É isso mesmo que você leu aí. Você, homem, que clicou no título somente para ir direto nos comentários me contradizer, dizer em caps lock que “sim, gosto muito de mulher!”, provavelmente não gosta de mulher. Se emendar me chamando de mal comida, aí já sei que não gosta mesmo.
E antes que você comece a enumerar as MUITAS (cof cof) mulheres na sua vida, permita-me demonstrar como, de fato, você não gosta de mulher.
Sim, eu sei que foi uma mulher que te pariu, que te colocou no mundo, que te alimentou e vestiu e colocou meias quando seus pezinhos estavam frios. E talvez você até ame esta mulher —apesar dos números mostrarem que, caso ela adoeça, é mais fácil que a sua vizinha cuide dela ao invés de você— e ainda assim, ainda que você a ame verdadeiramente e incondicionalmente, seguirei afirmando: você não gosta de mulher.
Talvez você seja casado com uma mulher. E por ela você faça tudo. Ou talvez você tenha amantes para as quais você se declara e se entrega totalmente, pelas quais você põe tudo a perder, porque elas sim te entendem. E mesmo assim, mesmo que você ame apenas a sua esposa, ou que você ame todas elas —a oficial e as outras, afinal, você tem muito amor pra dar— ainda assim é quase certo que você não goste de mulher.
Talvez você tenha uma filha. Ou duas. Ou três. E talvez elas sejam o brilho dos seus olhos, a alegria dos seus dias, o seu propósito de vida. E talvez você seja um ponto fora da curva, um pai que vai contra as estatísticas, que participa ativamente da criação e do cuidado dessas meninas. E mesmo assim é muito possível, aliás, é bem provável que você não goste de mulher.
É que, veja, talvez você ame essas mulheres APESAR delas serem mulheres. E talvez você as ame porque elas servem algum propósito na sua vida, porque elas têm alguma serventia pra você. Há afinal muitas utilidades para mulheres na vida de todos os homens. Sua mãe, repare, te colocou no mundo —o que já é uma enorme utilidade— e não permitiu que morresse quando ainda era incapaz de se defender sozinho e até mesmo depois, fazendo tudo o que era inconveniente que você mesmo fizesse, tipo lavar suas cuecas, cozinhar sua comida, passar suas camisas.
Já adulto, sua esposa talvez tenha absorvido muitas destas funções, se tornando um upgrade da sua mãe uma vez que além do pacote básico, ainda te oferece o bônus de te satisfazer sexualmente e, de vez em quando, ainda te dá um filho (e cuida dele por você) garantindo a perpetuação do seu nome.
Ah e não esqueçamos! Ela ainda cumpre belissimamente o papel de atestar ao mundo que você é, de fato, um homem. Já as suas filhas, ou melhor, as fotos que você posta com elas no Instagram, vão além: mostram que você não é apenas homem, você é um homem de valor.
Mas gostar de mulher, de mulher como categoria humana, pressupõe que você respeite e esteja aberto a admirar mulheres que não fazem nada por você. Gostar, gostar mesmo de mulher, significa se interessar por elas, pelo que elas pensam, pelo que são, pelo que escrevem, pelas suas conversas. Significa estar em paz com o fato de que em algum momento você será contrariado por mulheres, desafiado por mulheres, rejeitado por mulheres.
Gostar de mulher significa, antes de mais nada, reconhecer que te ensinaram, desde muito novo a não gostar de mulher. A rejeitar tudo o que convencionou-se chamar de feminino: a mochila rosa, o cabelo comprido, o brincar de boneca, e depois, o cuidado, a vulnerabilidade, a fragilidade, o afeto.
Então, novamente, não é porque você é casado com uma mulher que você gosta de mulher. E não é porque você não matou uma com as próprias mãos, que você gosta de mulher.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


