
Crédito, Getty Images
- Author, Melissa Hogenboom
- Role, BBC Future
Tempo de leitura: 7 min
No mundo acelerado em que vivemos, muitas mulheres enfrentam um fardo invisível, mas esmagador, conhecido como carga mental.
Trata-se do trabalho mental, muitas vezes não reconhecido, mas necessário para manter a casa e a vida familiar em funcionamento. Ele inclui organizar os cuidados com as crianças, planejar refeições saudáveis e pesquisar atividades de lazer.
A professora de sociologia Leah Ruppanner, da Universidade de Melbourne, na Austrália, é a autora do livro Drained (“Esgotada”, em tradução livre). Ela explica que não existe uma única forma de carga mental, mas sim oito categorias diferentes.
Da “criação de magia” ao “metacuidado”, ela conta que muitos desses encargos “não têm limites” e são permanentes.
Os homens podem estar assumindo mais tarefas em casa, mas as mulheres permanecem sobrecarregadas por esse trabalho oculto, que, muitas vezes, pode resultar em burnout.
Mas não precisa ser assim. Reconhecer que compartilhar esse trabalho mental beneficia nossa saúde, bem-estar e os relacionamentos pode incentivar mais casais a buscar um relacionamento mais equilibrado.
Na entrevista abaixo, Leah Ruppanner conversa com Melissa Hogenboom, jornalista sênior especializada em saúde da BBC, sobre como as normas e expectativas sociais contribuem para a carga mental.
BBC – Em primeiro lugar, Leah, existe agora muito mais consciência sobre a carga mental, mas como você a define?
Leah Ruppanner – Ela ocorre quando seu pensamento tem essa camada emocional e é por isso que ela é tão cansativa.
Às vezes, ela pode trazer emoções positivas, quando tudo vai bem. Mas a carga mental pode ser o oposto. Pode ser um trabalho de pensamento emocional, quando você rumina constantemente e isso não tem fim.
Você não leva a roupa suja com você quando sai para caminhar pelo seu bairro, mas leva a carga mental.

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BBC – Você fez centenas de entrevistas para identificar oito tipos diferentes de carga mental. Quais são eles?
Ruppanner – O que aparece constantemente é que as mulheres descrevem sua carga como invisível, sem limites e permanente. E isso está causando burnout.
Achei que precisávamos definir o que é isso, para podermos ajudar as pessoas a reduzir esta carga. Por isso, aqui estão as oito categorias que encontrei:
Esta é, provavelmente, a compreensão mais tradicional da carga mental. Ela se refere simplesmente a permanecer a cargo das tarefas de planejamento — todo aquele trabalho invisível que garante que a casa funcione adequadamente.
Ocorre quando você se dedica ao pensamento emocional, para garantir que está acompanhando sua família, amigos ou colegas de trabalho.
Ele também inclui observar o humor dos demais e fornecer apoio emocional durante os pequenos ou grandes momentos.
3. Higiene dos relacionamentos
Manter fortes conexões sociais com seus filhos, amigos, parceiro e a família estendida.
No trabalho, você pode chamar isso de formação de redes, mas é principalmente o trabalho de garantir que todos se sintam amados e conectados.
O pensamento emocional para manter as tradições e criar momentos especiais na vida. Pense em quem cria os “momentos mágicos” no Natal e faz todo o trabalho para que aquilo aconteça.
5. Construção de sonhos
Este é o trabalho necessário para garantir que todas as pessoas próximas encontrem as oportunidades certas para realizar suas paixões e ambições.
Ele pode envolver a inscrição dos filhos nos seus hobbies ideais ou garantir que o seu parceiro tenha tempo para jogar golfe ou dedicar longas horas à sua carreira.
6. Manutenção individual
Pense em autocuidado, mas há mais do que isso. Esta carga se refere a se manter em forma e saudável, promovendo a saúde física e mental, além de apresentar esta imagem para os demais.
Isso envolve pensar se os seus entes queridos e a comunidade estão seguros, de formas reais e hipotéticas.
Também é preciso reconhecer que certos pais têm cargas mentais mais pesadas em relação à segurança, como pessoas não brancas e famílias de pessoas com deficiência.
Tudo isso pode envolver preocupações constantes com a própria segurança e da família.
Este ponto é um pouco mais abstrato, mas se refere a pensar se você está trabalhando para criar o mundo no qual você quer viver ou se precisa fazer algo de diferente.
Ele envolve pensar nas suas responsabilidades naquele campo e exige o pensamento do quadro como um todo, para garantir que estamos vivendo nossas vidas de forma alinhada com os nossos valores. Se estamos criando nossos filhos como queremos, por exemplo.

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BBC – Por que esta é uma área de estudos tão importante?
