
Crédito, Getty Images
- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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Em entrevista à BBC News Brasil, Casarões classificou como uma medida sem precedentes e que não se encaixa nos cenários tradicionais que poderiam justificar uma ação desse tipo, como um escândalo envolvendo o diplomata ou uma ruptura das relações entre os países.
“Quando isso acontece, geralmente acontece quando a pessoa cometeu algum tipo de infração muito grave e isso gera uma crise diplomática”, afirmou.
“Isso que o governo americano apresentou não faz sentido do ponto de vista das relações diplomáticas. Me parece muito mais um instrumento arbitrário para dar um recado e colocar pressão sobre o governo brasileiro, dada uma suposta insatisfação do governo americano que se acumulou ao longo das últimas semanas”, acrescentou.
Segundo apurou a BBC, a medida foi uma resposta à demora na concessão do agrément — a autorização formal para que um representante diplomático estrangeiro assuma o cargo — ao indicado pelos Estados Unidos para ocupar a embaixada em Brasília, Daniel Perez.
No mesmo período, o governo brasileiro negou vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado que pretendiam visitar o Brasil após o Washington Post noticiar que a viagem poderia ser usada para levantar dúvidas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
A BBC também apurou que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Daniel Perez e que não havia encontrado declarações ou fatos que desabonassem o nome indicado pelos Estados Unidos.
No entanto, houve uma quebra da praxe diplomática quando Washington anunciou o nome do futuro embaixador antes de solicitar formalmente a autorização ao governo brasileiro.
Para Casarões, esse rompimento do rito diplomático é justamente o principal ponto de incômodo para o Itamaraty.
O professor comparou o episódio a uma crise envolvendo Brasil e Israel em 2015, quando o então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou pelo Twitter (atualmente X) a indicação de Dani Dayan para a embaixada israelense em Brasília antes da consulta formal ao governo brasileiro.
Na ocasião, o governo brasileiro demorou meses para se manifestar sobre a indicação. Segundo Casarões, o problema para o Brasil não era o perfil do indicado, mas o fato de a nomeação ter sido anunciada antes da consulta diplomática.
“No caso do Daniel Perez, foi a mesma coisa: foi uma nomeação que poderia ter passado pelos protocolos diplomáticos normais. Ele foi anunciado de maneira unilateral pelo governo americano sem a consulta do governo brasileiro”, explicou Casarões, lembrando que os EUA chegou a ficar cerca de um ano sem embaixador no Brasil.
“A sensação que eu tenho é que o governo americano fica jogando cascas de banana esperando que o Brasil, em alguma delas, responda de uma determinada forma que justifique mais medidas restritivas por parte dos Estados Unidos”, destacou.
Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada pelo Departamento de Estado americano e afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos eram falsas.

Crédito, Jefferson Rudy/Agência Senado
A revogação do visto da embaixadora ocorre em meio a uma crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos que começou em 2025, teve um período de distensão e voltou a se intensificar no último mês.
No ano passado, o governo Trump anunciou um pacote de tarifas sobre produtos brasileiros e impôs sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, citando perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em setembro por golpe de Estado e outros crimes.
Washington também revogou os vistos de autoridades brasileiras.
Em novembro, após uma conversa por telefone com Lula, Trump anunciou a retirada parcial das tarifas. No mês seguinte também suspendeu as sanções contra Moraes, reduzindo a tensão entre os dois países.
A trégua, porém, durou pouco, e a crise voltou a se intensificar em 2026. No fim de maio, os Estados Unidos classificaram as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, decisão criticada pelo governo brasileiro.
Já no fim de julho, Washington anunciou duas novas tarifas sobre produtos brasileiros, resultado de investigações distintas: uma de 25%, relacionada a práticas comerciais consideradas injustas pelos Estados Unidos, e outra de 12,5%, sob a alegação de que o Brasil falhou em combater adequadamente o trabalho forçado.
Para Casarões, a revogação do visto da embaixadora representa mais um passo nessa escalada e evidencia que Washington já lançou mão de praticamente todos os instrumentos de pressão à sua disposição.
“À exceção da solução militar, não tem mais muito que os Estados Unidos possam fazer para pressionar o governo brasileiro. Todas as medidas já foram colocadas à mesa. De tarifas e investigações comerciais à Lei Magnitsky e à revogação de vistos de autoridades brasileiras. Só faltava realmente criar uma situação envolvendo um embaixador.”
Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão Trump avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano.
Por enquanto, ressalta a fonte, Viotti não foi declarada persona non grata e não foi expulsa do país. Com a medida atual, a embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar nos EUA, caso saia do país.
“O presidente Trump tem o direito de determinar quem representa o povo e os interesses dos Estados Unidos ao redor do mundo. O presidente Trump está formando, em toda a sua administração, uma equipe diplomática de primeira linha pautada pela política ‘America First’, sujeita ao aconselhamento e consentimento do Senado. Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos”, disse ainda um porta voz do Departamento de Estado à reportagem.
Interferência nas eleições
Na avaliação de Casarões, a demora na concessão do agrément para o embaixador americano também está relacionada ao temor do governo brasileiro de uma possível interferência no processo eleitoral.
“A posição do governo brasileiro era até meio estratégica: a gente não vai negar o cara, mas deixa ele vir depois das eleições. O medo é que ele, a partir do exercício do cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, contribuísse para favorecer ou facilitar a candidatura do Flávio Bolsonaro, e uma eventual interferência mais direta nas eleições”, afirmou.
Na nota em que repudiou a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, o governo brasileiro afirmou que a decisão americana “fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
Casarões afirma que episódios recentes corroboram para essa preocupação do governo brasileiro, citando a tentativa de envio de funcionários americanos ao Brasil para discutir a integridade do sistema eleitoral e a atuação de autoridades ligadas ao governo Trump em questões envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Você já tem tantos instrumentos políticos, econômicos e jurídicos que já foram desdobrados contra o Brasil que é difícil a gente dizer que os Estados Unidos não querem nada com essa eleição. Eu não consigo não chamar isso de uma tentativa de interferência.”
Apesar da escalada das tensões, o professor avalia que o governo brasileiro vai tentar equilibrar uma resposta firme com a necessidade de evitar uma deterioração ainda maior da crise.
Segundo ele, o Palácio do Planalto deve buscar construir uma narrativa de defesa da soberania nacional, mas o Itamaraty tende a agir com cautela diante da imprevisibilidade do governo Trump.
Uma saída provável seria o Brasil autorizar a indicação de Daniel Perez, mas apenas após as eleições, para evitar uma possível interferência no processo eleitoral e que a decisão seja vista como uma concessão feita sob pressão.
“O problema não é aceitar o nome. O problema é aceitá-lo como parte de uma chantagem, como parte de uma negociação de refém. É essa estratégia que o governo americano vem fazendo sistematicamente, não só com o Brasil, com o mundo inteiro”, afirma Casarões.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


