O crítico chileno Patricio Tapia conta que estava preparado para levar “um soco direto no queixo” ao provar os vinhos brasileiros que entraram nesta edição de seu Guia Descorchados. A publicação é a mais importante para os rótulos feitos na América do Sul e reúne vinhos de Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia e Peru. Vai ser lançada em São Paulo com pompa, degustações guiadas e feira com produtores na terça-feira (7). Há eventos programados ainda no Rio de Janeiro e em Brasília.
Pela primeira vez, Tapia montou sua base de degustação no Brasil fora do Rio Grande do Sul, preferindo a cidade paulista de Espírito Santo do Pinhal. A mudança é explicada pela expansão vinícola para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste (sul da Bahia). Nos últimos dez anos, foram implantados mais de 200 novos projetos entre SP, MG, RJ, GO e norte da BA, graças ao sistema de poda invertida ou dupla poda.
O tal soco a que ele se refere vem da memória dos primeiros vinhos paulistas e mineiros que provou, que eram ultraconcentrados, encorpados e potentes, perfil favorito dos produtores da região nos primeiros anos de adoção da nova técnica. Com a implementação do sistema, que inverte o ciclo da videira e deixa a colheita para o inverno, é possível chegar a uma maturação total das uvas, chegando a bebidas mais alcoólicas e sobremaduras, como mostrado pelas primeiras garrafas que foram ao mercado.
“Fomos preparados para o nosso paladar ficar adormecido com tanto álcool e tantos taninos”, escreve Tapia. “Mas sentimos que o estilo é algo que está em retirada.”
O encantamento do crítico foi tamanho que fez com que esses vinhos fossem o grande destaque brasileiro do guia. Não é de se espantar: a dupla poda é a notícia mais quente que o país tem a oferecer ao mundo do vinho, e está até demorando para que os atlas dedicados à bebida se atualizem, considerando o tamanho da expansão e os novos projetos que não param de surgir.
Outro sinal dos tempos é que, entre os que usam a técnica da dupla poda, o vinho com a maior pontuação da lista é um branco, um sauvignon blanc feito com uvas de duas regiões pela Sacramentos Vinifer, vinícola que encanta a crítica desde sua primeira garrafa —recebeu medalha na revista inglesa Decanter e foi destaque em outras edições do Descorchados, mas sempre com tintos.
O Sabina Entre Serras Sauvignon Blanc 2025, embora traga uma variedade no nome, pode ser considerado um vinho de corte, já que tem seis fermentações separadas (em foudres, barricas, ovos de concreto etc). Depois, ainda estagia por dois meses em diferentes suportes: 75% dele em foudres e 25% em ovos de concreto. A acidez é “tremenda, incisiva, enérgica”. Tem concentração de sabores e salinidade, sendo considerado “a grande estrela do ano” no Descorchados. Levou 95 pontos.
Outra casta de destaque entre os brasileiros no guia é a cabernet franc, que é descrita como “a estrela do futuro próximo da viticultura tropical no Brasil”. No país, como já foi tema desta coluna, ela tem feito vinhos macios, de corpo médio e com boa acidez, muito fáceis de beber, muito prazerosos. Tapia destaca o Casa Almeida Barreto Paralelas Cabernet Franc 2024, feito na Serra da Mantiqueira.
Ao todo, são 23 vinhos na lista dos melhores de dupla poda, destacados por Tapia como o futuro do país, por trazer um “caminho de sutileza e frescor”. Além de Sacramentos Vinifer e da Casa Almeida Barreto, produtores mineiros e paulistas como Vinet, Terra Nossa, Amana, Alma Gerais, Alma Rios, Arpuro, Casa Correa & Medici, Guaspari e L’Origine constam da lista. Curiosamente, uma preferida da crítica internacional, a Casa Tés, não entrou na seleção.
Ingressos para o lançamento e outras informações aqui.
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Fonte.:Folha de São Paulo


