10:57 AM
11 de junho de 2026

‘Banco’ do PCC, intermediária de ‘Dark Horse’ e debêntures sigilosas utilizaram mesmo fundo

‘Banco’ do PCC, intermediária de ‘Dark Horse’ e debêntures sigilosas utilizaram mesmo fundo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Um mesmo fundo de investimento, chamado Gold Style, fez transações com uma fintech apontada como “banco paralelo” da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e com a empresa responsável por repasses à produção de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O fundo também foi usado em movimentações de debêntures privadas e sigilosas, com suspeitas de irregularidades.

O Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório é administrado pela Reag Trust, gestora envolvida na ciranda financeira organizada pelo Banco Master para fraudar carteiras de crédito e inflar ativos, segundo investigações da Polícia Federal. O Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, e a Reag Trust, em janeiro.

Conforme informações públicas disponíveis na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o Gold Style foi constituído em abril de 2020, com um aporte de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, o patrimônio líquido saltou para R$ 1,84 bilhão. O fundo permanece “em funcionamento normal”, conforme os dados da CVM.

Não é possível saber quem são os donos e beneficiários do fundo -esse tipo de investimento e movimentação de dinheiro foi bastante utilizado por Reag e Master para fraudes e expansão artificial de ativos, conforme a PF.

Procurada pela reportagem, a Reag disse que não comentaria o assunto.

Os dados sobre as movimentações do Gold Style foram apurados pela Folha com base em análises de relatórios de inteligência financeira elaborados de forma sigilosa pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão público responsável por prevenção e combate à lavagem de dinheiro.

Esses documentos são elaborados a partir de comunicações feitas por instituições financeiras. A lei determina que os comunicados sejam feitos quando grandes montantes de recursos são movimentados ou quando há indícios de irregularidades ou crime financeiro. A reportagem acessou e analisou relatórios sobre o Master, a Reag e a fintech BK Bank, suspeita de operar para o PCC.

Comunicados que tratam do Gold Style afirmam que operações relacionadas ao fundo serviram para ocultar beneficiários, dificultar a identificação de pessoas envolvidas e atrapalhar o rastreamento, com “camadas complexas”.

Um dos relatórios de inteligência financeira registra lançamentos de R$ 133,6 milhões da BK Bank para o Gold Style em 2023, e de outras transações entre o fundo e a mesma instituição financeira, em 2024 e 2025, no valor de R$ 12,9 milhões.

A BK é uma das principais investigadas na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no mercado financeiro. PF, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo dizem que a fintech atuou para a facção criminosa, por meio de contas-bolsão em bancos que concentravam depósitos de clientes diversos, de forma a dificultar o rastreamento das transações.

A instituição oferecia a estrutura necessária para que empresas de fachada controladas por grupos criminosos movimentassem recursos sem transparência, conforme as investigações. Isso incluiu distribuidoras de combustíveis, responsáveis por fraudes no setor, segundo a Carbono Oculto. Com uma dessas empresas, o Gold Style movimentou R$ 311,7 milhões, aponta o Coaf.

Procurada por email na terça-feira (2), a BK não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Outro comunicado registra ainda transações entre o fundo e a Entre Investimentos e Participações, no valor de R$ 20 milhões. Houve repasses frequentes, conforme o relatório do Coaf.

A Entre teria sido utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, para repassar dinheiro ao “Dark Horse”, filme sobre Bolsonaro que conta com a participação direta de dois filhos do ex-presidente, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência.

Flávio buscou Vorcaro para garantir repasses do então banqueiro no valor de R$ 134 milhões, conforme revelado pelo site Intercept Brasil. Foram transferidos R$ 61 milhões, e parte da transação se deu da Entre Investimentos para o fundo Havengate, conforme a reportagem.

Em nota, o grupo Entre disse que as operações estão em conformidade com as normas e regulamentações do setor financeiro. “A empresa reforça compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente, permanecendo à disposição das autoridades competentes sempre que necessário.”

O Gold Style também foi usado em transações de debêntures privadas em que a Reag atuou como emissora, escrituradora ou agente fiduciário. Ao todo, foram identificadas 11 debêntures, e o valor envolvido soma R$ 3,6 bilhões, conforme uma comunicação da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, ao Coaf.

Debêntures são títulos de dívidas emitidos por empresas e geram direitos de créditos aos investidores. Os títulos servem para captação de recursos por essas companhias. Todas as debêntures listadas no relatório financeiro são privadas e sigilosas, não sendo possível identificar quem está por trás das movimentações.

Segundo o comunicado, foram identificados padrões em emissões de debêntures, com características semelhantes de valores, datas e remunerações; transações distintas entre fundos e bancos; contratos vencidos e liquidados com valor zero; e discrepâncias de preços.

Ao todo, as transações envolveram 12 fundos -o Gold Style entre eles- e três bancos: Master, Pleno e Digimais. O Pleno, de um ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, foi liquidado pelo BC em fevereiro. O Digimais, do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, corre risco de liquidação.

A defesa de Vorcaro disse que não se manifestará. O Digimais afirmou que não comentará em razão do processo de venda do banco que está em curso. O Pleno não respondeu aos questionamentos da reportagem, enviados por email.

Em nota, a B3 afirmou enviar diariamente discrepâncias, inconsistências ou indícios de irregularidade à BSM, braço de autorregulação da B3, e ao Coaf.

Os relatórios do Coaf mostram transações entre fundos usados nas emissões de debêntures, como o Gold Style e o Máxima, fundo que tinha o Master como responsável. Há ainda registro de transação de R$ 180 milhões entre o Gold Style e a Super Emprendimentos, empresa que funcionava como um braço financeiro de Vorcaro, com bens da família vinculados ao empreendimento.

FUNDO SAIU DE R$ 480 MI PARA R$ 1,84 BI; CONHEÇA

  • Nome do fundo: Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório
  • Administradora: Reag Trust Distribuidora de Títulos
  • Data de constituição: 01/04/2020
  • Aporte inicial: R$ 480,1 milhões
  • Patrimônio líquido (em maio de 2024): R$ 1,84 bilhão
  • Situação do fundo: em funcionamento normal, conforme a Comissão de Valores Mobiliários

As transações

Entre Investimentos e Participações: transação de pelo menos R$ 20 milhões
A Entre foi a empresa usada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para transferir dinheiro que seria destinado ao “Dark Horse”, filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)

BK Bank: transações de pelo menos R$ 146,5 milhões

A BK é uma fintech investigada na Operação Carbono Oculto, suspeita de funcionar como um “banco paralelo” do PCC

Aster Petróleo: transações de pelo menos R$ 311,7 milhões

A Aster Petróleo é investigada na Operação Carbono Oculto, com suspeita de fraudes no setor de combustíveis

Super Empreendimentos e Máxima Fundo de Investimento Multimercado: transações de pelo menos R$ 180 milhões

A Super funcionava como um braço financeiro de Vorcaro, com patrimônio pessoal vinculado à empresa. O Máxima tinha o Master como responsável

Debêntures privadas sigilosas: o fundo é um dos 12 usados em transações de debêntures privadas -com caráter sigiloso e com indícios de irregularidades- que somam R$ 3,6 bilhões

Essas transações envolvem três bancos: Master, Pleno e Digimais

Fontes: CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)

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Fonte Noticias ao Minuto

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