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A dois meses da eleição de outubro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta duas frentes de crise diplomática que podem atrapalhar o petista no objetivo de avançar sobre eleitores indecisos, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Para o cientista político Hilton Fernandes, do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ao criar uma série de situações negativas na relação Brasil-EUA, seja com as tarifas, a classificação de organizações criminosas como terroristas e, agora, com a retirada do visto da embaixadora, Trump provoca um peso sobre o governo Lula.
“O governo terá de se defender e, como consequência, pode alimentar o discurso da oposição de ser um governo radical, antiamericano, comunista”, avalia.
A também cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta, porém, que a proximidade das novas crises ao período de campanha, que tem início em 16 de agosto, oferece menos possibilidades de se conquistar o pequeno grupo de eleitores que flutuam entre os dois candidatos.
“A proximidade de qualquer crise que ocorra perto das eleições não aumenta a magnitude do seu efeito sobre os votos, na medida em que a maioria já está decidida. Mas ela aumenta sua decisividade, pois sobra menos tempo para reversão do pequeno grupo de eleitores voláteis”, avalia Goulart.
Segundo a última pesquisa Nexus/BTG, divulgada nesta semana, entre os eleitores de Lula, 83% dizem ter o voto definido; entre os de Flávio Bolsonaro, 80%.
A pesquisadora ressalta que as rusgas internacionais “não convertem ninguém” nesse grupo, já decidido com Lula ou Flávio. Mas elas podem aparecer com força na propaganda eleitoral a partir de 16 de agosto, tendo algum papel nos poucos votos em disputa.
‘Soberania’ ainda cola?

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Segundo os analistas, o momento dessa crise é diferente de outras envolvendo especialmente os EUA. Em 2025, no primeiro tarifaço de Trump, a esquerda e Lula tentaram uma união em torno da bandeira da “soberania nacional”. Nas pesquisas que se seguiram, o governo melhorou sua avaliação.
De acordo com a última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, de agosto, 49,2% dos eleitores não veem ameaça à soberania na tarifas, 47,7% veem.
Também segundo a última pesquisa da Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (5/8), diminuiu o número de brasileiros que consideram a resposta de Lula à guerra comercial de Trump positiva.
Em maio, 39% avaliavam bem a resposta do governo petista à ação de Trump; agora, em agosto, foi para 38%, dentro da margem de erro. Entre os que avaliam mal a resposta do presidente, o índice saiu de 36% em maio para 43% agora. Ou seja, o saldo era positivo de +3 para o governo, mas passou para o negativo de -5 pontos percentuais.
A professora avalia que o discurso de soberania acabou, como tantos outros, polarizado, com pouco efeito sobre eleitores que não se enxergam fiéis a um dos lados. Porém, diz Goulart, há alguma chance de o governo surfar no conflito envolvendo a retirada do visto embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, na terça-feira (4/8)
Como o caso não envolve uma repercussão econômica, pode se sobressair a ideia de “humilhação simbólica do Estado”.
“Para disputar o pouco de voto que ainda está em jogo, o canal produtivo hoje é o da dignidade diplomática, não o comercial”, diz.
A medida contra Viotti, segundo apurou a BBC, foi um retaliação pelo fato de o governo brasileiro ainda não ter aprovado a indicação do nome do deputado estadual da Flórida Daniel Perez ao cargo de embaixador no Brasil, solicitada em junho.
Integrante do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado, chegou a ser citado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do estado.
O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado publicamente para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o chamado agrément entre os países e disse não haver prazo para a aprovação do nome de Perez.
O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.
Com a medida atual, a embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar no país, caso saia dos EUA.
Nesta quarta, Lula classificou como “irresponsável” decisão dos EUA de revogar visto da embaixadora.
“Essa atitude é que eu acho uma atitude irresponsável, impensada para um país que tem 203 anos de diplomacia, de relação diplomática”, afirmou Lula ao podcast Meteoro Brasil.
