros e baseados em evidências. Também temos de evoluir na escolha das palavras.
Durante anos, a mensagem era: “HPV é um vírus de transmissão sexual que causa câncer de colo do útero”. Parte da audiência ficava bloqueada com a expressão “transmissão sexual”. Surgiam julgamentos morais, associações com promiscuidade — termo, aliás, ofensivo e inadequado. A frase foi sendo ajustada.
Hoje a mensagem central é: “A vacina previne câncer”. Não há nenhuma “promiscuidade”. Uma única exposição ao vírus pode ser suficiente. Ele é extremamente comum. Pode permanecer assintomático por meses ou anos e ser transmitido sem que a pessoa saiba.
Já podemos observar os resultados da vacinação sobre o câncer no Brasil?
Por aqui, ainda temos de 18 a 20 casos de câncer de colo do útero a cada 100 mil mulheres, com taxas ainda mais altas em regiões do Norte e Nordeste — um grande desafio de saúde pública.
A expectativa é reduzir a doença a níveis considerados raros, cerca de quatro casos por 100 mil, nas próximas décadas. Mas, para isso, é preciso que, além da vacinação, haja rastreamento adequado e tratamento de lesões pré-cancerosas
É preciso ampliar a faixa etária da vacina contemplada pelo SUS?
O PNI ampliou, até dezembro deste ano, a vacinação até os 19 anos para resgatar aqueles jovens que não se vacinaram na pandemia.
A meta é vacinar antes do início da vida sexual, não por uma questão moral, mas biológica: a proteção precisa vir antes da exposição ao vírus. Para quem já pode ter sido exposto, a proposta é que se faça o rastreamento.
Ainda assim, tanto homens quanto mulheres podem tomar a vacina na rede privada até os 45 anos, reduzindo também as chances de desenvolver a doença, mesmo já tendo sido exposto ao vírus.
Se tivéssemos uma produção nacional da vacina nonavalente pelo Instituto Butantan, por exemplo, poderíamos aumentar o acesso à imunização a custos mais baixos e, eventualmente, permitir vacinação ainda mais ampla da população.
É preciso reconhecer o enorme esforço logístico do PNI: compra, distribuição, controle de validade, registro, busca ativa, ampliação de faixa etária. O sistema brasileiro é reconhecido internacionalmente.
E a cobertura da vacina de HPV, que já foi muito baixa, vem crescendo progressivamente, inclusive entre meninos.
O Brasil tem atualizado sua estratégia de rastreamento com a inclusão no SUS do teste molecular de DNA-HPV. De que forma essa nova ferramenta muda o jogo contra o vírus?
O exame de papanicolau foi fundamental por décadas, mas tem sensibilidade moderada. O teste de DNA-HPV, por sua vez, apresenta sensibilidade altíssima para detectar os tipos de alto risco — especialmente 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos cânceres de colo do útero.
Ao detectar a presença do vírus, a pessoa pode se precaver no tratamento antes mesmo que qualquer sinal apareça ou detectando lesões muito mais cedo e muito antes de virarem câncer.
Em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de erradicar o câncer de colo do útero até 2030 com a adoção de estratégias de vacincação, rastreamento e tratamento de lesões pré-cancerosas. É uma meta realista? Há países que podem alcançá-la?
Hoje, em países como a Austrália, onde a cobertura vacinal é altíssima, praticamente não se observam mais condilomas, as verrugas genitais, em jovens.
Além disso, já há queda consistente nos tumores associados aos tipos 16 e 18 do HPV. Por lá, e também no Reino Unido, a adesão às estratégias sempre foi rápida e consistente.
Já em países como Colômbia, Japão e também no Brasil, episódios de problemas psicogênicos foram amplamente divulgados, geraram medo e impactaram negativamente a cobertura vacinal.
E como podemos avançar no combate a outros cânceres relacionados ao HPV?
Nem todo câncer associado ao vírus pode ser rastreado facilmente — ao contrário do colo do útero, que conta com papanicolau e teste de HPV, tumores de orofaringe ou canal anal ainda carecem de estratégias populacionais amplas de rastreamento.
Por isso, a vacinação precoce, antes da exposição, é tão importante.
Em fevereiro, inclusive, a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] aprovou a recomendação da vacina nonavalente para prevenção de cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço.
Nos últimos meses, sua trajetória foi reconhecida com dois prêmios de importantes entidades médicas e científicas. O que essas láureas representam para você?
Eu, como bióloga, faço pesquisas orientadas pelas dúvidas emanadas pela clínica, pelo dia a dia entre médicos e pacientes. Ter meu trabalho reconhecido dessa maneira é um privilégio.
Estou pisando em nuvens. E tenho muito a agradecer também às dezenas de pesquisadores que trabalharam e trabalham diariamente comigo para levar inovação em saúde à nossa população.
Fonte.:Saúde Abril


