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10 de janeiro de 2026

Viver bem além do relógio: como a cirurgia do cérebro protege sua história

Viver bem além do relógio: como a cirurgia do cérebro protege sua história

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No silêncio do consultório, o diagnóstico de um tumor cerebral costuma chegar como um ruído ensurdecedor. O olhar do paciente, quase instintivamente, se desvia para o relógio ou para o calendário.

A pergunta, embora nem sempre verbalizada com clareza, tem eco entre as paredes: “Quanto tempo eu tenho?”. É uma reação profundamente humana e legítima, mas, como neurocirurgião, meu papel tem sido, cada vez mais, convidar o paciente a mudar a unidade de medida dessa conversa. Entenda:

Do tempo contado ao tempo vivido

Por muito tempo, a medicina concentrou-se quase exclusivamente no conceito de lifespan – a mera extensão cronológica da existência; a famosa expectativa de vida, o ‘santo graal’ do mundo moderno, traduzida na busca pela longevidade, o termo da moda. Celebramos cada mês adicional como uma vitória estatística.

No entanto, a neurocirurgia e a neuro-oncologia modernas propõem um paradigma mais humano e sofisticado: o healthspan – ainda carecemos de um bom termo em português, mas pense em expectativa de qualidade de vida.

Trata-se do tempo que vivemos com funcionalidade, autonomia e, acima de tudo, preservação da nossa essência. Afinal, de que serve o tempo se não pudermos habitá-lo com quem somos?

Operar o cérebro hoje se assemelha à restauração de uma catedral antiga enquanto a missa acontece. Não podemos simplesmente ‘limpar’ o que está danificado; precisamos preservar a acústica, a luz e a estrutura que sustenta a fé de quem ali habita.

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Graças à tecnologia, como a neuronavegação e a monitorização intraoperatória, dispomos de um “GPS da alma” que nos permite navegar por áreas críticas da linguagem e do movimento com uma precisão que, há poucas décadas, seria considerada ficção científica.

Tecnologia a serviço da dignidade

Essa evolução tecnológica é um manifesto de otimismo. Ao realizarmos cirurgias com o paciente acordado, por exemplo, não estamos apenas removendo uma lesão; estamos dialogando com a biografia daquela pessoa em tempo real, garantindo que sua fala e suas memórias permaneçam intactas.

O objetivo principal deixou de ser apenas a ‘ressecção total’ para tornar-se a ‘preservação da qualidade de vida‘. É a técnica a serviço da dignidade.

A neuroplasticidade revela, cada vez mais, que o cérebro é um órgão de resiliência extraordinária. Ele é capaz de se reorganizar, criar novos caminhos e se adaptar, mesmo após intervenções complexas.

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Quando vemos um paciente retomar suas atividades, voltar ao trabalho ou simplesmente apreciar o sabor de um café com a família, testemunhamos a vitória do ser humano sobre a mera sobrevivência. É a vida se impondo por meio da plasticidade biológica e da vontade humana.

+Leia também: Uma nova luz no tratamento de tumores cerebrais

Cérebro que se adapta, vida que se reconstrói

Até aqui, enaltecemos e entendemos que tecnologia de ponta é necessária, mas, ao fim do dia, todas as ferramentas, modernas e antigas, só funcionam quando há um ser humano atrás do bisturi que reconhece que, na outra ponta, também há um ser humano (em um dos seus momentos de maior fragilidade e entrega).

Por isso, o bom médico é sempre uma boa pessoa, capaz de incluir qualidade na expectativa de vida – o chamado healthspan – e entender que é preciso viver bem para viver muito.

Ao enfrentar o diagnóstico de um tumor cerebral, deve-se olhar além da gravidade imediata. A neurocirurgia atual não se resume ao bisturi, mas à proteção da história de cada paciente.

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O otimismo que defendemos não é cego ou ingênuo, e sim fundamentado na ciência que prioriza o bem-estar. No fim das contas, o que buscamos não é apenas adicionar dias à vida, mas garantir que a vida que pulsa em cada um desses dias seja plena, consciente e verdadeiramente nossa.

*Cesar Cimonari de Almeida, neurocirurgião e especialista em Liderança Cirúrgica e Educação Médica; membro da Brazil Health



Fonte.:Saúde Abril

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