Em outubro de 1887, 150 escravizados fugiram de fazendas paulistas de café em direção a Santos, num episódio emblemático da resistência à escravidão. Às vésperas da abolição, aquela marcha dramática foi acompanhada de perto pelos jornais. Por dias, eles cruzaram matas e cidades inteiras, carregando idosos e crianças, enfrentando a fome. O governo chamou o Exército. Perto de Cubatão, a cavalaria atirou. Os escravizados responderam com armas e gritos de “liberdade ou morte”. Alguns tombaram, 15 foram recapturados, outros sumiram na mata e 30 conseguiram chegar ao Quilombo do Jabaquara.
O episódio, narrado no livro “Flores votos e balas” (2015, Companhia das Letras), de Angela Alonso, também colunista desta Folha, ilustra como a escravidão foi mantida duramente na cafeicultura até o último momento. A abolição veio cinco meses após a fuga relatada acima, em 13 de maio de 1888.
Não à toa, a adesão ao movimento abolicionista enfrentou mais resistência no Sudeste. Afinal, em 1972, o Norte contava com apenas 37% dos escravos, contra 59% das províncias cafeeiras.
Por isso, Joaquim Nabuco escreveu em “O Abolicionismo”, publicado em 1883 –em meio à campanha pelo fim da escravidão–, que, já naquele momento, o Brasil “estaria pronto para receber sem abalo a notícia da emancipação, se não fossem os distritos de café nas províncias de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro”.
A região cafeeira era, afinal, o bastião da escravidão, como escreveu Caio Prado Jr. em sua “História Econômica do Brasil”: “O Centro-Sul formará o reduto principal da reação escravocrata; e com sua grande riqueza relativa e influência política poderosa, torna-se com o tempo um dos maiores freios do movimento libertador”.
Nessa época, o café era o grande esteio da economia brasileira. Desde o início da cultura cafeeira –no século 18– até meados da década de 1880, o trabalho usado nas fazendas era exclusivamente escravo. A situação fez o senador Gaspar da Silveira Martins proferir no Parlamento a frase: “O Brasil é o café, e o café é o negro”.
Com a ascensão do movimento abolicionista, agricultores se organizaram politicamente a fim de manter o regime de servidão. No campo, reprimiram revoltas à bala. No debate público, usavam jornais alinhados às elites agrárias para disseminar o medo e dizer que a libertação punha em risco a economia nacional.
Até que a situação tornou-se insustentável. O movimento abolicionista começou a gerar instabilidade nas próprias fazendas. “A dificuldade em manter as atividades de repressão dentro do estrito cumprimento da lei acenava para uma situação de desgoverno. Escravizados revoltavam-se, fugiam na calada da noite, retiravam-se em bandos das fazendas de café”, escreveram Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling em “Brasil: Uma Biografia” (Companhia das Letras, 2015).
Sem escolha, nos últimos meses do regime escravista, grandes fazendeiros viraram a casaca e passaram a defender a imigração europeia e o trabalho livre, na tentativa de limar da biografia a pecha de escravocrata. Começava a era dos colonatos, em que imigrantes eram vítimas de vários tipos de abuso. Mas isso é assunto para outro texto.
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Fonte.:Folha de São Paulo


