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- Author, Norberto Paredes
- Role, BBC News Mundo
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Milhares de migrantes cruzaram nos últimos dias a fronteira entre o Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África. O movimento gerou fortes reações, tanto na Espanha quanto na União Europeia, aumentando ainda mais as tensões diplomáticas entre Madri e Rabat.
Autoridades espanholas calculam que cerca de 60 mil pessoas conseguiram chegar ao território, por via terrestre ou marítima.
Vídeos e imagens mostrando milhares de pessoas nadando em direção à cidade de Ceuta viralizaram na quinta-feira (30/7) e a imprensa local noticiou que a movimentação na fronteira prosseguiu ao longo da noite.
As autoridades confirmaram a morte de pelo menos 57 pessoas que tentavam chegar ao território, que se encontra há séculos sob o controle espanhol.
Após um recente aumento das tentativas de cruzamento da fronteira, as autoridades locais solicitaram ajuda ao governo central em Madri, que destacou suas forças armadas para reforçar a segurança em Ceuta e na sua cidade-irmã de Melilla.
As autoridades afirmam que pelo menos 7 mil pessoas que entraram irregularmente no território nas últimas 24 horas são menores de idade.
Aqui explicamos em sete pontos o essencial sobre esta nova crise migratória.
1. Qual é a situação na fronteira?
Ceuta e Melilla são duas cidades autônomas que pertencem à Espanha há mais de cinco séculos. O Marrocos reivindica as cidades como parte do seu território desde que conquistou sua independência, em 1956.
O direito internacional não considera as cidades como colônias. E a Organização das Nações Unidas (ONU) não inclui Ceuta e Melilla na sua lista de territórios pendentes de descolonização, o que, na prática, respalda seu status como parte da Espanha.
Os dois enclaves constituem as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África. Eles são protegidos por sistemas de duas barreiras, além de forte presença policial e militar.

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Depois da entrada dos migrantes vindos do Marrocos, o governo espanhol deslocou soldados do exército em Ceuta para reforçar a segurança local. As autoridades indicam que, em Melilla, também foram registrados 300 a 400 cruzamentos de fronteira na noite de quinta-feira (30/7).
Vídeos gravados naquele dia mostram uma avalanche de pessoas correndo pela praia de Tarajal, em Ceuta, e nas vizinhanças. A maioria parecia ser composta por homens jovens.
As duas cidades se transformaram há anos em um dos principais pontos de entrada de muitos migrantes africanos para a Europa, em busca de melhores oportunidades financeiras e qualidade de vida.
A situação é especialmente delicada em Ceuta. Sua população é de cerca de 83,6 mil habitantes, segundo os últimos números oficiais. Por isso, a chegada de até 60 mil pessoas representa um impacto significativo.
O caos persiste nas ruas de Ceuta desde quinta-feira, segundo a imprensa local.
“Ninguém sai na rua. Eles têm medo”, declarou ao jornal espanhol ABC o segurança de um hospital muito próximo à fronteira.
“Este evento de agora é mais forte e agressivo do que já havíamos presenciado antes.”
2. Qual foi a reação da Espanha?
Após o destacamento de tropas militares e o aumento do apoio naval, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, se deslocou para Ceuta nesta sexta-feira (31/7).
Falando do enclave espanhol, ele chamou o ocorrido na quinta de “ataque, uma violação da integridade territorial da Espanha”.
Sánchez culpou as máfias por “enganar muitos jovens” e anunciou a instalação de boias para criar uma barreira de contenção.

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Por outro lado, o prefeito da Cidade Autônoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, alertou na quinta-feira (30/7) sobre a gravidade da crise migratória. Ele afirmou que a situação atingiu um nível de “absoluta emergência humanitária e social”.
Vivas pediu ao governo central em Madri que seja declarada “emergência nacional”, frente ao aumento da chegada de migrantes da África.
Mas o Executivo espanhol defende que não pode ativar este dispositivo porque as normas estatais de proteção civil não contemplam os fluxos migratórios como risco, segundo o Sistema Nacional de Proteção Civil, nem existem planos específicos para sua administração.
Sánchez afirmou em várias ocasiões que seu governo está trabalhando para gerenciar a crise. E, durante sua visita a Ceuta, ele declarou que seu governo utilizará “todos os recursos do Estado” para garantir a segurança da cidade autônoma.

A reação do primeiro-ministro também gerou críticas por parte da oposição.
O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou Sánchez de agir com “fraqueza”. Já o porta-voz no Congresso espanhol da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Gabriel Rufián, responsabilizou o Marrocos, acusando Rabat de “chantagear” a Espanha e a Europa.
Por outro lado, o líder do partido Vox, Santiago Abascal, qualificou a crise migratória como uma “invasão”.
3. Por que está acontecendo neste momento?
Na Espanha, alguns atribuíram o recente aumento da migração a uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que determinou, três semanas atrás, que os migrantes interceptados no mar quando tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente ao Marrocos.
Na quinta-feira (30/7), o Ministério do Interior acusou as redes de tráfico de pessoas de “instrumentalizar” esta resolução judicial para “incentivar o fluxo de imigrantes sem documentos” para Ceuta.
O Ministério também anunciou um acordo com o Marrocos para reforçar a coordenação entre os dois países e agilizar o retorno dos migrantes que entraram de forma irregular “o mais breve possível”.

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Outras vozes também criticaram o governo de Sánchez, tanto na Espanha quanto no exterior.
Na quinta-feira (30/7), a Casa Branca atribuiu a situação em Ceuta às “políticas globalistas de extrema esquerda” da Espanha.
“O presidente Trump vem alertando a Europa há tempos sobre as consequências de continuar implementando políticas globalistas de extrema esquerda, como facilitar a migração em massa”, declarou à agência de notícias espanhola EFE a porta-voz da Casa Branca, Ana Kelly.
“A Espanha e outros países que adotaram esta filosofia destrutiva deveriam retificá-la de imediato ou correrão o risco do seu próprio desaparecimento.”
4. O que diz o Marrocos?
A embaixadora do Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, afirmou na quinta-feira (30/7) que a situação não é a desejada pelo Marrocos e pediu aos cidadãos marroquinos que cruzaram a fronteira para a cidade autônoma que regressem ao país.
“O governo do Marrocos solicita e deseja que aqueles concidadãos que atravessaram a fronteira retornem ao nosso país”, declarou ela, durante um ato celebrado em Madri por motivo do 27° aniversário da coroação do rei marroquino, Mohamed 6°.
“Não é algo que nos agrade; queremos sempre uma imigração ordenada e segura para todos”, destacou a embaixadora.
Nesta sexta-feira (31/7), a Espanha e o Marrocos reforçaram a barreira fronteiriça do enclave espanhol. Aparentemente, eles impediram em grande parte os cruzamentos em massa.
As autoridades espanholas afirmaram que milhares de migrantes regressaram voluntariamente ao Marrocos, mas a situação em Ceuta permanece delicada, frente ao grande número de cruzamentos da fronteira e ao desafio humanitário enfrentado pelo pequeno território.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


