
- Author, Matt Shea
- Reporting from, Liberland
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Vista do barco, a República Livre de Liberland não parece grande coisa.
Você jamais imaginaria que essa extensão plana e lamacenta de várzea do rio Danúbio, pontilhada de amieiros, barracas e casas na árvore, está ligada a alguns dos homens mais ricos do mundo, incluindo um dos maiores investidores do negócio de criptomoedas da família Trump.
Em contrapartida, a versão em realidade virtual de Liberland que me mostram — projetada pelo escritório de arquitetura ZHA, de Zaha Hadid — apresenta torres reluzentes, parques públicos flutuantes e estruturas aquáticas que desafiam a gravidade.
Quem me apresenta o projeto é Vít Jedlička, o presidente de Liberland. Ele fundou essa micronação em um território disputado entre a Sérvia e a Croácia, com o objetivo de criar um país digital e verdadeiramente libertário, operado com a mesma tecnologia das criptomoedas.
Tenho visitado Liberland ao longo do último ano para produzir um documentário da BBC Two intitulado The Tech Billionaire Takeover (A Ascensão dos Bilionários da Tecnologia, em tradução literal).
Liberland pode parecer uma piada. No entanto, o projeto é financiado por alguns dos homens mais ricos do setor de criptomoedas e baseia-se em uma ideia que eles tentam exportar: a de que o próprio governo pode ser substituído.

Crédito, Davor Javorovic/PIXSELL/DeFodi Images News/Getty Images
Chegamos ao país de barco, já que as autoridades croatas impediram o acesso por terra. Alguns colonos, vestindo jaquetas corta-vento, saem à margem para nos acenar, e o presidente Jedlička, comunicando-se por meio de um megafone, entrega uma medalha oficial a um deles.
Na maioria das democracias modernas, o voto de cada pessoa tem o mesmo peso. Mas, em Liberland, a situação é diferente graças a um token de criptomoeda que pode ser comprado, chamado Liberland Merits.
O presidente Jedlička me explica que a eleição de uma pessoa ocorre por meio desses Merits. “Assim, as pessoas que possuem mais Merits têm maior influência na definição de quem assumirá a liderança do país”, diz ele.
Na prática, isso significa que é possível votar diretamente com o seu dinheiro.
Liberland também é totalmente isenta de impostos, algo que seu ministro do Interior, Ivan Pernar — um controverso ex-deputado croata expulso do parlamento por disseminar teorias da conspiração — explica.
“Normalmente, as pessoas que acreditam na liberdade, em finanças descentralizadas e coisas do gênero tendem a pertencer à classe alta da sociedade”, diz Pernar. “Se você não fizer nenhuma seleção e disser que qualquer um que chegar de barco é bem-vindo, acabaríamos como o Reino Unido. Não queremos isso.”
“Então é liberdade, mas… algumas pessoas têm mais liberdade do que outras?”, pergunto. Sugiro que uma das principais formas de obter poder e influência em Liberland parece ser por meio do dinheiro.
“Claro”, diz Pernar. Ele afirma que, se houvesse “um monte de vagabundos no seu país sem nada”, outros teriam de contribuir para pagar seus benefícios.
Ele então compara os pobres a animais: “Não alimente os animais, pois, se o fizer, eles se acostumarão a isso e perderão a capacidade de se alimentar sozinhos. O mesmo vale para as pessoas”.

Crédito, Davor Javorovic/PIXSELL/DeFodi Images News/Getty Images
Para os apoiadores ricos de Liberland, ajudar os pobres — ou, na verdade, qualquer forma de tributação ou redistribuição de riqueza — é uma afronta à sua liberdade individual. Essa visão é compartilhada, como era de se esperar, por pessoas neste mundo com muito mais dinheiro e influência do que Pernar.
O bilionário das bananas
No último ano, tenho convivido com o primeiro-ministro de Liberland, o magnata chinês das criptomoedas Justin Sun. Com o apoio de Sun — e de cerca de outros 30 bilionários da tecnologia, segundo eles —, os habitantes de Liberland podem agora, de fato, ter acesso aos recursos necessários para começar a construir a versão de sua micronação com torres reluzentes.
A fortuna de Sun é estimada em US$ 8,5 bilhões. Ele é talvez mais conhecido por ter comprado, por US$ 6,2 milhões, uma obra de arte que consistia em uma banana fixada a uma parede com fita adesiva e, em seguida, tê-la comido.
Ele também foi acusado por órgãos reguladores dos Estados Unidos de fraude e manipulação de mercado. Sun nega as acusações e, recentemente, firmou um acordo de US$ 10 milhões para encerrar o caso.

