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7 de maio de 2026

Grupos percorrem trilhas de longo curso no Brasil – 06/05/2026 – É Logo Ali

Grupos percorrem trilhas de longo curso no Brasil – 06/05/2026 – É Logo Ali

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Os mais velhos vão se lembrar de um jovem cantor negro, cabelão black power, que sacudiu o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, durante o Festival Internacional da Canção de 1970 com a música “BR3”. O cantor era Tony Tornado, e a BR3 era a estrada que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais, hoje rebatizada como BR 040. Mas, se a estrada mudou de nome, outra BR3 voltou à boca do povo —ou, pelo menos, desse povo esquisito que bota a mochila às costas e sai a pé em busca da rota mais árdua Brasil afora.

Para dar continuidade ao sonho de uma BR3, na manhã do último dia 1° de maio, um animado grupo de voluntários se reuniu à porta do Horto Florestal de São Paulo para iniciar a caminhada da Exped Transmantiqueira 2026. Três deles estão percorrendo quase 1.000 quilômetros, de São Paulo a Ibitipoca, em Minas Gerais, mas 70 haviam se inscrito até o fechamento deste texto para participar de algum trecho da caminhada, que vai levar a “pegada” simbólica que sinalizará a trilha Transmantiqueira de ponta a ponta, em sistema de revezamento.

Enquanto essa turma saía de São Paulo, o idealizador e primeiro a percorrer e definir esse trajeto da Transmantiqueira, o coronel aposentado e ex-chefe do Parque Nacional de Itatiaia Luiz Aragão, deu largada, no mesmo dia e horário, a outro trecho de longo curso que ele passou meses mapeando—a trilha Volta ao Rio, que deve ter em torno de 2.400 quilômetros. Juntas, e somadas à Transespinhaço, que o mesmo Aragão percorreu há dois anos, com 740 quilômetros (e que, se as boas intenções permitirem, deve chegar a 1.200 quilômetros, de Ouro Branco (MG) até a divisa da Bahia), devem formar a BR3, a versão brasileira da Tríplice Coroa das Trilhas de Longo Curso dos Estados Unidos.

Vá lá que a versão americana, que reúne as trilhas Appalachian (3.520 quilômetros), Pacific Crest (4.260 quilômetros) e Continental Divide National Scenic (5.150 quilômetros), soma quase 13.000 quilômetros. Mas também é verdade que a cultura de bater perna pelo meio do mato, por lá, é muito mais difundida e há muito mais tempo, e grande número de vendinhas ao longo dos percursos demarcados oferece desde mochilas a alimentos liofilizados, passando por curativos e tralhas de acampamento. O resultado é que percorrem essas trilhas, em parte ou no total, alguns milhares de hikers (nome de quem mete o pé no mato com ao menos um pernoite incluído) por ano.

Reza a tradição que trilha de longo curso só é digna desse nome se tiver no mínimo, digamos, 1.000 quilômetros. Só que, no Brasil, o adensamento populacional das áreas mais tradicionais para trilheiros e montanhistas, ou seja, a região sudeste, faz com que sobrem poucos trechos com esse perfil. Porque trilha em que passa carro ou mesmo bicicleta não é trilha, é caminho. E trilha sem um mínimo de infraestrutura de apoio —leia-se eventuais pontos de hospedagem e reabastecimento nas imediações do percurso— é promessa de problemas à frente.

Claro que nem todo mundo pode se dar ao luxo de ficar 50, 70 dias, ou mesmo os três meses que Aragão prevê que caminhará para completar a Volta ao Rio, que começa e termina aos pés do Cristo Redentor, no Corcovado, no Rio de Janeiro. Mas também é verdade que, se mais pessoas se dispusessem a percorrer ao menos alguns trechos ao longo de umas férias, por exemplo, a consolidação das trilhas de longo curso seria mais fácil. Do jeito que está hoje, é frequente o que se imaginava para um traçado original esbarrar na porteira de um empreendimento novo que não quer nem ouvir falar em dar passagem a mochileiros.

O esforço para motivar mais gente a percorrer as trilhas já identificadas, mas ainda não consolidadas, muito menos sinalizadas, com seus tracklogs (arquivo digital que captura pontos de referência e dados geográficos essenciais para orientar o trilheiro) definidos e atualizados, não é apenas o sonho de quem ten tempo de sobra para se dedicar à causa mochileira. É também, e é importante que se diga, uma forma de impulsionar a economia de cidades e lugarejos que podem se beneficiar da iniciativa. Porque quem caminha com a vida às costas dias a fio sempre vai ter aquela hora em que vai virar consumidor de alguma coisa. E se a biboca ali no meio da paisagem tiver essa alguma coisa para oferecer, o caixa agradece.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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