
Crédito, Collins Photo Agency
- Author, Norberto Paredes
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 7 min
A guerra no Irã não alterou apenas o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio. Ela também trouxe consequências inesperadas.
Uma delas se concretizou em meados de abril, quando as autoridades detiveram em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o irlandês Daniel Kinahan, indicado há anos como figura fundamental do crime organizado internacional.
Em abril de 2022, o governo americano impôs sanções após identificá-lo, ao lado de outros membros da sua família, como um dos líderes do chamado cartel Kinahan, uma rede vinculada ao tráfico de drogas, armas e assassinatos.
Considerado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e por agências policiais europeias como um dos criminosos mais influentes da Europa, Kinahan também mantinha vínculos com o mundo do esporte por meio da MTK Global, sua antiga empresa de representação (2012-2022). Ela chegou a trabalhar com mais de 100 boxeadores, entre eles os britânicos Tyson Fury e Carl Frampton.
As autoridades dos Emirados Árabes Unidos realizaram a prisão dentro de um contexto de maior vigilância no Oriente Médio, causado pelo receio de que redes criminosas internacionais aproveitassem a instabilidade gerada pela guerra no Irã.
A jornalista investigativa Nicola Tallant, especializada no crime organizado, afirmou que a prisão é muito significativa e representa um duro golpe para os Kinahan.
“As autoridades investiram muito tempo e recursos humanos para desmantelar o cartel Kinahan e esta é uma grande conquista”, declarou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
“Mas se trata de uma organização muito grande, com muitíssimo dinheiro”, prossegue ela, “e não acredito que a eliminação de uma única pessoa consiga destruí-la.”
“Minha opinião é que existem pessoas já preparadas para assumir a direção do cartel. Eles não irão se render, nem desaparecer, simplesmente porque Daniel foi preso.”
A polícia irlandesa afirmou em um comunicado que a detenção demonstra a importância e “a necessidade de cooperação policial internacional para combater o crime organizado transnacional”.
A operação foi possível depois que as autoridades irlandesas enviaram aos Emirados Árabes Unidos um expediente judicial, detalhando os supostos delitos de Kinahan e seu papel na rede criminosa internacional.
A partir deste documento, a Procuradoria de Dubai emitiu um mandado de prisão para iniciar os procedimentos legais para sua extradição.
Kinahan foi detido menos de 48 horas depois da emissão do mandado.
Segundo a polícia irlandesa, este processo ocorreu no âmbito do acordo bilateral de extradição entre a Irlanda e os Emirados Árabes Unidos, considerado fundamental para este tipo de operação conjunta.
Os Kinahan
A relação entre os Kinahan e o tráfico de drogas remonta aos anos 1980, quando o pai de Daniel, Christopher Kinahan, já marcava grande presença.
Em 1986, Christopher Kinahan foi preso por tráfico de heroína e condenado a seis anos de prisão. Posteriormente, ele cumpriu penas mais curtas na Irlanda, Holanda e Bélgica.

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Mas ele teria ampliado sua rede de contatos, criando o que, no meio policial, chegou a ser conhecido como o Grupo de Crime Organizado Kinahan (KOCG, na sigla em inglês).
Em 2010, a KOCG já havia centralizado suas operações em Marbella, no sul da Espanha. Os irmãos Daniel e Christopher Kinahan Jr. eram suspeitos de ajudar o pai a dirigir o cartel familiar.
Naquela época, Daniel Kinahan já era bastante conhecido.
Em 2012, além de Daniel, seu pai Christopher e outros seis membros da família Kinahan receberam sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Washington acusa o suposto cartel Kinahan de estar por trás de atividades ilegais na Irlanda, Reino Unido, Espanha e nos Emirados Árabes Unidos.
A jornalista Nicola Tallant passou anos investigando a família Kinahan. Ela explica que Daniel morou na Espanha até 2016, onde fundou a empresa promotora de pugilismo MGM (que, depois, viria a se chamar MTK Global), começando a projetar a imagem de um empresário legítimo.
Desde aquele ano, o grupo se envolveu em uma violenta disputa com a gangue rival Hutch.
“Um dos episódios mais marcantes foi a tentativa de assassinato no Hotel Regency de Dublin, na Irlanda, que desencadeou uma grande reação policial no país”, relembra Tallant.