Crédito, Getty Images
Sua empresa, a Tron, é uma blockchain — uma rede de global onde é possível comprar e vender criptomoedas. Ao contrário de um banco, ela não é administrada por uma autoridade única; é descentralizada e opera em diversos computadores ao redor do mundo, o que dificulta a tributação e a regulamentação.
Essa mesma tecnologia está sendo utilizada para gerir o governo de Liberland e, um dia — se depender de Sun —, poderá gerir outros também.
Os cidadãos votam em leis e referendos usando tokens digitais, e a própria votação é contabilizada e executada automaticamente por meio de código, em vez de ser contada por autoridades humanas.
Na prática, porém, a tecnologia ainda está em fase inicial, e a atuação de autoridades humanas continua sendo necessária para implementar as leis.
Segundo a empresa de análise de blockchain TRM Labs, a Tron é uma das maiores plataformas para a movimentação de criptoativos ilícitos — incluindo, segundo relatos, fundos ligados ao Hamas e ao Hezbollah, bem como recursos de cartéis de drogas e redes da máfia.
Sun afirma que a Tron estabeleceu novas parcerias com autoridades policiais para combater transações ilegais na blockchain, resultando em uma queda significativa no volume de atividades ilícitas na plataforma.
A família Trump o acolheu como principal investidor de tokens em seu próprio empreendimento de criptomoedas, a World Liberty Financial. Sun investiu mais de US$ 75 milhões na empresa, além de outros milhões na memecoin de Donald Trump, investimento que lhe garantiu um jantar com o presidente dos EUA.
Memecoins são criptomoedas criadas a partir de memes ou piadas de redes sociais. Trump deixou seu cargo na empresa ao assumir a Presidência, mas o fundo familiar ainda detém a companhia e lucra com ela por meio da venda de uma criptomoeda chamada USD1. Ele lucrou mais de US$ 1,4 bilhão com criptoativos no último ano e tem potencial para ganhar muito mais.
Um planeta sem fronteiras?
Pode-se afirmar com segurança que a família Trump lucrou muito com sua relação com Sun. Mas o que Sun e outros empreendedores de criptomoedas que se aproximaram dos Trump esperam em troca? Liberland talvez ofereça uma pista.
Sun é uma pessoa calorosa e simpática. Assim como outros bilionários que conheci, tive a impressão de que Sun raramente convivia com pessoas que não trabalhassem para ele ou que não estivessem interessadas em seu dinheiro. A maior parte de nossas conversas girava em torno de ficção científica e videogames.
No verão passado, logo após retornar do espaço — viagem pela qual pagou US$ 29 milhões à Blue Origin, empresa de Jeff Bezos —, Sun me ligou para contar sobre a experiência.
Ele ficou impressionado com a ideia de que “o planeta em si não tem limites”, ou seja, não possui fronteiras, e de que “sequer existe, a princípio, o conceito de país”.
A noção de que o Estado-nação está ultrapassado e poderia, portanto, ser substituído pela tecnologia blockchain é uma das razões pelas quais ele decidiu concorrer ao cargo de primeiro-ministro de Liberland.

Liberland não é um caso isolado; é um dos vários protótipos desse tipo de micronação — áreas reivindicadas como nações independentes, mas não reconhecidas legalmente como tal.
Projetos como Próspera, em Honduras; o Seasteading Institute, de Peter Thiel; e a Draper Nation, de Tim Draper — um país totalmente digital que utiliza o Bitcoin como moeda — buscam concretizar essa mesma ideia.
Encontro-me com Draper — ele próprio um bilionário investidor do setor de tecnologia — na Draper University, no Vale do Silício; trata-se de um programa intensivo de capacitação para jovens fundadores de empresas de tecnologia, onde os alunos juram “promover a liberdade a qualquer custo”.
Draper me diz acreditar que o governo presta um “serviço ruim a um custo elevado” e que a tecnologia blockchain simplesmente o substituirá. “É apenas uma questão de tempo”, diz.
Muitas dessas ideias remontam ao controverso pensador e fundador de empresas de tecnologia Curtis Yarvin, frequentemente chamado de “fundador do Dark Enlightenment“, o iluminismo sombrio.
Ele conquistou admiradores na direita americana, incluindo o bilionário da tecnologia Peter Thiel e figuras da atual administração Trump, como o vice-presidente JD Vance.
Sua filosofia é notoriamente confusa, mas resume-se, essencialmente, a uma crítica à democracia (que, segundo ele, fracassou devido aos níveis ainda elevados de imigração) e à conclusão de que deveríamos substituí-la por uma estrutura autoritária situada em algum ponto entre uma corporação, uma monarquia e uma micronação gerida por blockchain.

Apesar de considerar a mídia como uma das metades da “Catedral” — termo que ele usa para descrever o que acredita ser um poder ideológico repressivo, composto por jornalistas e acadêmicos, que governa secretamente a sociedade ocidental —, ele concorda em se encontrar comigo em Berkeley, na Califórnia.
Fazemos uma breve caminhada enquanto Yarvin, que tem a aparência de um roqueiro punk envelhecido, discorre em narrativas longas e sinuosas, fazendo referência a textos esotéricos e períodos históricos para fundamentar seus argumentos.
Em nossa conversa, ele expõe seu conceito de “Patchwork” (ou “Mosaico”), no qual os Estados-nação tradicionais seriam substituídos por uma rede global de minipaíses soberanos, pertencentes a acionistas e competindo por cidadãos da mesma forma que uma empresa compete por clientes.
Ele acredita que a tecnologia blockchain pode ser usada para concretizar esse mundo e que o resultado seriam “monarquias corporativas” governadas por “reis-CEOs”.
Esses monarcas corporativos responderiam a um conselho oculto de acionistas, que poderiam, inclusive, controlar as forças armadas e a polícia por meio de algo que ele chamou de “crypto dingus” — um dispositivo criptográfico capaz de, essencialmente, desativar todas as armas de fogo.
Muitos desses bilionários da tecnologia veem Trump — e o cargo que ele ocupa — como algo ultrapassado, destinado a ser substituído por sua tecnologia superior. Ao longo dos encontros que tive com eles, fui percebendo cada vez mais que eles se viam como os verdadeiros detentores do poder.
O lobby das criptomoedas superou a indústria de combustíveis fósseis e tornou-se o mais poderoso dos EUA, tendo contribuído com US$ 238 milhões no ciclo eleitoral mais recente, segundo uma análise da Fox Business. Yarvin, Sun, Draper e Liberland oferecem um vislumbre do futuro que alguns deles imaginam para nós.
Eles todos me disseram como a tecnologia blockchain e as criptomoedas podem nos libertar — a nós e ao nosso dinheiro — do controle governamental. Mas a quem entregaríamos esse controle em troca? Todos os exemplos que vi mostram a riqueza e o poder fluindo para quem detém o controle da tecnologia.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


