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26 de maio de 2026

Criador de Bebê Rena é brutal em série sobre masculinidade – 26/05/2026 – Ilustrada

Criador de Bebê Rena é brutal em série sobre masculinidade – 26/05/2026 – Ilustrada

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Depois do fenômeno “Bebê Rena”, há dois anos, o ator e roteirista britânico Richard Gadd poderia ter seguido o caminho mais seguro: repetir a fórmula autobiográfica, ampliar o humor desconfortável e transformar seus traumas numa franquia de histórias pesadas. Mas escolheu a rota mais indigesta.

“Pela Metade” —no original, “Half Man”—, cujo último episódio chega à HBO Max nesta sexta (29), é uma obra menos viciante e menos acessível que seu trabalho anterior. Mas talvez seja justamente por isso que seus seis episódios tenham tanta força.

Não é apenas uma série nada simpática, nem um pouco acolhedora. Parece estar empenhada em punir o espectador, arrancando qualquer expectativa de catarse. Resta então um retrato sufocante da masculinidade como prisão emocional, social e física.

A produção acompanha a relação agressiva entre dois homens criados como irmãos: Ruben, interpretado pelo próprio Gadd, e Niall, vivido por Jamie Bell —ator sempre lembrado por sua performance juvenil em “Billy Elliot”. Na Escócia dos anos 1980, os dois convivem entre dependência, humilhação, desejo reprimido e violência.

A narrativa percorre décadas, reconstruindo aos poucos como aquele vínculo contaminou tudo ao redor. Não há heróis, vilões ou vítimas em “Pela Metade”. Apenas homens incapazes de compreender os próprios impulsos. E talvez expressá-los seja ainda mais difícil.

É impossível analisar a série sem retornar a “Bebê Rena”, que redefiniu a carreira de Gadd. Com ela, a Netflix criou um raro fenômeno cultural ao combinar brutalidade e honestidade emocional com uma narrativa que beira o suspense psicológico. Ao dramatizar perseguição, abuso sexual e compulsão afetiva a partir de experiências pessoais, Gadd produziu uma obra de intensidade desconcertante.

“Pela Metade” herda muitos desses elementos. O desconforto físico permanece. Os silêncios constrangedores continuam sendo usados como arma dramática. E a obsessão de Gadd por personagens emocionalmente deformados segue intacta. Mas há uma diferença fundamental.

“Bebê Rena” encontra humanidade justamente em sua vulnerabilidade autobiográfica, “Pela Metade” prefere o distanciamento. É ficção assumida. Mais simbólica e, por vezes, mais fria. Esse afastamento produz resultados ambíguos. Em alguns momentos, a minissérie alcança uma franqueza devastadora.

Há cenas em que a violência parece tão iminente que o espectador prende a respiração esperando a fúria eclodir. Gadd escreve homens que não sabem existir sem dominar, intimidar ou destruir alguém.

O Ruben adulto é uma criatura assustadora, sedutora, infantil e monstruosa. Jamie Bell, por sua vez, entrega talvez a melhor atuação de sua carreira, construindo Niall como alguém permanentemente esmagado entre medo e fascínio.

“Pela Metade” parece deliberadamente circular. A repetição emocional acaba transformando a experiência em algo exaustivo. Os personagens erram, se afastam, retornam e reincidem num padrão interminável de abuso psicológico. Mas a execução às vezes torna a narrativa pesada demais até para sua curta duração.

Mesmo sem ser um novo sucesso de massa no streaming, a série pode seduzir porque se recusa a suavizar qualquer coisa. Em tempos de televisão frequentemente domesticada por algoritmos e discussões em redes sociais, Richard Gadd continua interessado em criar obras que deixem o público exausto, irritado e dividido. Ele não escreve para responder questões morais.

Seu texto funciona melhor quando abandona qualquer pretensão sociológica e mergulha no horror íntimo dos personagens. É mais uma história sobre homens emocionalmente mutilados tentando viver sem violência. E fracassando repetidamente.

“Pela Metade” é um estudo brutal sobre pessoas que já perderam a capacidade de pedir ajuda. Pode não ter o impacto cultural do trabalho anterior, sem provocar a mesma identificação coletiva, mas confirma Richard Gadd como um dos criadores mais ousados e emocionalmente radicais que habitam o streaming.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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