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- Author, Simone Machado
- Role, De São José do Rio Preto (SP) para a BBC News Brasil
Published
Tempo de leitura: 8 min
Um anjo chega ao céu e informa Deus sobre a onda de peptídeos que está se popularizando na Terra.
“O que tá rolando em story de influencer e clínica de estética são peptídeos antienvelhecimento, pra pele, ganho de massa… e esses aí não são aprovados nem pela Anvisa”, diz o anjo.
A conversa é parte de um vídeo de humor publicado no Instagram por Mari Krüger, divulgadora científica e criadora de conteúdo. A publicação já teve mais de 5,6 milhões de visualizações e soma quase sete mil comentários.
A ironia usada por Krüger em seu vídeo não é à toa. Os peptídeos se transformaram em uma das palavras mais populares do mercado de estética, longevidade e performance física nos últimos anos.
Divulgados em redes sociais, grupos de conversas e clínicas de estética, eles são apresentados como substâncias capazes de acelerar a recuperação muscular, estimular a produção de colágeno, melhorar a composição corporal e até retardar o envelhecimento.
No entanto, especialistas fazem um alerta: apesar das promessas, muitos dos benefícios atribuídos aos peptídeos não têm nenhuma comprovação científica e grande parte dessas substâncias não possui aprovação regulatória para uso clínico.
“Eu fiz o vídeo em um formato que já é conhecido no meu perfil que é o dos Anjos e Deus, em que eu mostro em tom de humor como as notícias, os absurdos da Terra chegam ao céu. A repercussão desse vídeo foi completamente inesperada. Não é uma bobagem, é um assunto muito sério. A gente trouxe o humor sem tirar a seriedade do assunto para conseguir explicar isso melhor para as pessoas. Esse perigo [do uso indiscriminado] e o quão urgente é falar sobre isso”, diz Mari.
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O que são os peptídeos?
Peptídeos são moléculas produzidas e formadas pelo nosso organismo. Eles são pequenas cadeias de aminoácidos, que são os mesmos componentes que formam as proteínas. A diferença está no tamanho: enquanto proteínas costumam ser estruturas maiores e mais complexas, os peptídeos possuem cadeias menores.
Essas moléculas desempenham funções importantes no organismo. Algumas atuam como hormônios, outras participam da comunicação entre células ou regulam processos biológicos como crescimento, metabolismo, cicatrização e resposta imunológica.
“Esses peptídeos, resumindo, funcionam como mensageiros biológicos e enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função”, explica Elisa Minami, cirurgiã plástica e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a estudar versões sintéticas desses compostos, ou seja, desenvolvidas em laboratório para reproduzir ou potencializar determinadas funções naturais do corpo.
Um dos peptídeos mais conhecidos é a insulina. Ela foi o primeiro peptídeo a ser descoberto e ajuda as pessoas com diabetes do tipo 1 e algumas do tipo 2 a administrar o nível de açúcar no sangue, controlando a doença.

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Outros peptídeos que ganharam espaço são os GLP-1s, como a semaglutida e tirzepatida, que são medicamentos que imitam o hormônio peptídeo similar a glucagon-1, que produzimos naturalmente no corpo e ajuda a regular o nível de saciedade.
Tanto a insulina quanto os análogos do GLP-1 são peptídeos da classe dos medicamentos e passaram por extensos e robustos testes em humanos até serem aprovados por órgãos regulamentadores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A existência desses medicamentos aprovados, porém, não significa que todos os peptídeos disponíveis no mercado apresentem o mesmo nível de segurança ou eficácia.
No Brasil, os peptídeos aprovados pela Anvisa e com circulação autorizada incluem apenas medicamentos injetáveis como a insulina, os para obesidade com semaglutida (Ozempic, Wegovy) liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), e cremes com peptídeos.
Há um mercado paralelo de outros peptídeos, injetáveis ou comercializados como suplementos alimentares com foco na beleza e estética e que não possuem comprovação científica e nem regulamentação.
Em 2024, por exemplo, a Anvisa também baniu a comercialização e manipulação dos chamados “chips da beleza”, implantes hormonais que poderiam conter peptídeos e eram colocados sob a pele.
Quais são os principais tipos de peptídeos?
Esse universo dos peptídeos é amplo e reúne centenas de moléculas diferentes. O corpo produz peptídeos naturalmente. Peptídeos sintéticos são fabricados para imitar ou potencializar essas funções naturais.
Peptídeos como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 estão entre os mais difundidos no Brasil e, apesar de não serem aprovados pela Anvisa, podem ser encontrados em sites, plataformas de vendas e em clínicas de estética.
“Estes produtos não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria, sendo ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Produtos como estes não têm qualquer garantia de segurança, origem e composição”, disse a Anvisa, em nota.
A principal propaganda para a venda desses produtos é de que eles podem aumentar a produção de colágeno, acelerar a reparação da pele, reduzir rugas e até mesmo reverter aspectos do envelhecimento biológico. Eles também são frequentemente promovidos como agentes capazes de acelerar a cicatrização de lesões musculares, tendíneas e articulares.
No entanto, esses peptídeos não possuem evidências científicas de seus efeitos em humanos ou esses resultados ainda são limitados. Alegações de que esses peptídeos citados (GHK-Cu, BPC-157 e TB-500) ajudam a regenerar e reparar tecidos e a reduzir a inflamação baseiam-se em poucos estudos de laboratório feitos em células ou animais.
O GHK-Cu, também conhecido como peptídeo de cobre, é um peptídeo produzido pelo nosso corpo e é responsável pela estimulação da produção de colágeno. Ele pode ser usado topicamente, ou seja, uso externo, em cremes e séruns para a pele para reduzir as linhas finas, e nesse caso é autorizado. A proibição é para a injeção, pois ele não é considerado seguro para ser usado em injetáveis devido à falta de pesquisas científicas e aos riscos de despertar reações imunológicas que podem ser perigosas.

