
Crédito, Felix Lima/BBC
- Author, João Fellet e Felix Lima
- Role, Enviados da BBC News Brasil a El Salvador
Published
Tempo de leitura: 13 min
Caminhando por um bairro de El Salvador erguido no alto de um morro, Adélia Rosales aponta para um beco: “Aqui apareceram cinco pessoas mortas”.
Fazia poucos anos que ela morava com o marido e dois filhos pequenos na Campanera, bairro nos arredores da capital San Salvador que, na década passada, ganhou fama como um dos mais perigosos do planeta.
“Estávamos saindo para a igreja com meus filhos quando ouvimos a comoção”, lembra Adélia. “Foi então que percebemos que já havia uma grande quantidade de mortos no bairro.”
Professora do ensino infantil, ela diz que dias como aquele eram comuns nos vários anos em que a Campanera abrigou líderes da Barrio 18, uma das facções criminosas que fizeram de El Salvador, país na América Central com 6 milhões de habitantes, a nação com a maior taxa de homicídios do mundo em 2015.
Grande parte das mortes se devia à guerra travada entre a Barrio 18 e sua rival, a Mara Salvatrucha.
Em 2022, porém, Adélia diz que o cenário começou a mudar. Foi quando o Congresso de El Salvador, controlado por aliados do presidente Nayib Bukele, decretou um regime de exceção e impôs medidas drásticas para combater a criminalidade.
Entre outros pontos, as medidas passaram a permitir que a polícia prendesse pessoas sem mandado e as mantivesse presas por longos períodos antes de uma acusação formal, além de dificultar o acesso de detidos à defesa.
Desde o início do regime de exceção, que segue em vigor, cerca de 90 mil pessoas foram encarceradas e acusadas de ligações com as facções em El Salvador — incluindo todos os criminosos que aterrorizavam a Campanera, segundo Adélia.
Em visita à Campanera no fim de maio, a equipe da BBC News Brasil não notou qualquer sinal da presença de facções: crianças brincavam nas ruas até tarde da noite, clientes comiam em barracas de lanche e dezenas de soldados com fuzis patrulhavam a vizinhança.
“Nem em sonho imaginava que um dia viria isso tudo mudar — e tão rápido”, afirma a professora.
O filme trata dos efeitos do regime de exceção no cotidiano do país: de um lado, comunidades que se dizem aliviadas com o fim do domínio das facções; de outro, mães que afirmam ter filhos presos sem provas e moradores que relatam medo de se expressar ou criticar um governo que consideram cada vez mais autoritário.
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em “aceitar e continuar”.
Alerta: A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos YouTube conteúdo pode conter propaganda.
Final de YouTube post
Conteúdo não disponível
Veja mais em YouTubeA BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.
O documentário aborda ainda os desafios de replicar o modelo de Bukele em outros países. Em várias nações latino-americanas, eleições presidenciais recentes foram vencidas por candidatos que prometeram adotar medidas semelhantes às do presidente salvadorenho no combate à criminalidade.
O modelo de Bukele também está no centro do debate na eleição de 2026 no Brasil, em que candidatos como Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) dizem se inspirar no presidente de El Salvador e pretender adotar políticas alinhadas com seus métodos caso vençam.

Crédito, Felix Lima/BBC
Bukele tornou-se uma referência para políticos de outros países e desfruta de alta popularidade em El Salvador graças à transformação na Campanera e em vários outros bairros antes controlados por facções.
Em julho, um ranking da consultoria CB Global Data apontou Bukele como o líder mais popular da América Latina, com 67,4% de aprovação em El Salvador.
Para impor sua política de segurança, porém, o presidente concentrou poderes em um grau sem precedentes na história recente do país — cenário que tem levado críticos a acusá-lo de intimidar a oposição e enfraquecer as instituições democráticas. Ele nega as acusações.
Hoje, 57 dos 60 deputados da Assembleia Legislativa apoiam Bukele. A professora Adélia Rosales diz que muitos eleitores nem sabem os nomes dos deputados. “Votamos às cegas, desde que eles se comprometam a apoiar o presidente”, afirma.
Desde 2021, Bukele também não enfrenta qualquer oposição relevante no Judiciário. Naquele ano, o Congresso, alinhado ao presidente, destituiu cinco juízes da Sala Constitucional — órgão equivalente ao Supremo Tribunal Federal brasileiro —, substituindo-os por nomes simpáticos ao governo.
Outras mudanças legais e decisões judiciais recentes aprovaram a possibilidade de reeleições ilimitadas e ampliaram o mandato presidencial para 6 anos. Bukele já anunciou que disputará a eleição de 2027 em busca de um terceiro mandato. Uma vitória o manteria no poder até 2033, totalizando 14 anos no cargo.

