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28 de março de 2026

Cervejaria armazena gases de efeito estufa em bebida – 28/03/2026 – Ambiente

Cervejaria armazena gases de efeito estufa em bebida – 28/03/2026 – Ambiente

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Quem estava tomando uma cerveja do lado de fora no último fim de semana, enquanto uma onda de calor pairava sobre Alameda, Califórnia, talvez não estivesse pensando em mudanças climáticas. Mas os fabricantes da IPA e das lagers definitivamente estavam.

Isso porque as bolhas nas bebidas vieram do dióxido de carbono capturado no estacionamento da cervejaria.

“Estamos literalmente tirando carbono do meio ambiente“, disse Damian Fagan, diretor da Almanac Beer Co. “É bastante surreal e incrível.”

A tecnologia que tornou possível essa carbonatação do ar para a cerveja —uma máquina que parece um aparelho de ar-condicionado gigante com uma chaminé no topo— fica nos fundos do pub. Ela realiza captura direta do ar, e outro sistema instalado em um contêiner ao lado liquefaz o dióxido de carbono (CO2) capturado e o transforma em um produto puro e de qualidade.

Para conter o aquecimento global, o dióxido de carbono precisa ser gerenciado como qualquer outro resíduo, e a captura direta do ar provavelmente terá um papel nisso, disse Matthew Realff, engenheiro químico do Instituto de Tecnologia da Geórgia, que não está envolvido com a cervejaria.

“A captura direta do ar cria a opção de não apenas abordar as emissões atuais e futuras”, disse ele, “mas também de lidar com nossas adições históricas de CO2 à atmosfera.”

Embora máquinas de captura de ar em alguns pubs não resolvam o aquecimento global, os dispositivos, fabricados pela Aircapture, uma empresa sediada na vizinha Berkeley, poderiam ser “extremamente úteis para o clima“, disse Realff, se ajudarem a tornar a captura de carbono mais barata e amplamente disponível. A tecnologia progrediu significativamente nos últimos 15 anos, mas aumentar a escala e reduzir os custos continuam sendo grandes desafios.

Nos Estados Unidos, os projetos de captura direta do ar tendem a ser grandes e focados em remover pelo menos 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono anualmente em um local fixo. No entanto, após anos de apoio federal, grandes projetos foram adiados ou cancelados recentemente, devido a cortes de financiamento pelo governo Trump. “Enquanto antes havia um vento favorável forte, agora há um vento contrário”, disse Realff, que também não está envolvido com a Aircapture.

A companhia está tentando enfrentar alguns desses desafios criando um sistema ágil e modular, que pode ganhar escala não aumentando de tamanho, mas pela fabricação de mais unidades. “Esta é uma abordagem bastante única que tem o potencial de ser relativamente fácil de implantar ao redor do mundo”, avaliou o especialista.

A Aircapture conseguiu evitar a dependência de financiamento federal, créditos de carbono ou incentivos fiscais ao apostar no mercado de US$ 20 bilhões (R$ 105 bilhões) de dióxido de carbono comercial.

“A economia global funciona à base de dióxido de carbono”, disse Matt Atwood, fundador e CEO da empresa. “Está na cadeia alimentar, na cadeia de refrigeração, na construção, na agricultura, nas bebidas. Está em todo lugar.”

No entanto, ao redor do mundo, o mercado de dióxido de carbono está se tornando mais volátil. Para empresários como Fagan, garantir CO2 é uma fonte constante de estresse. “É algo que você usa todos os dias, que é caro, cada vez mais difícil de obter e prejudicial ao meio ambiente“, afirmou o diretor da cervejaria.

A maior parte do CO2 para o mercado comercial é capturada como subproduto de outras indústrias, incluindo combustíveis fósseis. Mas essa dependência torna seu fornecimento vulnerável às oscilações nos preços do petróleo e do gás, bem como ao fechamento de fábricas.

Em alguns casos, empresas que produzem dióxido de carbono como subproduto estão optando por não vendê-lo e, em vez disso, estão capturando-o e armazenando-o no subsolo, um processo conhecido como sequestro de carbono, por causa de incentivos ou exigências governamentais.

Usinas de etanol, por exemplo, respondem por cerca de 35% do fornecimento de dióxido de carbono na América do Norte. Mas por causa de créditos fiscais, sequestrar o gás no subsolo agora rende a essas instalações muito mais do que vender CO2 para empresas de gás, disse Atwood. Isso está criando uma lacuna crescente entre demanda e oferta.

A indústria comercial de dióxido de carbono também tem uma alta pegada de carbono. Para cada tonelada desse gás que um cliente recebe, a produção pode liberar duas ou mais toneladas na atmosfera, segundo Atwood. Além disso, os produtos comerciais frequentemente são transportados por longas distâncias.

A Aircapture visa fornecer uma alternativa. Suas máquinas capturam de 100 a 1.000 toneladas de dióxido de carbono por ano, dependendo do tamanho, e podem ser produzidas em massa como carros, permitindo que a empresa responda à demanda rapidamente.

A companhia se recusou a divulgar detalhes do consumo de energia de sua máquina na cervejaria Almanac. Mas, de acordo com o fundador, uma avaliação independente do ciclo de vida conduzida para um projeto do Departamento de Energia dos Estados Unidos descobriu que a pegada de carbono do sistema é inferior a 10% do que ele captura.

Atualmente, 20% da cerveja da Almanac é feita com captura de ar no local, e Fagan disse que esperava chegar a 100% até o final do ano.

Além de resolver problemas de confiabilidade, a nova tecnologia é financeiramente vantajosa. Em vez de comprar máquinas de captura de carbono da Aircapture, clientes como a Almanac compram o CO2 que as máquinas produzem. Atwood comparou o arranjo ao modelo que hospitais usam quando compram oxigênio industrial de plantas instaladas na localidade, mas pertencentes a outras empresas.

O dióxido de carbono líquido comprado através da Aircapture é de 15% a 20% mais barato do que os produtos comerciais convencionais. Segundo Fagan, isso equivale a dezenas de milhares de dólares em economia ao longo do ano.

“Somos um pequeno comércio e [essa tecnologia] já está causando um impacto real”, afirmou. “O fato de que ela é melhor para o meio ambiente é um ótimo benefício adicional”.



Fonte.:Folha de São Paulo

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