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26 de março de 2026

Gostar da calmaria me fez pensar: estarei envelhecendo? – 25/03/2026 – Zeca Camargo

Gostar da calmaria me fez pensar: estarei envelhecendo? – 25/03/2026 – Zeca Camargo

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O plano inicial era Buenos Aires. A oportunidade de voltar para uma das cinco cidades que mais gosto no mundo e me hospedar num dos hotéis mais incríveis da capital portenha (assunto para a próxima coluna) me deixou animado.

Dias antes de embarcar, porém, surgiu um convite inesperado. Já que eu estaria pelo país, por que não ir até um hotel de natureza no lado argentino das cataratas do Iguaçu? Não sou de recusar propostas decentes.

Assim, ao desembarcar no Aeroparque, peguei a conexão para Puerto Iguazú e em menos de duas horas estava num lugar que eu achava que conhecia. Só que não.


Recentemente redescobri as cataratas graças a uma revitalização do hotel no Parque Nacional do Iguaçu, hoje da luxuosa cadeia Belmond. Fui duas vezes para lá em 2025. E daquele canto do Brasil admirei à distância o lado argentino da famosa paisagem.

Tinha essa imagem na memória, só que o que me esperava no hotel onde me hospedei não eram as dramáticas quedas d’água mas a tranquilidade do rio Paraná. A Garganta do Diabo, em todo seu esplendor, ficava a cerca de uma hora do hotel onde iria ficar. Comecei a ajustar minhas expectativas.

A proposta do Pristine Iguazú Luxury Camp, meu destino, é menos o espetáculo e mais contemplação, ou ainda, uma imersão na natureza. Quando cheguei naquela quietude, vi-me diante de uma vista imaculada, para pegar emprestado uma tradução da palavra inglesa “pristine”.


Fiquei um pouco perturbado, admito. Leitoras e leitores assíduos da coluna sabem que tenho uma queda maior por destinos urbanos do que pelos de natureza. Por isso a perspectiva de dias de pura calmaria me pareceu inicialmente temerária.

Na primeira noite acordei às 3h40 da manhã, perturbado (pasme!) pelo silêncio. Sim, parece estranho, mas o silêncio absoluto parece que estava me incomodando. Mau começo, pensei. Mas a programação que me esperava logo tratou de mudar meus humores.


Durante minha estadia num dos apenas seis quartos do Pristine, construídos como cabanas luxuosas, fui sendo seduzido por passeios de barco no rio, mergulhos em cachoeiras, trilhas acessíveis e até pelo menu das refeições, que invariavelmente incluía opções com as melhores carnes que comi neste ano. Faltava o teste do mate.

Aqui, como em boa parte do Sul e Centro-Oeste do Brasil, sabemos que a bebida é um ritual. Cheguei a experimentá-la algumas vezes sem, contudo, me entusiasmar. Mas no meu roteiro tinha uma “conversa sobre mate”. Resolvi dar mais uma chance.

Provei com um certo receio, não sem antes ouvir um pouco da história da evolução da bebida, desde suas origens com os povos indígenas guaranis, passando pelos jesuítas e cruzando até Perón, numa disputa econômica dramática em meados do século 20.

Até que me foi oferecida a cuia e… Para minha surpresa, o amargor daquelas primeiras degustações deu lugar a um sabor inusitado, aromático e convidativo. Encarei três rodadas!


Senti-me leve e tranquilo bebendo a “yerba”. Estava realmente relaxado, a fim de aproveitar essa viagem num estilo diferente ao que estava acostumado. Fiquei até um pouco contrariado de estar gostando dessa dose brutal de natureza e calmaria. Temi talvez estar ficando velho.

Foi então que decidi partir para um choque cultural em Buenos Aires.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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