Crédito, Getty
Queda dos homicídios, aumento da pobreza
A equipe da BBC News Brasil esteve em El Salvador por 10 dias entre maio e junho, visitando diferentes regiões do interior e do litoral do país, além da capital.
Um dos reflexos mais visíveis da melhoria nos indicadores de segurança é o boom imobiliário que o país vive hoje — em parte, alimentado por salvadorenhos que moram no exterior, apoiam Bukele e investem na terra natal.
Em lançamentos imobiliários no litoral e na capital San Salvador, apartamentos com três quartos podem custar mais de meio milhão de dólares — o dólar é a moeda do país desde 2001.
Em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia de El Salvador cresceu 3,9% — acima da média de crescimento na América Central (2,6%) e da média de crescimento nos cinco anos anteriores ao governo Bukele (2,4%). O desemprego fechou o ano em 4,72%.
Os bons índices econômicos, porém, não têm se traduzido em uma diminuição dos níveis de pobreza — pelo contrário.
Segundo o Banco Mundial, entre 2019 e 2023 (último ano com dados disponíveis), a proporção de domicílios salvadorenhos abaixo da linha nacional de pobreza passou de 22,8% para 27,2%, enquanto o percentual de famílias abaixo da linha de extrema pobreza foi de 4,3% a 8,8%.
O banco diz que o aumento da pobreza num cenário de crescimento da economia se explica, em parte, por uma diminuição da renda e da qualidade do trabalho entre os salvadorenhos mais pobres.
Muitos moradores entrevistados pela BBC News Brasil se disseram preocupados com a economia, o mercado de trabalho e os custos de vida no país.
No centro de San Salvador, palco de uma reforma urbanística que se tornou uma das principais vitrines do governo de Bukele, os contrastes entre a velha e a nova El Salvador ficam evidentes.
Nos poucos quarteirões revitalizados, há turistas, a fiação elétrica foi enterrada e as calçadas e os parques estão bem cuidados. Mas, nas quadras vizinhas, o cenário é outro: há muito lixo nas ruas, vendedores ambulantes e edifícios mal conservados.
Para o vendedor de sucata José Manuel, poucos salvadorenhos têm se beneficiado do momento econômico do país, enquanto a maioria da população luta para sobreviver.
Segundo ele, a reforma do Centro da cidade é uma “maquiagem para que pensem que estamos bem”. “Não há esperança de sairmos desse ciclo, porque não há empregos”, ele afirma enquanto caminha entre velhos televisores, bicicletas usadas e outras quinquilharias.

Crédito, Felix Lima/BBC
Causas estruturais da violência
Para Juan Carlos Torres, analista de segurança e professor da Universidade Don Bosco, em San Salvador, Bukele atacou a face mais visível da violência, mas não suas causas, como a pobreza e a desigualdade.
Para ele, a popularidade do presidente se deve, em parte, à sua habilidade em usar a comunicação para convencer os salvadorenhos de que “vivemos no país mais seguro do mundo”.
“Isso faz com que as pessoas acreditem nisso e peguem o telefone [para fazer uma denúncia] se veem algum delinquente”, afirma Torres.
Em 2025, o país teve 1,3 homicídio por 100 mil habitantes, o menor índice das Américas, abaixo até mesmo de nações como EUA (4,0), Argentina (3,6) e Canadá (2,0).
Em 2015, quatro anos antes do início do governo Bukele, o país tinha 103 homicídios por 100 mil habitantes, o maior índice do mundo naquele ano e pior indicador já registrado no país.
Sob o regime de exceção, El Salvador reduziu os níveis de violência, mas também virou o país com o maior índice de encarceramento do mundo.
Hoje há ali 1.659 presos a cada 100 mil habitantes, ou 1,6% da população do país. No Brasil, que ocupa o 15º posto no ranking de países com maior população carcerária do mundo, o índice é de 0,46%.
Organizações de direitos humanos afirmam, porém, que o grande número de presos reflete o uso de critérios questionáveis pelas forças de segurança de El Salvador. Segundo as entidades, muitas detenções são feitas com base em denúncias anônimas, aparência física ou provas frágeis.
Já o governo salvadorenho afirma que as detenções são amparadas na legislação e que cerca de 9 mil pessoas presas durante o regime de exceção foram libertadas após as investigações apontarem que elas não tinham vínculos com organizações criminosas. O grupo representa cerca de 10% do total de presos no regime.

