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3 de maio de 2026

Estados que mais reduziram homicídios sugerem rota para o Brasil

Estados que mais reduziram homicídios sugerem rota para o Brasil

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A segurança pública vem sendo apontada desde o ano passado como pauta determinante para as eleições de 2026, por afetar diretamente a vida de todos os brasileiros e ser uma preocupação praticamente unânime da população.

Gestores de estados com experiências bem-sucedidas recentemente no combate à violência têm aproveitado essa onda para promover suas candidaturas a diferentes cargos. É o caso de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, que tem usado a redução da criminalidade no estado como bandeira de sua pré-candidatura à Presidência, e do deputado federal Guilherme Derrite (PP), ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo, que menciona ações como o combate à cracolândia em meio a sua pré-candidatura ao Senado.

São Paulo é o estado com a menor taxa de homicídios a cada 100 mil habitantes do Brasil (8,2 em 2024, último ano com dados consolidados). Goiás, por sua vez, é a terceira unidade federativa com a maior redução de homicídios no país nos últimos dez anos, atrás de Distrito Federal e Sergipe.

No Brasil inteiro, o índice de homicídios teve uma queda relevante na última década, especialmente a partir de 2017 (veja infográfico abaixo). Em 2015, o Brasil tinha 28,6 mortes violentas intencionais por ano para cada 100 mil habitantes, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 2024, último ano com números consolidados pelo FBSP, o índice chegou a 20,8.

Nas três unidades da federação que lideram essa tendência, houve redução maior que 50% na taxa de homicídios nos últimos dez anos: o Distrito Federal teve queda de 62,6% desde 2015; Sergipe teve diminuição de 60,2%; e Goiás, 59,3%.

Em comum, os três casos combinam maior integração entre as forças policiais, uso mais intenso de dados e inteligência policial, investimento em tecnologia e estrutura, valorização dos profissionais de segurança e atenção especial a áreas mais vulneráveis ou estratégicas.

O que fazem os estados com melhor desempenho na redução de homicídios

Em Sergipe, o governo atribui os números à melhora nas ações de investigação, ao uso inteligente de dados, à valorização dos profissionais da área e à boa coordenação e integração entre as diferentes forças de segurança – Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Científica.

“A integração entre as polícias Civil, Militar e Científica tem sido decisiva para os resultados que estamos alcançando. Além disso, os investimentos em tecnologia, estrutura, inteligência e valorização profissional fortalecem nossas ações e tornam Sergipe o estado mais seguro do Nordeste”, disse no ano passado o secretário da Segurança Pública do estado, João Eloy.

Já o governo do Distrito Federal credita a redução drástica dos homicídios nos últimos anos ao sucesso do programa “Segurança Integral”, implementado em 2023. O programa tem como um de seus diferenciais um forte investimento em tecnologia, com ampliação do videomonitoramento. Outro ponto importante é a atenção a regiões com situação mais crítica.

“O trabalho regionalizado feito por meio das Áreas Integradas de Segurança Pública tem sido essencial para direcionar o policiamento a regiões estratégicas, com base em análises de manchas criminais e ferramentas de gestão inteligente. Isso nos permite agir de forma rápida e eficiente, trazendo impactos significativos para a população”, disse no ano passado Sandro Avelar, secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.

A tendência de redução de homicídios no DF começou em 2015, ano do início do programa “Pacto pela Vida”, que buscou integrar as forças de segurança com foco especial em segmentos e regiões vulneráveis da capital, com ênfase na redução de homicídios. Isso introduziu uma cultura de gestão orientada por dados e monitoramento da criminalidade que, mesmo após a descontinuidade o programa, foi mantida e reforçada.

Em Goiás, o secretário de Segurança Pública, Renato Brum, disse em 2025 que a queda expressiva é fruto “de uma atuação integrada, do uso de inteligência policial, de investimentos em tecnologia, equipamentos e capacitação, além do comprometimento diário dos nossos profissionais”. Ele afirma que o governo investiu mais de R$ 17 bilhões em segurança.

Caiado tem usado o bom desempenho goiano na segurança pública como principal bandeira eleitoral em sua pré-candidatura à Presidência da República. “De todas as áreas, a segurança pública é a que mais avançou no meu governo. Estamos mostrando que é possível, sim, reduzir a criminalidade com gestão séria, investimentos, integração das forças policiais e valorização dos servidores”, disse no ano passado.