O presidente também defendeu o processo eleitoral do Brasil, dizendo que o país vai “enfrentar qualquer pessoa de fora que queira interferir”.
O professor Hilton Fernandes avalia que, a essa altura de proximidade da campanha eleitoral, retomar o discurso da soberania não vai ser mais tão simples para o presidente.
“Para funcionar, é preciso que o eleitor tenha a percepção de uma ameaça real e injusta. Neste momento, o conjunto de ações do governo americano e as provocações de Milei podem criar uma sensação de que o problema é o próprio Lula”, opina.
“Mas há caminhos para transformar a adversidade em oportunidade, que são possíveis de identificar em pesquisas de opinião. Por outro lado, se a campanha petista reagir com um discurso mais ideológico, pode levar o jogo para uma arena que favorece o bolsonarismo”, completa Fernandes.
Os aliados não populares de Flávio

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A última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, de 31 de julho, mostra que maioria dos brasileiros avalia negativamente a imagem de Donald Trump: 57,4% dos entrevistados o avaliam negativamente, enquanto 35,3% manifestam opinião positiva. Outros 7,5% afirmaram não saber como avaliá-lo.
Já Javier Milei, que veio ao lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, vive uma maré negativa dentro da Argentina.
No evento bolsonarista, o presidente argentino criticou Lula e suas políticas sociais e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”.
Logo após as declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” do governo brasileiro. O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, também foi chamado para prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação entre os dois países.
Na semana seguinte, Milei voltou a fazer duras críticas a Lula, chamando o brasileiro de “ladrão” e “corrupto” durante um programa de televisão argentino no domingo (02/08).
A resposta brasileira veio nesta terça, com o rebaixamento das relações. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Raimondi teria sido convocado ao Itamaraty, onde recebeu a informação de que poderia voltar para casa.
Já o jornal argentino Clarín reportou que Bitelli, que está em Brasília desde 26 de julho, não voltaria a Buenos Aires, pois o governo decidiu manter apenas um encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.
À BBC News Brasil, Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avaliou que a vinda e o envolvimento com o Brasil foi uma busca de Milei para aumentar sua própria popularidade internacionalmente.
“Ele não tem poder para mobilizar tantos votos [no Brasil], mas busca consolidar-se como uma liderança intelectual e política da direita ocidental.”
Segundo pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg Linea, publicada no início de julho, 58% dos argentinos desaprovam o governo Milei. O percentual é ligeiramente mais baixo que o registrado em abril, quando a desaprovação estava em 63%, auge do chamado “escândalo Adorni”.
O ex-chefe de Gabinete de Milei, Manuel Adorni, foi acusado de envolvimento em um escândalo por suposto enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio no valor de R$ 500 mil (cerca de R$ 2,6 milhões).
Para Hilton Fernandes, a baixa popularidade de Trump e Milei pode acabar tendo alguma repercussão negativa na campanha de Flávio Bolsonaro, que ficaria dependente de como essas lideranças internacionais são percebidas pelos eleitores. Mas isso não quer dizer que Lula poderia surfar em uma impopularidade dos dois.
“O eleitor forma sua percepção do quadro político com informações diversas, muitas vezes, parciais. O fato de Lula estar envolvido em situações negativas com essas lideranças contrasta com as imagens positivas divulgadas por Flávio Bolsonaro. Isso pode ter efeito, ainda que inconsciente, independentemente dos motivos que levam ao estremecimento da relação diplomática”, conta.
Mas tanto Fernandes quando Goulart concordam que, apesar de um noticiário agitado sobre as relações internacionais, esse seguirá um tema não decisivo no debate eleitoral.
“A política externa não vai deslocar as prioridades: a violência lidera as preocupações e 96,2% dos brasileiros relatam algum medo relacionado à criminalidade. Ela não entra como agenda própria, entra pegando carona em clivagens que já existiam — no bolso dos setores expostos, no vocabulário da soberania e, mais recentemente, na questão da integridade do pleito, que reconecta interferência externa ao tema do golpismo e reativa 2022”, avalia Mayra Goulart.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