Crédito, Felix Lima/BBC
‘Soube da morte do meu filho preso por um post no Facebook’
Os irmãos José Alfredo e Vidal Adalberto Vega González foram presos em 17 de maio de 2022. Moravam no Baixo Lempa, uma zona rural cerca de 100 km ao sul de San Salvador.
Para chegar à região, a equipe da BBC News Brasil viajou por estradas de terra que margeiam manguezais e atravessam comunidades humildes.
A mãe, Marta Elena González, diz que os filhos trabalhavam com a pesca de camarões e nunca se envolveram com criminosos. Segundo ela, porém, ambos foram detidos com base em denúncias anônimas e acusados de vínculos com facções.
Marta passou três anos sem receber notícias dos filhos. Sabia apenas o nome do presídio onde estavam e, mensalmente, ia até o local para entregar paquetes — pacotes com alimentos e itens de higiene básicos destinados aos detentos.
Até que, em abril de 2025, enquanto navegava no Facebook, ela viu uma foto do filho mais novo, José Alfredo, num post lamentando sua morte. A publicação havia sido feita por uma funerária.
“Foi assim que soubemos da morte dele, ninguém na prisão nos avisou”, afirma.
Ao entrar em contato com a funerária, Marta diz ter ouvido que, antes de morrer, o filho passou nove dias internado em um hospital por causa de uma infecção bacteriana.
“E nem me avisaram para que pudesse vê-lo pela última vez”, diz a mãe à BBC, com voz embargada.
“Quando o levaram, nem doente ele estava”, afirma.
“Ficamos com muitas perguntas sem respostas.”
José Alfredo tinha uma filha de 7 anos, hoje criada pela ex-mulher. Ele é uma das 537 pessoas presas durante o regime de exceção que morreram sob a custódia do Estado antes de serem julgadas, segundo a Socorro Jurídico Humanitário, uma ONG de El Salvador.

Crédito, Felix Lima/BBC
Organizações de direitos humanos afirmam que o sistema judicial do país está abarrotado e não é capaz de lidar com a quantidade de presos aguardando julgamento. Elas afirmam que detidos podem passar anos na prisão sem uma acusação formal ou sem saber do que são acusados.
Familiares de presos ouvidos pela BBC News Brasil relataram até casos de detentos que, mesmo após terem a libertação determinada pela Justiça, aguardam há meses pelo cumprimento da ordem.
A BBC News Brasil questionou o governo de El Salvador sobre esses casos, mas não obteve resposta. Repetidos pedidos de entrevistas com ministros do governo e deputados aliados de Bukele para tratar da política de segurança no país também foram recusados.
Em 2026, para desafogar o sistema judicial, El Salvador iniciou julgamentos coletivos de milhares de acusados de integrar facções. Mas críticos dizem que os megajulgamentos impedem a análise individual dos casos e prejudicam o direito dos réus à defesa.

Crédito, Felix Lima/BBC
‘Uma ditadura de outro tipo’
Coordenador do Movimento de Vítimas do Regime (Movir), grupo que agrega familiares de pessoas presas no regime de exceção, o engenheiro Samuel Ramírez diz que El Salvador é hoje uma ditadura.
“Ele [Bukele] administra o país como sua própria empresa e não permite que ninguém o contrarie”, afirma Ramírez, que, durante a guerra civil salvadorenha (1979-1992), foi um guerrilheiro da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN).
O grupo, de ideologia marxista e apoiado pela União Soviética, lutou contra tropas governistas financiadas pelos Estados Unidos. Após o fim do conflito, a FMLN virou um partido político. Foi nele que Bukele iniciou sua trajetória política ao se eleger prefeito do município de Nuevo Cuscatlán, em 2012, e, depois, da capital San Salvador, em 2015.
Hoje, o presidente pertence ao Novas Ideias, um partido que ele próprio criou após ser expulso da FMLN por divergências internas e que rejeita os rótulos de esquerda e direita, embora seja descrito por analistas como conservador.
Ramírez ressalta, no entanto, que não considera a administração Bukele uma ditadura clássica, pois diz que o governo tenta se apresentar como uma democracia.
“[Bukele] não é como Hitler ou Pinochet. Ele nunca mandou atirar contra nós numa manifestação, nunca mandou nos assassinar, porque sabe que hoje todos carregamos um celular”, afirma Ramírez.
Ele falou à BBC News Brasil durante uma manifestação numa manhã ensolarada de maio, quando algumas dezenas de mulheres caminharam até a sede da Procuradoria-Geral da República, em San Salvador, para entregar uma carta pedindo a soltura de seus filhos.