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Estabilidade das iniciativas e proximidade com as comunidades também importam

O cientista político Luiz Ramiro, pesquisador em segurança pública e fundador do Instituto Arrecife, destaca outro elemento importante para o êxito de qualquer programa de combate à violência: a continuidade e a estabilidade das iniciativas.

“A gente teve já nos anos 2000, 2010, uma etapa de grandes programas que tiveram resultados importantes, como o ‘Pacto pela Vida’ em Pernambuco. Agora, o âmago do sucesso é a continuidade. Em Pernambuco, tudo se desfez”, exemplifica.

“Alguns programas de alguns estados não se constituíram. A gente pode pegar até mesmo o desdobramento da UPP [Unidade de Polícia de Proximidade] no Rio de Janeiro, em que o depois, o dia seguinte, foi uma catástrofe. Foi um efeito rebote muito ruim”, diz.

Para ele, casos como os do Distrito Federal, de Sergipe, de Goiás e de São Paulo têm como ponto de convergência justamente a estabilidade dos programas. “A continuidade da governança sobre a segurança pública é fundamental, porque toca num ponto que é a recuperação de espaços urbanos seguros, um enfrentamento àquilo que a gente chama de gestão do crime nos territórios. Isso de fato tem se tornado um problema grave em várias regiões, não só no caso do Rio de Janeiro, mas em tantas outras partes do país. E só uma força permanente, consistente, consegue se sobrepor a essas ameaças.”

O coronel Eduardo Oliveira Fernandes, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, professor do Centro de Altos Estudos de Segurança (Caes), diz que a integração das forças policiais também é um elemento fundamental. “Os gestores e os governos precisam procurar de maneira incisiva a integração de duas instituições: a Polícia Militar e a Polícia Civil. Com essas duas instituições atuando conjuntamente, se eu pego um capitão que comanda uma subárea, que às vezes tem vários bairros, ele pode comandar um policiamento preventivo, e vai poder atuar em conjunto com o delegado da Polícia Civil daquele distrito policial, que tem a sua função também. Eles vão ter um território em comum, trabalhar em conjunto”, explica.

Para ele, além da integração das forças policiais, a proximidade com as comunidades também é importante. “As comunidades passam as informações. As reuniões dos conselhos de segurança já existem há muito tempo aqui em São Paulo. Os comandantes, o policial militar, tem que ter vínculo, tem que se enxergar como parte da comunidade, para que, por exemplo, um comerciante passe tranquilamente ao policial o que está correndo. De repente, a pessoa fala: ‘Eu enxergo, do meu apartamento, todo dia de manhã, pessoas sendo vítimas de furto em um ponto de ônibus’. E essa informação tem que chegar”, diz.

“A questão do policiamento comunitário, que às vezes é esquecida, sobretudo nos períodos eleitorais, é algo de grande importância. Sobretudo porque é esse policiamento comunitário que aproxima o policial da sociedade. É a construção dessa confiança que faz com que os programas de policiamento funcionem efetivamente”, acrescenta.

Na opinião de Fernandes, o discurso punitivista é usado de forma demagógica na época das eleições. “Quando o político quer voto, ele não vai falar de polícia comunitária, por exemplo. Ele vai usar determinados mantras políticos com finalidade eleitoral. Vai defender, por exemplo, a utilização de fuzis, uma política mais repressiva em detrimento de uma política preventiva que traga resultados a longo prazo”, diz.

Para Ramiro, “não basta o candidato indicar que sabe a direção do vento – ele tem que demonstrar que de fato vai atuar para isso”. “E atuar, primeiro, cobrando dos legisladores e do Poder Executivo que alterem a lei penal, ampliem a repressão, reduzam a maioridade penal e permitam atuações seguras, como as internações compulsórias por questões de saúde. Senão, continuaremos com aquele bordão da polícia enxugando gelo”, afirma.

Nós podemos até diminuir as mortes violentas, mas a criminalidade pode ir para outro lado. É o que vemos hoje com os criminosos contumazes e superpredadores, que são presos 50, 70 ou mais de 100 vezes. São os ladrões de celular e de cabos, que deixam bairros inteiros sofrendo com a interrupção da internet. São temas do cotidiano que parecem menores, mas não são. É preciso mostrar que se vai até o final, pisando fundo de forma consistente e com estudo, sem cair na retórica daqueles que vão apenas apontar para certa direção, mas sem reforçar, de fato, a atuação da polícia, e permitir um ciclo completo.”

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Fonte. Gazeta do Povo

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