Para quem chega a Kyoto depois de visitar Tóquio, o contraste logo chama a atenção. Tóquio representa a modernidade enlouquecida dos anos 1980 com seus prédios, calçadas abarrotadas e telas brilhantes. Já Kyoto é uma cidade de montanhas, palácios e, em particular, de templos.
A quantidade de atrações em Kyoto pode deixar o viajante estupefato, sem saber por onde começar. Tendo isso em vista, a Folha preparou e testou um itinerário de três dias pela cidade, onde hoje vivem quase 1,5 milhão de pessoas
Nenhum percurso daria conta de todos os templos de Kyoto. São cerca de 1.600 templos budistas e 400 xintoístas, o bastante para meses de viagem, desgastando os joelhos ao subir e descer tantas escadarias. Em vez disso, a reportagem escolheu alguns dos destinos mais importantes.
Uma das razões para a profusão de pontos turísticos é que Kyoto foi a capital do Japão por mais de mil anos, de 794 a 1868. Foi tempo o bastante para que diferentes dinastias surgissem, construíssem e ruíssem.
Para se hospedar, vale a pena priorizar a região da estação de trem, bem conectada a todas as partes da cidade. O conveniente hotel Granvia fica dentro da própria estação. Outra excelente opção é o The Thousand Kyoto, a poucos minutos a pé, com um belo design japonês minimalista.
Em datas menos concorridas, é possível encontrar diárias a partir de R$ 750, embora os preços variem bastante ao longo do ano. Há opções mais em conta, mas prepare-se. A hospedagem costuma ser salgada nas grandes cidades japonesas.
Uma boa maneira de controlar os gastos é almoçar nas barracas de comida, com excelentes opções em toda a cidade, a partir de R$ 35. Há também os famosos “konbinis” —lojas de conveniência como Family Mart e Lawson, onde os japoneses compram sanduíches e doces baratos.
Para refeições mais especiais, há o interessante Kyotofu Fujino. No 11º andar de um prédio anexo à estação de trem, esse restaurante só serve tofu. O prato aparece em diversas versões, surpreendendo quem diz que ele é sem graça. O menu de almoço custa cerca de R$ 100. Já o de jantar sobe para R$ 200. Será uma das lembranças mais inusitadas do passeio.
Dia 1
Comece o primeiro dia em Arashiyama, um tranquilo distrito na parte oeste da cidade. A principal atração ali é a floresta de bambus. A experiência de caminhar pelas longas hastes, contemplando as folhas que caem com o vento, tem um quê de mágico.
Mas, para essa experiência, é necessário chegar antes das multidões com paus de selfie. Pode parecer um exagero, mas considere ir por volta das 7h da manhã. Ajuda bastante se você ainda estiver com o fuso horário desregulado, acordando de madrugada.
Uma caminhada montanha acima leva ao parque de macacos de Iwatayama. O parque foi estabelecido nos anos 1950, permitindo o acesso de visitantes interessados nesses estonteantes primatas. Vive ali uma população de cerca de 120 macacos de uma espécie típica do Japão, famosa pela pelugem marrom-claro e pelo rosto rosado.
O acesso custa R$ 25 para adultos e R$ 12,50 para crianças, permitindo que circulem entre os bichos e os observem em seu habitat. Há também a opção de comprar porções de comida para alimentá-los. Como a floresta de bambu —e boa parte das atrações das cidades japonesas— o parque lota durante as férias.
A 45 minutos de transporte público fica o templo budista Kinkaku-ji, conhecido por seu pavilhão dourado. A construção remonta ao século 14. Foi destruída por um incêndio em 1950 e reerguida em 1955. O idílico jardim combina com o bambu e com os macacos, encerrando o dia.
Dia 2
O segundo dia, já apertando o passo, começa no templo budista Shoren-in, do século 12. É um bom respiro porque costuma ser menos assediado pelas hordas de turistas. Aproveite os corredores silenciosos e o jardim pacífico, com atenção especial às árvores centenárias de canforeira.
Outro importante templo fica a poucos minutos de caminhada. É o Chion-in, do século 13. Esse, conhecido pela arquitetura monumental de seus portões. Se tiver fôlego, outro templo bem próximo é o Kodai-ji, do século 17.
Kiyomizu-dera, por sua vez, é a grande atração, localizada nas vizinhanças. Trata-se de um enorme complexo budista do século 8 visitado por peregrinos e turistas. Impressionam, em especial, os portões vermelhos e os pavilhões sustentados por vigas de madeira, com vistas para a cidade.
A partir daí, consulte sua disposição. Há ruelas antigas ao redor desses templos, com construções de madeira que destoam dos arranha-céus de Tóquio. Há também Nishiki, um enorme mercado coberto com comida de rua. Para bem e para mal, lembra o Mercadão de São Paulo —inclusive na quantidade de pessoas. Vale ao menos uma olhada.
Por fim, faça um último esforço para visitar o castelo de Nijo, do século 17, antes de se dar por vencido e voltar ao hotel. Preste atenção nos ruídos dos seus passos no chão de madeira do castelo. Devido ao chiado, o corredor é poeticamente conhecido como “o corredor dos rouxinóis”.
Dia 3
No terceiro dia, desacelere e concentre suas forças em duas das vilas imperiais de Kyoto. Para ambas, é necessário se inscrever em uma espécie de loteria com antecedência. Mas, com planejamento, não há grandes dificuldades.
De manhã, visite a vila de Katsura, do século 17. É um passeio guiado por um jardim, com passagem por antigos pavilhões. À tarde, faça a visita guiada à vila de Shugaku-in, também do século 17. O trajeto de uma vila à outra de transporte público leva quase uma hora.
Para encerrar, nada mais justo do que conhecer mais um templo. O Sanjusangen-do, do século 13, é famoso pelas 1.001 esculturas da divindade budista que os japoneses chamam de Kannon.
Observar as imagens de madeira e inspecionar seus rostos é uma experiência inquietante, mesmo para quem não tem fé. É também uma maneira adequada de se despedir de Kyoto e de seus tantos templos.
Fonte.:Folha de S.Paulo