Crédito, Felix Lima/BBC
Para o cientista político e especialista em segurança pública canadense Robert Muggah, os resultados das políticas de segurança de Bukele são inquestionáveis, mas ocorreram “às custas do sistema democrático”.
“Minha preocupação é que, no longo prazo, isso tenha implicações sérias para a independência dos tribunais, para os direitos civis e as garantias dos cidadãos”, afirma.
Críticos acusam Bukele de perseguir opositores, incluindo jornalistas e defensores de direitos humanos. Muitos deixaram o país nos últimos anos, citando temores com sua segurança.
O jornal El Faro, um dos veículos salvadorenhos mais críticos a Bukele, transferiu sua sede para a Costa Rica em abril de 2023. Representantes do jornal afirmaram que a mudança foi motivada, entre outros fatores, pelo temor de que jornalistas fossem acusados de colaborar com as facções diante de interpretações abrangentes da legislação adotada para combater os grupos.
Em diversas ocasiões, o jornal entrevistou membros de facções sobre supostos laços e negociações desses grupos com autoridades do governo.
Bukele nega perseguir jornalistas e entidades de direitos humanos. Em diversas ocasiões, ele disse que os grupos parecem mais preocupados em proteger os direitos de criminosos do que os de cidadãos afetados pelo crime.

Crédito, Felix Lima/BBC
Muggah questiona ainda a possibilidade de replicar a política de segurança de Bukele em países maiores, como o Brasil.
Segundo ele, as facções salvadorenhas “eram altamente territoriais e tinham marcas muito claras, como tatuagens, o que tornava relativamente simples saber quem era quem”.
Além disso, El Salvador não é um mercado de drogas relevante nem uma rota indispensável para o tráfico internacional, o que limita o poderio e a capacidade de expansão dessas organizações, diz o cientista político.
Já o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as principais facções brasileiras, “operam mais como empresas multinacionais do que como gangues de rua”, o que torna muito mais complexo combatê-las, segundo Muggah.
Ele afirma que o caso do Equador — em que, desde 2024, o governo também tem usado o regime de exceção para combater o crime organizado — mostra a dificuldade de replicar o modelo Bukele em países maiores.
Após a adoção dessa estratégia, o país registrou um número recorde de homicídios no ano passado. “O que ocorreu lá foi que a violência acabou sendo deslocada para outras áreas”, afirma Muggah.

Crédito, Felix Lima/BBC
‘O medo agora é outro’
Com a queda dos índices de violência em El Salvador, alguns questionam por que o governo mantém o regime de exceção — uma medida que precisa ser renovada a cada 30 dias.
Para o artista plástico Melvin Gómez, que dá aulas de pintura para jovens em uma comunidade pobre nos arredores de San Salvador, “o medo agora é outro: que as pessoas não possam alçar sua voz, seu direito de se manifestar, porque há um regime”.
Já na Campanera, a professora Adélia Rosales diz esperar que Bukele permaneça no poder por vários anos. “Sinto que ele ainda não terminou de fazer o projeto que precisa para nos deixar com a segurança já estabelecida”, afirma.
Quando questionada se não teme que El Salvador repita uma história comum na região, na qual presidentes populares se transformam em líderes autoritários que se recusam a deixar o poder, ela pondera: “Pode acontecer. Nada está escrito em pedra, a política é um processo dinâmico”.
Ainda assim, diz que as mudanças na segurança promovidas por Bukele a fazem se sentir esperançosa quanto a novos avanços.
“Alguns podem dizer que a vida está cara, mas comer um prato de feijão tranquila não é a mesma coisa que comer um pedaço de carne pensando que vão bater à sua porta e te levar embora.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