Ruppanner – Comecei a estudar a carga mental, em parte, porque percebi que não estávamos captando este tipo de coisa. Por isso, passei décadas estudando gênero, trabalho, família, trabalhos domésticos e sua divisão.
E, embora observássemos os homens fazendo mais em casa — víamos continuamente este movimento em direção ao progresso —, havia algo que simplesmente não estava funcionando, que não estávamos captando, que não estávamos avaliando.
Era a carga mental. Por isso, decidi oferecer uma compreensão clara a este respeito.
BBC – Qual o nível de esgotamento das mulheres com quem você conversou?
Ruppanner – Desenvolvi uma escala de burnout causado pela carga mental, fazendo perguntas às mulheres.
Você acha difícil encontrar energia para responder às emergências da vida? Você acha que seus “gastos” com a carga mental deixam você cansada no final do dia? Você se acha sobrecarregada?
Uma das conclusões foi que os pais tinham capacidade e não enfrentavam déficit, mas quase todas as mães com quem conversei estavam nesta situação.
Elas mantinham energia suficiente na sua “conta de carga mental” para reagir a uma emergência, se algo desse errado. Mas quando perguntei “você tem energia suficiente para reagir a uma oportunidade na sua vida?”, elas responderam “não”.
BBC – E como podemos reduzir esta sobrecarga mental?
Ruppanner – Para começar, precisamos reconhecer que é muito valioso ter seus sentimentos, mas que você não é responsável pelos sentimentos dos demais, nem por criar uma família perfeita. Você não é responsável por criar um mundo perfeito.
Acho que é preciso deixar muito clara a ideia de que muitas de nós, mulheres, fomos criadas, desde o nascimento, para sermos gentis, educadas, atenciosas e submissas, dando aos outros às custas de nós mesmas.
Vamos também parar de colocar gelo nos sentimentos dos homens. Vamos parar de dizer às mulheres que elas precisam ser responsáveis pelos sentimentos de todos os demais, em detrimento de si próprias.
Vamos cuidar de identificar quando estamos fazendo demais. Quando você realmente precisa intervir e fornecer apoio emocional e quando não precisa.
Precisamos ter um pouco mais de clareza para não agir no automático ou da forma como nos dizem que devemos agir, mas sim ser um pouco mais estratégicas.
Por exemplo, sempre digo para minha filha: “Você pode escolher agora mesmo se irá realmente aumentar sua energia ou suas emoções, mas será que vale a pena?”
BBC – Que conclusões devemos tirar das suas pesquisas?
Ruppanner – Em primeiro lugar, pare de se sentir tão culpada e responsável por tudo. Fiz um estudo piloto, dando dinheiro às mulheres para reduzir sua carga mental. Descobri que era muito difícil, para muitas dessas mulheres, gastar aquele dinheiro consigo mesmas.
O que elas queriam era dar aquele dinheiro para a família, para que a vida de todos fosse melhor. Elas se sentiam muito culpadas em gastar com elas próprias.
Ou seja, temos basicamente mulheres criadas para sentir que devem ficar no fim da fila e qualquer investimento nelas próprias, quando passam a ser mães, é feito à custa dos seus filhos. Que mentira ridícula nos contaram!
Mas, depois de um certo tempo e de gastarem o dinheiro, a carga mental daquelas mulheres diminuiu. Aquilo resolveu todos os seus problemas? É claro que não!
Mas reduziu um pouco a sua carga e, o mais importante, cada uma delas experimentou uma mudança de mentalidade valiosa e percebeu a importância de priorizar a si mesmas.
Katrina, uma das mulheres que receberam o dinheiro, gastou em um fim de semana fora. E, na sua ausência, ela não pensou na casa. Ela contou que o dinheiro a ajudou a viver naquele momento, em vez de se preocupar com outras despesas.
Quando voltou para casa, seu parceiro havia cuidado para que a casa ficasse limpa, a geladeira cheia e a roupa lavada.
Quando temos clareza sobre os nossos gastos com a carga mental [onde gastamos a nossa energia mental], podemos usá-la estrategicamente.
Às vezes, precisamos buscar ajuda para conseguir. Às vezes, precisamos de autocuidado, às vezes das duas coisas.
Na verdade, o que as pesquisas mostram é que quanto mais empoderadas e com melhor formação, mais as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho.
Com isso, elas contam com divisões mais igualitárias das tarefas domésticas. Seus relacionamentos são melhores e os homens fazem mais.
Por isso, quando pensamos em empoderar as mulheres, não é apenas para o benefício delas, mas de todos.
Melissa Hogenboom é repórter de saúde da BBC e autora dos livros Breadwinners (“Provedoras”, em tradução livre), lançado em 2025, e The Motherhood Complex (“O complexo da maternidade”).
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


