
Depois de o ministro Alexandre de Moraes solicitar informações com urgência à Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo (SAP-SP) sobre o monitoramento eletrônico de Débora Rodrigues dos Santos — conhecida como “Débora do Batom” —, defesa e familiares garantem que a moradora de Paulínia, São Paulo, segue sem sair de casa, cumprindo rigorosamente as regras da prisão domiciliar. Segundo eles, a cabeleireira enfrenta falhas na tornozeleira, cansaço e a tristeza de conviver diariamente com o “adeus”.
Ela foi sentenciada a 14 anos de pena por participar nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando escreveu a frase “Perdeu, Mané”, com batom, na estátua em frente ao STF. Débora passou dois anos no cárcere — longe dos filhos pequenos, na época com 5 e 8 anos — e obteve prisão domiciliar em 28 de março de 2025, quando voltou a abraçar as crianças. No entanto, não pode levar os filhos ao parque, à escola ou viajar em família.
“Um dia de cada vez. É assim que ela vai vivendo”, relata a irmã Cláudia Rodrigues, ao comentar que, nestas férias de julho, por exemplo, o esposo de Débora teve oportunidade de levar o Caio e o Rafinha para visitar parentes no Paraná, mas a mãe precisou ficar em casa, sozinha, devido às regras estabelecidas pelo uso da tornozeleira eletrônica. “Ela que, apesar da tristeza, incentivou os filhos a irem, porque eles não queriam deixar a mãe.”
Sem poder sair do portão, Débora convive diariamente com as despedidas, e sua família percebe como ela sente falta de viver momentos comuns. “Já aconteceram duas apresentações de dia das mães desde que a Débora veio para casa, por exemplo, mas em nenhuma ela conseguiu prestigiar os filhos”, lamenta Cláudia.
“É triste também saber que, devido às restrições, datas especiais como aniversários não podem ser comemoradas na casa deles com as pessoas que amam”, continua a irmã, que vê a angústia de seus sobrinhos diante da situação. “Isso entristece as crianças.”
Esses dias, inclusive, ele estava abraçadinho com a mãe, mexendo na orelha dela, olhou com certa tristeza pra Débora e perguntou ‘por que nos separaram por tanto tempo, mamãe?’. Minha irmã não conseguiu falar nada e eles apenas se abraçaram.
Cláudia Rodrigues, irmã da Débora do Batom
Ficar restrita ao interior de casa e ao pátio também faz com que Débora sinta falta até mesmo de ir ao mercado ou de caminhar pelas ruas do bairro. “Coisas tão simples, mas que ganham um significado imenso quando se perde a liberdade”, pontua Cláudia. De acordo com ela, Débora tem recebido acompanhamento psicológico online para se manter firme.
“Infelizmente, os meus sobrinhos não estão tendo esse mesmo acompanhamento por questões de orçamento e porque precisaria ser presencial”, diz. De acordo com a tia, as crianças demonstram preocupação em relação à situação da mãe, e o filho mais novo sempre pergunta se está tudo certo com a tornozeleira, como se tivesse medo de ficar longe da Débora novamente.
“Esses dias, inclusive, ele estava abraçadinho com a mãe, mexendo na orelha dela, olhou com certa tristeza pra Débora e perguntou ‘por que nos separaram por tanto tempo, mamãe?’. Minha irmã não conseguiu falar nada e eles apenas se abraçaram”, relatou Cláudia, emocionada.
Localização de GPS da tornozeleira tem apresentado falhas, explica defesa
Segundo o advogado Hélio Junior, a tornozeleira de Débora e de alguns presos do 8 de janeiro têm apresentado falhas de sinal nos últimos meses. Por isso, a defesa já informou nos autos, em maio, que os episódios não representam tentativa de evasão, mas instabilidade técnica no sistema de monitoramento.
“Posso afirmar que não houve qualquer violação das medidas impostas por parte dela”, sustenta o advogado, ao citar que o equipamento de outra envolvida no 8 de janeiro também apresentou o mesmo problema recentemente e que, caso o sistema judiciário solicite substituição do equipamento, Débora está à disposição.
Moraes ordenou nos últimos dias que o Núcleo de Monitoramento de Pessoas da SAP-SP esclarecesse os registros que apontaram ausência de sinal de GPS na tornozeleira, e a unidade confirmou as falhas eletrônicas nesta segunda-feira (27).
Débora passou 2 anos e 11 dias presa
Débora tem 40 anos, e foi presa em 17 de março de 2023, alvo da oitava fase da Operação Lesa Pátria, deflagrada pela Polícia Federal (PF). Ela passou mais de 400 dias na prisão sem denúncia — quase 12 vezes mais que o prazo estabelecido em lei. Ao todo, enfrentou dois anos e 11 dias no sistema prisional longe dos filhos, que hoje estão com 8 e 12 anos.
Conhecida como “Débora do Batom”, a cabeleireira foi condenada por associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de Golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado por sua participação no 8 de janeiro.
Naquela data, Débora escreveu “Perdeu, Mané”, com batom, na Estátua da Justiça. A frase foi dita pelo ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso a um homem que o questionou em Nova York sobre urnas eletrônicas após o presidente Lula (PT) vencer Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.
Fonte. Gazeta do Povo


