
Crédito, Maddy Savage
- Author, Maddy Savage
- Role, De Nacka (Suécia) para a BBC News
Tempo de leitura: 8 min
O governo da Suécia está retomando a adoção de livros físicos, papel e lápis nas salas de aula para reverter os níveis de compreensão de leitura, que estão em queda no país.
A volta aos instrumentos analógicos vem causando críticas das empresas de tecnologia, educadores e cientistas da computação. Eles defendem que a medida poderá prejudicar as perspectivas de emprego dos estudantes e até a economia da nação nórdica.
Em uma escola de ensino médio de Nacka, perto da capital sueca, Estocolmo, os estudantes do último ano retiram seus laptops das sacolas e mochilas, ao lado de objetos que, segundo eles, eram usados com menos frequência poucos anos atrás.
“Agora, costumo vir para a escola com livros e papéis novos”, conta Sophie, de 18 anos.
Segundo ela, um professor “começou a imprimir todos os textos que usamos durante as aulas” e uma plataforma de ensino digital de matemática foi substituída pelo ensino apenas com livros didáticos.
Essa imagem contradiz a fama da Suécia como uma das sociedades mais tecnológicas da Europa, graças aos altos níveis de conhecimento digital e ao seu próspero cenário de start-ups do setor de tecnologia.
Os laptops se tornaram o padrão nas salas de aula suecas no final dos anos 2000 e início da década de 2010.
Em 2015, cerca de 80% dos estudantes das escolas de ensino médio mantidas pelos governos municipais tinham acesso individual a um aparelho digital, segundo dados oficiais.
O uso obrigatório de tablets na pré-escola foi incluído no currículo em 2019, como parte da missão do governo anterior, do Partido Social Democrata, de preparar até as crianças mais jovens para um mundo cada vez mais digital.
Mas a atual coalizão de direita, que chegou ao poder em 2022, está levando o ensino para outra direção.
“Na verdade, estamos tentando nos livrar das telas ao máximo possível”, explica Joar Forsell, porta-voz de educação do Partido Liberal. O líder do partido é o ministro da Educação da Suécia.
“Com os estudantes de mais idade, você pode usá-las um pouco mais, mas, com os mais jovens, acho que não devemos usar tela nenhuma”, prossegue ele.
O governo sueco vem usando com frequência o lema från skärm till pärm. A frase parece um trava-línguas em sueco e significa algo como “da tela para o fichário”.
Os governantes defendem que as lições fora das telas criam melhores condições para que as crianças possam se concentrar e desenvolver suas técnicas de leitura e escrita.

Crédito, Maddy Savage
Desde 2025, as pré-escolas não são mais obrigadas a usar ferramentas digitais e as crianças não recebem tablets antes dos dois anos de idade.
Ainda este ano, entrará em vigor uma proibição dos telefones celulares nas escolas, mesmo para uso educacional.
As escolas já receberam mais de 2,1 bilhões de coroas (US$ 200 milhões, cerca de R$ 1 bilhão) em subsídios para investir em livros didáticos e guias para os professores. Um novo currículo destinado a estabelecer o ensino com base em livros didáticos deve ser publicado em 2028.
“Ler livros de verdade e escrever em papel de verdade, contar com números reais em papel de verdade, é muito melhor para fazer as crianças absorverem o conhecimento necessário”, defende Forsell.
A mudança de abordagem se seguiu a uma consulta realizada em 2023, envolvendo pesquisadores acadêmicos, organizações de ensino, agências públicas e municipalidades.
“Existe cada vez mais consciência dos transtornos causados pela tecnologia na sala de aula”, explica a neurocientista Sissela Nutley, afiliada ao Instituto Karolinska, em Estocolmo. Ela faz parte do grupo de pesquisadores que levantaram preocupações sobre o uso das ferramentas digitais.
Nuttley afirma que os estudantes podem perder a concentração, observando o que as outras crianças estão fazendo nas telas.
Ela também indica um corpo cada vez maior de pesquisas internacionais que indicam que a leitura de textos em aparelhos digitais pode fazer com que as crianças tenham mais dificuldade de processar informações, e que o uso intenso das telas pode até prejudicar o desenvolvimento cerebral dos estudantes mais jovens.

