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19 de março de 2026

Caminhoneiro preso no 8/1 que recebeu asilo político na Argentina

Caminhoneiro preso no 8/1 que recebeu asilo político na Argentina

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Sou cristão, creio no Deus do impossível”, afirma o caminhoneiro evangélico Joel Borges Corrêa, ao relatar à Gazeta do Povo como conseguiu o refúgio político definitivo na Argentina. “Deus honrou a minha vida”, relata o catarinense que, até esta terça-feira (17), é o único envolvido nos atos do 8 de janeiro a obter asilo definitivo no país de Javier Milei.

Segundo ele, “antes daquele fatídico dia 8/1”, ele trabalhava como caminhoneiro, atividade que desempenhava desde 1997. Joel morava com a esposa e o casal de filhos na cidade de Tubarão, em Santa Catarina. “Era uma vida normal, tranquila, pois eu nunca fui uma pessoa de me meter em confusão”, afirma.

No entanto, “a partir do 8 de janeiro, eu perdi minha liberdade, fui levado para o presídio de segurança máxima de Brasília, a Papuda, e permaneci lá por sete meses”, recorda o homem, ao lembrar das inúmeras vezes que passou fome na prisão. De acordo com ele, o local servia duas marmitas de “sobras de alimentos” aos detentos. “E muitas vezes [a comida] vinha com sujeira. Aquilo era inaceitável, uma condição deplorável”, lamenta.

O caminhoneiro Joel Borges Correa tem 47 anos, é casado e pai de dois filhos de 19 e 20 anos. Joel Borges Correa é natural de Santa Catarina, tem 47 anos, é casado e pai de dois filhos, de 19 e 20 anos. (Foto: Arquivo pessoal/Joel Borges Corrêa)

Após sete meses no cárcere, Joel obteve liberdade provisória em 8 de agosto de 2023 com uso de tornozeleira eletrônica. Ele voltou para Santa Catarina com sua família e passou a trabalhar como motorista de Uber, mas foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro de 2024 e decidiu sair do Brasil. “Minha maior dificuldade foi deixar minha família mais uma vez”, lembra.

Assim que chegou à Argentina, Joel relata que procurou a Comissão Nacional para Refugiados (Conare) e deu entrada ao pedido de refúgio político. “Me declarei como perseguido no meu país, entreguei toda a documentação que pediram e passei pela entrevista”, conta o brasileiro de 47 anos, que recebeu inicialmente asilo provisório. “Eu ficava renovando a cada três meses, até o dia em que fui detido naquela blitz.”

No final de 2024, o ministro Alexandre de Moraes pediu extradição de 63 investigados pelos atos 8/1, e a Justiça da Argentina ordenou prisão dos foragidos. O nome de Joel estava na lista, e ele foi localizado ao parar em uma fiscalização policial na província de San Luis, perto da fronteira com o Chile.

“Quando fui detido, o advogado Dr. Pedro Grandin entrou como meu defensor e fez um excelente trabalho”, recorda, ao afirmar que a defesa foi “totalmente pro bono”, ou seja, sem custo. “Ele me defendeu por acreditar que eu sofria injustiça em meu país.”

De acordo com Joel, os primeiros dias de prisão na Argentina ocorreram em um espaço que ele descreve como “calabouço”, pois não havia carceragem apropriada. Depois de 56 dias, ele foi transferido para o Complexo Penitenciário Federal de Ezeiza, localizado em Buenos Aires, onde permaneceu até 8 de janeiro de 2026.

Meu advogado me ligou e disse que eu precisava sentar para receber uma notícia. Eu tinha sido reconhecido como asilado político

Joel Borges Corrêa, primeiro envolvido no 8/1 a receber refúgio político na Argentina

Joel relata ter sofrido mais de três anos de perseguição política

“Parece mentira, mas fui liberado para domiciliar na Argentina com uso de tornozeleira na mesma data em que completei três anos dessa perseguição”, disse. Outros quatro exilados políticos detidos no país desde novembro de 2024 também deixaram o presídio de Ezeiza.

No entanto, apenas Joel recebeu o refúgio definitivo no último dia 4 de março. “Meu advogado me ligou e disse que eu precisava sentar para receber uma notícia. Eu tinha sido reconhecido como asilado político”, comemorou o caminhoneiro, que retirou a tornozeleira na última sexta-feira (12). “Alegria que não posso nem mensurar”, diz.

Segundo ele, agora é possível “fazer planos”. O catarinense tem trabalhado para uma empresa de táxi na Argentina e se prepara para reencontrar seus familiares, em breve.

“Espero que todos os brasileiros que pediram asilo aqui tenham a mesma oportunidade”, almeja, ao agradecer seus advogados da Argentina e do Brasil, à equipe da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav) e aos parlamentares que prestaram apoio aos exilados. “Foram excepcionais”, garante.

Refúgio definitivo expõe perseguição política no Brasil, afirmam especialistas

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que a concessão de refúgio definitivo para Joel é um alerta internacional a respeito da fragilidade do Estado Democrático de Direito no Brasil, com presos e exilados políticos.

“Quando um país decide conceder o refúgio, ele está dizendo que, diante dos fatos apresentados, existem elementos que indicam que não se trata de crime comum, mas de possível perseguição”, explica o doutor em Ciência Política pela USP, Marcelo José Suano.

A situação, de acordo com Alexandre Pires, professor de Relações Internacionais do Ibmec SP, provoca uma percepção internacional que ainda não existia em relação a perseguidos políticos no Brasil, mas que passa a ser avaliada porque o refúgio concedido pela Conare foi fundamentado no temor de perseguição por opinião política.

Joel foi condenado pelo STF à pena de 13 anos e meio pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração do patrimônio tombado, e associação criminosa armada.

No entanto, Marcelo Suano aponta que o reconhecimento como refugiado mostra, implicitamente, que as acusações contra o brasileiro não são suficientes ou não se sustentam para condená-lo. “Ou seja, a Argentina está divergindo do que o STF falou”, informa o cientista político.

“Na prática, o que está sendo dito é: nós não concordamos com a interpretação de que houve um crime comum. Há elementos suficientes para considerar que essa pessoa está sendo perseguida politicamente”, esclarece o especialista.

O que aconteceu com Joel no 8 de janeiro?

Em seu interrogatório judicial, relatado no processo que o condenou no Brasil, Joel afirmou ter ido sozinho à Brasília em um ônibus fretado que chegou à capital na noite de 7 de janeiro. Ele dormiu em uma pousada e se uniu aos manifestantes na tarde do dia 8, quando passou por revista para confirmar que não portava arma, nem substância inflamável.

Segundo ele, quando chegou à Praça dos Três Poderes, o local já “estava uma bagunça”. Em seguida, viu “helicópteros jogando bombas e dando tiros”. O caminhoneiro tentou voltar, mas policiais acenavam para que entrasse no prédio a fim de se abrigar. Joel afirma que a porta do Palácio do Planalto estava aberta e as vidraças, quebradas.

À Gazeta do Povo, o caminhoneiro disse ainda que não circulou pelo interior do local e nem praticou atos de violência ou dano ao patrimônio público. Ele ressalta, inclusive, que os testes de DNA realizados pela investigação não encontraram nenhum vestígio dele no local. “Não tinha nada meu no prédio do Planalto”, finalizou.



Fonte. Gazeta do Povo

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