
Crédito, Getty Images
- Author, Carolyn Laubender
- Role, The Conversation*
Tempo de leitura: 6 min
A psicanálise está em alta. Contas no Instagram dedicadas à teoria freudiana acumulam quase 1,5 milhão de seguidores. Programas de TV como o Terapia de Casal, de Orna Guralnik, tornaram-se fenômenos. Artigos de opinião em publicações como The New York Times e The Guardian apontam para um “renascimento” da psicanálise.
Para muitos, esse retorno é uma surpresa. Ao longo dos últimos 50 anos, a psicanálise — movimento intelectual e prática terapêutica criada por Sigmund Freud (1856–1939) na Viena de 1900 — foi rejeitada e menosprezada em muitos círculos científicos.
Especialmente no mundo anglófono (países de língua inglesa), o avanço da psicologia comportamental e a expansão da indústria farmacêutica empurraram terapias baseadas na fala, como a psicanálise, para as margens.
Mas há uma história global mais complexa. Durante a vida de Freud, foram criados 15 institutos psicanalíticos em todo o mundo, incluindo os da Noruega, da Palestina, da África do Sul e do Japão. Em várias partes do planeta — de Paris a Buenos Aires, de São Paulo a Tel Aviv —, a psicanálise floresceu ao longo do século 20.
Em toda a América do Sul, ela continua a exercer grande influência clínica e cultural. Na Argentina, é tão popular que se brinca que não se embarca em um voo para Buenos Aires sem que haja ao menos um psicanalista a bordo.
Há várias razões para a psicanálise ter se tornado popular em alguns países e não em outros. Uma delas está ligada à história da diáspora judaica no século 20.
Com a expansão do Terceiro Reich, muitos psicanalistas e intelectuais judeus fugiram da Europa Central antes do Holocausto. Cidades como Londres, que acolheu Freud e toda a sua família, foram culturalmente transformadas por esse fluxo de refugiados.
Mas há outro fator, talvez menos evidente: a ascensão do autoritarismo. A psicanálise pode ter surgido e se difundido no contexto da Europa em guerra, mas sua popularidade cresceu em paralelo a crises políticas.

Crédito, Getty Images
Resposta à opressão
Veja o caso da Argentina. À medida que o peronismo autoritário de esquerda deu lugar a uma “guerra suja” apoiada pelos Estados Unidos, esquadrões paramilitares sequestraram, mataram ou fizeram “desaparecer” cerca de 30 mil ativistas, jornalistas, líderes sindicais e dissidentes políticos. Perda, silêncio e medo passaram a marcar o mundo emocional de muitos.
Ao mesmo tempo, porém, a psicanálise — com seu interesse por trauma, repressão, luto e verdade inconsciente — tornou-se uma forma significativa de lidar com a opressão.
Espaços de escuta e fala sobre trauma e perda passaram a funcionar como uma estratégia de resposta — e talvez até de resistência — a esse desastre político. Em uma cultura de mentiras de Estado e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade era um ato radical.
Muitos dos primeiros seguidores de Freud usaram a psicanálise de maneira semelhante.
Diante dos horrores inexplicáveis do fascismo europeu, pensadores como Wilhelm Reich, Otto Fenichel, Theodor Adorno e Erich Fromm viam a psicanálise, frequentemente associada ao marxismo clássico, como uma ferramenta para compreender como se formam e se desejam personalidades autoritárias.
Do outro lado do mundo, na Argélia, o psiquiatra e ativista anticolonial Frantz Fanon recorreu à psicanálise para denunciar os regimes raciais opressivos do colonialismo francês. Para todos esses médicos e filósofos, ela era uma ferramenta essencial de resistência política.
Algo semelhante parece estar acontecendo hoje. À medida que novas formas de autoritarismo multinacional emergem, imigrantes são demonizados e genocídios são transmitidos ao vivo, a psicanálise volta a ganhar força.
Uma forma de dar sentido ao que parece não ter sentido
Para alguns, neuropsicanalistas como Mark Solms forneceram os elementos necessários para retomar a psicanálise.
Em seu novo livro, The Only Cure: Freud and the Neuroscience of Mental Healing (A Única Cura: Freud e a Neurociência da Cura Mental, em tradução livre), Solms usa a neurociência — especialmente seu trabalho sobre os sonhos — para argumentar que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o início.
Segundo Solms, embora possam ser eficazes no curto prazo, medicamentos oferecem apenas soluções temporárias. Somente os tratamentos psicanalíticos, afirma ele, proporcionariam efeitos duradouros.
Solms faz parte de um grupo crescente de clínicos e intelectuais cujo trabalho recolocou a psicanálise em evidência cultural. Enquanto Solms se aproxima da neurologia, outros, como Jamieson Webster, Patricia Gherovici, Avgi Saketopoulou e Lara Sheehi, recolocam a dimensão política da psicanálise no centro do debate.
O trabalho deles mostra como conceitos da psicanálise — o inconsciente, a “pulsão de morte”, a bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e a repressão — ajudam a interpretar o momento contemporâneo, principalmente quando outras teorias se mostram insuficientes.

Crédito, Getty Images
Em um mundo de crescente mercantilização, a psicanálise resiste a definições comercializadas de valor.
Ela valoriza o tempo profundo em um contexto de atenção cada vez mais fragmentada e insiste na importância da criatividade e da conexão humanas em um cenário de saturação por inteligência artificial.
Também questiona concepções convencionais de gênero e identidade sexual e prioriza as experiências individuais de sofrimento e desejo.
As razões para o ressurgimento da psicanálise refletem aquelas que impulsionaram suas ondas anteriores de popularidade: em momentos de instabilidade política, violência de Estado e traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar sentido ao que parece não ter sentido.
A psicanálise fornece um quadro para compreender como impulsos autoritários se enraízam nas subjetividades individuais e se disseminam pelas sociedades.

Crédito, Getty Images
Além disso, em uma era dominada por soluções rápidas e intervenções farmacológicas na saúde mental, a psicanálise insiste no valor de uma atenção prolongada à complexidade humana.
Ela se recusa a reduzir o sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos no cérebro ou a sintomas a serem apenas controlados. Em vez disso, trata o mundo interno de cada indivíduo como algo digno de exploração profunda.
O interesse coletivo renovado pela psicanálise também está desafiando o próprio campo a se transformar. Suposições antigas, como a ideia de neutralidade do terapeuta ou de que a heterossexualidade é a norma, vêm sendo questionadas.
A prática psicanalítica também está sendo repensada em diálogo com diversos movimentos de justiça social e solidariedade. É um momento em que muitos buscam redefinir o que a psicanálise pode ser.
Resta saber se esse renascimento vai perdurar. Mas, por ora, enquanto as crises políticas se intensificam e as abordagens terapêuticas tradicionais parecem insuficientes, as ideias de Freud sobre a psique humana encontram novos públicos ávidos por compreender a obscuridade dos nossos tempos.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