Crédito, Liberal Arna
O governo sueco espera que a mudança para os métodos de ensino mais tradicionais ajude a melhorar a posição da Suécia no ranking Pisa, o padrão para assuntos centrais na área da educação da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Antes nas primeiras colocações do ranking, a Suécia afundou em 2012. E, após uma breve recuperação, o país vivenciou outra queda significativa em matemática e leitura, no ano de 2022.
Ainda levemente acima da média dos países da OCDE, a Suécia teve resultados de leitura inferiores a países como o Reino Unido, EUA, Dinamarca e Finlândia em 2022. Entre os estudantes com 15 ou 16 anos de idade, 24% não atingiram o nível básico de compreensão de textos.
“Sabemos que as crianças que passaram por todo o sistema escolar com muitas telas estão ficando para trás nas pesquisas internacionais”, segundo Forsell.
Mas a pesquisa destacou a alta incidência de distrações digitais nas salas de aula da Suécia e correlacionou o forte uso de aparelhos digitais nas aulas de matemática aos resultados inferiores.
Ainda assim, as avaliações ainda foram superiores às dos alunos que não usaram aparelhos digitais.
O diretor de Educação da OCDE, Andreas Schleicher, aconselha cautela sobre a atribuição de “causa e efeito”. Ele ainda indica que a adoção mais “extrema” da tecnologia pela Suécia, em comparação com outros países, provavelmente influenciou os resultados.
“O país simplesmente colocou muitos aparelhos e tecnologia nas salas de aula sem intenção pedagógica clara, sem metas definidas”, segundo Schleicher.
Fábrica de ‘unicórnios’
Mas a estratégia do governo sueco de retorno aos livros gerou fortes debates na comunidade empresarial do país.
Um novo relatório da associação comercial Swedish Edtech Industry alerta que uma educação mais analógica se arrisca a deixar os estudantes mal preparados para os futuros empregos.
“Todos precisam de conhecimentos digitais básicos para entrar no mercado de trabalho”, defende a CEO (diretora-executiva) da associação e ex-professora Jannie Jeppesen.
Jeppesen também se preocupa com o impacto sobre o empreendedorismo e a inovação.
A Suécia, atualmente, é a principal fábrica de “unicórnios” (empresas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão, ou R$ 5 bilhões) da tecnologia na Europa, proporcionalmente à sua população.
Estas empresas incluem o streaming de música Spotify e a plataforma de IA Legora, voltada para advogados. Este tipo de empresas “se mudará para outro lugar”, se não conseguir encontrar na Suécia as competências de TI adequadas, alerta Jeppesen.

Crédito, Maddy Savage
O governo sueco deseja que as escolas de ensino médio do país comecem a ensinar as oportunidades e riscos do uso da IA, mas alguns críticos afirmam que ela também deve fazer parte do currículo das crianças mais jovens.
Sem estas medidas, as crianças mais jovens de famílias mais ricas, com pais com mais possibilidade de ajudá-las a entender como usar as ferramentas de IA, sairiam em vantagem.
Isso criaria uma “divisão digital”, alerta a professora Linnéa Stenliden, do Departamento de Ciências do Comportamento da Universidade de Linköping, na Suécia.
Mas, de volta ao parlamento sueco, Joar Forsell defende que as crianças não devem aprender sobre a IA antes de dominar outros conhecimentos básicos. Ele rejeita a noção de que a técnica mais tradicional de educação adotada pelo governo aumentará a desigualdade.
Para ele, “você só pode oferecer às pessoas as oportunidades que a desigualdade está retirando delas oferecendo educação adequada”.
Mas Jannnie Jeppesen afirma que esta é uma postura “populista”. Para ela, o foco do governo nas salas de aula digitais vs. analógicas afasta a atenção de outros fatores que podem alterar os resultados.
Entre eles, está a distribuição desigual de recursos educativos e capacidades de ensino, destacada por um relatório da Agência Sueca de Educação, publicado em março.
Em Nacka, as opiniões dos estudantes do último ano também estão divididas.
“A internet meio que conquistou as gerações mais jovens e notei que eles perdem o foco com mais facilidade”, afirma Alexios, de 18 anos, que não quer que seus irmãos mais jovens usem as ferramentas digitais na escola tanto quanto a sua geração.
Mas outros, como Jasmine, de 19 anos, são a favor da educação digital, mesmo para crianças da escola primária.
“Vamos nos concentrar mais em computadores. Porque, sendo realistas, o mundo inteiro está usando computadores.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