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Da mesma forma, algumas pesquisas sugerem que o BPC-157 e o TB-500 podem promover o crescimento de novas células sanguíneas, reduzir a inflamação e cicatrizar tecidos em ratos. Mas não há estudos robustos sobre seus efeitos em humanos e com grupos de controle adequados. Por isso o seu uso como injetável também não é autorizado.
“Embora existam estudos laboratoriais e em animais mostrando resultados interessantes, as evidências clínicas em seres humanos ainda são limitadas. Isso significa que precisamos seguir estudando e informar a nossos pacientes sobre este tipo de medicina sempre com segurança”, diz Patricia Erazo, Coordenadora Científica Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e membro da Federação Ibero Latinoamericana de Cirurgia Plástica (FILACP).
Nenhum desses peptídeos citados possui registro na Anvisa para serem comercializados no Brasil.
“Os produtos que se apresentam como ‘peptídeos’ denominados ‘GHK-CU, BPC-157, TB500’, que prometem melhoras estéticas, não se encontram registrados perante a Anvisa. Da mesma forma não foram localizados registros de medicamentos contendo estes princípios ativos. Portanto, não há informações sobre a segurança de uso desses supostos produtos”, disse o órgão em nota.
“Apesar de suposta finalidade estética, esses produtos também não são cosméticos. Produtos cosméticos são unicamente para uso externo. Não existem cosméticos injetáveis e se o produto for oferecido desta forma, trata-se, com certeza, de produto irregular”, acrescentou a nota da Anvisa.
O que é regulamentado?
Uma das principais confusões para consumidores é a diferença entre peptídeos aprovados por agências reguladoras, como a Anvisa, e substâncias comercializadas sem autorização para uso clínico.
Medicamentos peptídicos que passaram por estudos clínicos rigorosos e receberam aprovação de órgãos reguladores podem ser prescritos para indicações específicas. Neste grupo estão alguns hormônios, medicamentos para diabetes, obesidade e algumas terapias voltadas para doenças raras. Todos eles precisam ser prescritos por um médico e o uso é feito apenas com acompanhamento desse profissional.
Outro grupo que pode ser comercializado são os cosméticos que possuem peptídeos em suas fórmulas. Esses podem ser em creme ou séruns, sempre de uso externo na pele, nunca injetável.
Já outros peptídeos divulgados em clínicas de performance ou vendidos pela internet permanecem classificados como substâncias experimentais. No Brasil, não há liberação para nenhum tipo de peptídeo injetável para fins estéticos, de modo que procedimentos que consistem em injetar essas substâncias na pele não são seguros.
Especialistas destacam que a ausência de aprovação regulatória não representa apenas uma questão burocrática. Ela indica que ainda não existem evidências suficientes para garantir que os potenciais benefícios superem os riscos.
“Os riscos dos injetados são muito sérios. Pode haver contaminação, reação inflamatória ou infecção. A pessoa não sabe usar a dose certa, então usa a dose errada e também há ausência de estudos robustos e segurança. Então, por isso eles são ilegais”, acrescenta Minami.
Quais são os riscos do uso sem orientação?
A percepção de que peptídeos seriam alternativas “naturais” ou livres de riscos é considerada equivocada pelos médicos.
Como qualquer substância biologicamente ativa, eles podem provocar efeitos colaterais. Entre os problemas relatados estão retenção de líquidos, alterações hormonais, dores articulares, aumento da pressão arterial, alterações metabólicas e reações no local da aplicação.

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Outro risco importante está relacionado à procedência dos produtos. Peptídeos não regulamentados podem ser rotulados incorretamente, contaminados ou dosados de forma inadequada.
Também existem riscos biológicos. Peptídeos que influenciam o crescimento, o reparo muscular ou as vias hormonais também podem estimular processos indesejados. Em teoria, isso poderia incluir o crescimento de tumores existentes ou a interrupção da função endócrina normal. Esse risco de câncer é amplificado pela alta presença de metais pesados nos mercados ilícitos de drogas para aprimoramento.
Além disso, quando não regulamentados pela Anvisa, esses peptídeos não passam por controles rigorosos de qualidade, podendo haver concentração incorreta, contaminação microbiológica e até presença de substâncias diferentes das declaradas nos rótulos.
Existe ainda a preocupação com efeitos desconhecidos de longo prazo. Como esses compostos não foram amplamente estudados em humanos, possíveis impactos após anos de uso ainda são incertos.
“Os riscos maiores seriam falsificação e de produtos sem procedência. Pode haver infecção por bactérias, a maneira de fabricação não ser adequada. Além disso, a gente não sabe se mais para frente vai ter algum prejuízo do uso desses produtos de maneira injetável, porque eles não são estudados”, acrescenta Alessandra Romiti, dermatologista, assessora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


