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5 de agosto de 2026

Campanha eleitoral de 1894 reflete ainda o Brasil atual – 05/08/2026 – Tom Farias

Campanha eleitoral de 1894 reflete ainda o Brasil atual – 05/08/2026 – Tom Farias

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Com a aproximação da campanha eleitoral, a partir de 16 de agosto, deu-me na telha pensar que as raízes das nossas disputas políticas —e talvez a primeira grande polarização da nossa história republicana— fincaram pé em 1894.

Em 1º de março daquele ano, o Brasil realizava a primeira eleição direta para a presidência, um pleito em que o novo regime precisava provar a todo custo que não cometeria os propalados desmandos da época do Império.

A verdadeira fratura política daquele momento não estava estampada em partidos estruturados, mas sim no embate ideológico entre o “civilismo” e o “militarismo”. De um lado, a elite cafeeira buscava o poder civil por meio de Prudente de Moraes; do outro, os “jacobinos” —florianistas que defendiam a continuidade da linha dura militar de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”.

O formato eleitoral, comandado pelos poderosos, era um teatro vergonhoso. Para ser candidato, não era necessário estar filiado a uma legenda partidária. Naquela votação inaugural, concorreram nada menos que 205 candidatos em todo território nacional.

Desse total, 116 tiveram apenas um único voto —o que significa dizer que os “presidenciáveis” provavelmente votaram em si mesmos. A lei vigente permitia que o cidadão escrevesse qualquer nome na cédula.

Foi assim que Prudente de Moraes venceu com 291 mil votos, enquanto figuras como Afonso Pena —que seria presidente anos mais tarde— recebeu acanhados 38 mil votos de eleitores dissidentes, à revelia de uma candidatura formal e quase oficial.

A imprensa da época fingia uma normalidade que não existia. Por exemplo, o direito ao voto era negado às mulheres, aos mendigos, aos militares de baixa patente e aos analfabetos —categoria que incluía a quase totalidade das pessoas negras, há pouco abandonadas à própria sorte pelo advento da abolição da escravatura.

Essa elitista engrenagem reduzia o colégio eleitoral a pouco mais de 5,6% da população real votante, em um universo de cerca de 14 milhões de habitantes e 800 mil pessoas habilitadas a votar.

Atento, como sempre, a essa sociedade hilária e contraditória, o cronista Machado de Assis, numa coluna de jornal, dias depois da abertura do processo eleitoral, deu sua impressão sobre o ritual da votação, tentando explicar as morosidades do pleito.

“Outra demora: cinco eleitores fizeram a toilette à boca da urna, quero dizer que ali mesmo as fecharam, passando a cola pela língua, alisando o papel com vagar, com amor, quase que por pirraça”, escreveu. “Mas, Deus é grande! Chegou a minha vez. Votei e corri a almoçar. Relevem a vulgaridade da ação.”

Mais de 120 anos passados, o Brasil se prepara para mais uma nova campanha. Olhar para 1894 nos faz lembrar que, embora o voto hoje seja universal e eletrônico, ao contrário do século 19, então nominal e sem candidaturas formalizadas, o hábito de tratar o destino do país como um cabo de guerra entre extremos é um fantasma que nos persegue desde o nascimento da República.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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