A Polícia Militar encerrou, na madrugada deste domingo (10), a ocupação do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus Butantã, na zona oeste da capital.
A operação começou por volta das 4h15 e resultou na retirada de mais de 150 manifestantes que haviam invadido o saguão do edifício na tarde de quinta-feira (7). Quatro estudantes foram detidos e depois liberados.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirmou que a ação policial foi motivada, entre outros fatores, por registros de danos ao patrimônio público: portões derrubados, vidros estilhaçados e catracas avariadas, além de diversos objetos destruídos no interior do edifício. Segundo a SSP, a PM também apreendeu no local drogas, facas, canivetes, bastões e porretes.
O caso começou como uma greve por melhorias no auxílio estudantil, mas foi marcado por um conflito ideológico dentro da universidade — com direito a bandeiras de partidos, pautas identitárias e até debates sobre política internacional. Isso acabou aumentando a tensão e empurrando a reivindicação original para um segundo plano, perdida em meio a uma mistura de discursos com viés militante.
Estudantes rejeitaram reajuste
A invasão da reitoria teve origem em uma greve iniciada em 14 de abril nas universidades estaduais paulistas. O movimento começou em apoio aos servidores técnico-administrativos, que encerraram a paralisação após um acordo com a reitoria, mas os estudantes decidiram continuar a mobilização com pautas próprias.
A principal reivindicação é o aumento do auxílio permanência da USP, pago para alunos de baixa renda. Atualmente, o benefício integral é de R$ 885, mas os manifestantes pedem que ele suba para R$ 1.804 (valor equivalente ao salário mínimo paulista).
A universidade ofereceu um reajuste para R$ 912, porém a proposta foi rejeitada. De acordo com as lideranças do movimento, a quantia oferecida é “insuficiente” e “não condizente com a realidade”.
Críticos da ocupação observam que o auxílio da USP já supera o valor médio pago pelo Bolsa Família, hoje em torno de R$ 600. Ou seja, os estudantes pedem um benefício individual quase três vezes maior do que o recebido por milhões de famílias atendidas pelo principal programa social do governo federal.
Na sexta-feira (8), o reitor Aluísio Segurado informou que as negociações estavam encerradas por incompatibilidade orçamentária — mas destacou a “disposição permanente para o diálogo” mantida pela administração.
“Não cabe mais negociação quando uma das partes entende que ela só termina com o atendimento total de todas as demandas”, disse Segurado, nomeado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em janeiro.
“Socialismo revolucionário, anticapitalista e anti-imperialista”
Outro ponto levantado pelo reitor foi o que ele chamou de “agenda externa à universidade”. Segundo Segurado, imagens registradas durante a invasão mostram estudantes carregando bandeiras de partidos e movimentos políticos, “incluindo agremiações que nunca conseguiram eleger representantes ao parlamento”.
A presença de parlamentares de oposição na ocupação reforçou o caráter político do movimento. As deputadas estaduais Luana Alves e Mônica Seixas, do PSOL, estiveram no local na noite de quinta-feira — enquanto a deputada federal Erika Hilton enviou um ofício ao reitor pedindo a retomada do diálogo.
Também ganharam destaque na ocupação grupos políticos conhecidos por capturar o movimento estudantil em suas disputas ideológicas. Com destaque para o Correnteza, ligado ao partido de esquerda radical Unidade Popular (UP), que prega o “socialismo revolucionário, anticapitalista e anti-imperialista” e o “controle popular dos meios de produção”.
Nas redes sociais, os críticos da invasão apontaram que a reivindicação original (mais dinheiro para manter alunos pobres na universidade) terminou ofuscada. No lugar dela, ganharam espaço pautas militantes que falam pouco com a maioria dos estudantes — e menos ainda com o contribuinte que paga a conta.
Fonte. Gazeta do Povo