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Naquele ataque, morreu a tiros David Byrne, associado aos Kinahan, e outras duas pessoas foram feridas. A disputa entre os Hutch e os Kinahan deixou, até hoje, pelo menos 18 mortos.
Tallant destaca que a “Operação Shovel”, uma tentativa anterior de desmantelar a organização em 2010, fracassou devido à lentidão do sistema judiciário e à sólida defesa legal do grupo.
Mas, após o tiroteio no Hotel Regency em 2016, a cooperação policial europeia mudou significativamente, levando a Holanda e a França a compartilhar inteligência de forma mais eficaz.
As autoridades irlandesas conseguiram desarticular grande parte da estrutura local. Cerca de 70 membros foram presos em poucos anos, por crimes como assassinato e lavagem de dinheiro.
Mas a perseguição de Kinahan ficou mais complicada quando ele se mudou para Dubai em 2016, ao lado do seu irmão. O pai de ambos já residia ali.
Em Dubai, Kinahan consolidou sua posição. Ele se integrou aos círculos empresariais e passou a ser uma figura influente no pugilismo internacional.
Paralelamente, as averiguações internacionais se intensificaram.
Investigações jornalísticas e fontes de inteligência mencionadas na imprensa indicam que o entorno do cartel Kinahan chegou a controlar parte significativa do tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa.
O Departamento do Tesouro dos EUA também descreve o cartel como uma “organização assassina”.

Crédito, Departamento do Tesouro dos EUA
Nicola Tallant explica que o narcotráfico na Europa evoluiu a partir de centros tradicionais. Um deles é Amsterdã, na Holanda, que chegou a ser chamado de “supermercado das drogas”, devido à sua posição logística e comportamento permissivo.
O outro é a Costa do Sol, no sul da Espanha, marcada pela corrupção, proximidade com o Marrocos e pela presença de redes criminosas internacionais.
Nos últimos anos, segundo Tallant, Dubai ganhou importância como um novo refúgio para grandes figuras do crime organizado.
Eles foram atraídos pelo estilo de vida local, pela concentração de riqueza e por um ambiente que, segundo ela, permitiu a chegada de capitais vinculados a atividades ilícitas, até que vieram os mandados judiciais internacionais.
“Dubai gira em torno do dinheiro e de estilos de vida hedonistas, uma riqueza difícil de imaginar”, explica a jornalista. “E grande parte desta riqueza provém do crime organizado.”
“Muitos grupos se sentem bem-vindos naquela cidade, sem dúvida.”
Sensibilidade geopolítica devido à guerra no Irã
O clima de tensão regional devido à guerra no Irã e a sensibilidade em relação às atividades vinculadas ao país, aparentemente, jogaram contra Daniel Kinahan.
Diversas fontes afirmam que as autoridades dos Emirados Árabes Unidos começaram a agir com mais firmeza após a divulgação de vínculos do suposto cartel de Daniel Kinahan com redes associadas ao Irã, especialmente em relação a atividades ilícitas, como o comércio de petróleo contrariando as sanções americanas às exportações do país.
Uma investigação do website de jornalismo investigativo holandês Bellingcat concluiu que pessoas vinculadas ao entorno do cartel participaram de circuitos de transporte e comercialização de petróleo sancionado.
Paralelamente, o jornal britânico The Times mencionou avaliações de segurança, segundo as quais o cartel mantinha “vínculos com a inteligência iraniana, particularmente em relação ao comércio ilícito de petróleo”.
O jornal noticiou que isso teria aumentado as pressões diplomáticas sobre os Emirados e contribuído para que as autoridades do país árabe decidissem tomar ações a respeito.
Neste contexto, a sensibilidade geopolítica em torno da guerra no Irã e os ataques realizados pelo país contra as nações do Golfo teriam contribuído para que as autoridades dos EAU reforçassem sua cooperação com a Irlanda e agissem contra as principais figuras do grupo.
Para a jornalista Nicola Tallant, a prisão de Kinahan se enquadra em um contexto mais amplo, que inclui o conflito no Irã e supostos vínculos do cartel com organizações como o Hezbollah.
Tallant destaca relatos de que o grupo teria oferecido transporte e investimentos vinculados ao narcotráfico, para financiar atividades dessas organizações. Ela descreve o caso como um pano de fundo geopolítico que acompanhou a investigação.
Este episódio deixa claro como os conflitos internacionais podem intensificar a pressão sobre as redes criminosas.
Para o governo irlandês, a prisão de Daniel Kinahan representa um avanço significativo na luta contra o crime organizado e um exemplo da importância cada vez maior da colaboração internacional em assuntos de segurança.
Com colaboração do jornalista Darragh MacIntyre.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


