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15 de agosto de 2026

Clima extremo altera habitat de borboletas em 105 países – 15/08/2026 – Ambiente

Clima extremo altera habitat de borboletas em 105 países – 15/08/2026 – Ambiente

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Mais de 1.700 espécies de borboletas em 105 países já não vivem onde costumavam viver, segundo um estudo publicado no último dia 5 na revista Nature Ecology & Evolution. O dado mostra que quase uma em cada dez espécies de borboletas têm hoje uma nova área de distribuição.

Borboletas têm pouca tolerância a mudanças no ambiente. Por isso, quando as temperaturas sobem ou campos são roçados para dar lugar a construções, precisam alçar voo em busca de habitats mais hospitaleiros.

“As espécies de borboletas estão mudando suas áreas de distribuição em todos os continentes onde ocorrem”, afirmou Shawan Chowdhury, diretor do Laboratório de Ecologia das Mudanças Globais da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália, e principal autor do estudo. Essa tendência pode ser atribuída a uma combinação de fatores, mas, na maioria dos casos, se deve à mudança climática, aos eventos meteorológicos extremos e à agricultura industrial.

Embora o estudo tenha abrangido apenas cerca de 10% das espécies de borboletas conhecidas, os autores afirmam que é o maior já realizado sobre o tema.

Quando Chowdhury começou a estudar borboletas perto da casa onde passou a infância, em Bangladesh, não demorou a perceber que elas estavam deixando a região. “Quando comecei a fazer trabalho de campo, era muito fácil encontrar de 60 a 70 espécies de borboletas em uma pequena área verde urbana”, contou. Alguns anos depois, porém, “ficou muito difícil encontrar apenas 15 espécies”.

Depois de concluir o doutorado e se transferir para a Universidade Monash, o pesquisador decidiu investigar se o que havia presenciado em Bangladesh também estava ocorrendo em outros lugares. Ele percebeu algo inquietante: estudos anteriores sobre as mudanças nas áreas de distribuição das borboletas ao redor do mundo se concentravam principalmente na Europa, que abriga menos de 3% das espécies de borboletas do planeta. Cerca de 90% das espécies vivem nos trópicos, mas poucos estudos haviam incluído dados dessa região.

Na esperança de compreender melhor os deslocamentos das borboletas em escala global, Chowdhury começou a reunir estudos publicados em outros idiomas e dados de dezenas de pesquisadores que trabalham nos trópicos. Isso mudou tudo, disse ele.

Com essa abordagem, Chowdhury e seus colegas constataram que, em 32 dos países analisados, pelo menos um quarto das espécies nativas de borboletas já não vivia onde costumava viver. Em dez desses países, a proporção ultrapassou a metade.

Embora todas as espécies de borboletas examinadas tenham passado por algum grau de expansão ou redução de sua área de distribuição, muitas vivenciaram ambos os fenômenos. Os resultados mostram, ainda, que 80% das espécies estudadas pelos pesquisadores ampliaram suas áreas de distribuição, estabelecendo-se em locais que antes eram inadequados para sua sobrevivência.

Por exemplo, uma borboleta alaranjada com manchas pretas, conhecida como tawny coaster, antes era encontrada apenas na Índia, em Bangladesh e no Sri Lanka, mas, nas últimas décadas, chegou até a Austrália.

As áreas de distribuição de 27% das espécies analisadas pelos cientistas diminuíram. Entre elas está a borboleta‑azul‑das‑turfeiras da Grã-Bretanha, cuja área de ocorrência encolheu mais de 40% desde 1983.

Independentemente de uma espécie estar ganhando território, perdendo-o ou passando pelas duas situações, os pesquisadores constataram que, em 79% dos casos, as mudanças climáticas e os eventos meteorológicos extremos eram os principais fatores. A perda de habitat, a agricultura industrial e outros fatores também tiveram influência.

“Já sabíamos que as borboletas estão mudando suas áreas de distribuição em resposta às mudanças climáticas, mas este é o primeiro estudo a apresentar evidências em uma escala geográfica e taxonômica tão ampla”, afirmou Candace Fallon, bióloga conservacionista da Xerces Society for Invertebrate Conservation, que não participou do estudo.

Embora as mudanças nas áreas de distribuição sejam naturais e essenciais para a sobrevivência de espécies sensíveis como as borboletas, os cientistas estão preocupados com o que está provocando esses deslocamentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a abundância total de borboletas caiu 22% entre 2000 e 2020.

Chris Grinter, gerente sênior da coleção de entomologia da Academia de Ciências da Califórnia, que também não participou do estudo, argumenta que as borboletas funcionam como canários na mina de carvão que é o nosso planeta e que seus deslocamentos muitas vezes sinalizam profundas mudanças ecológicas.

Grinter afirmou que as conclusões do novo estudo ressaltam a necessidade de ampliar o monitoramento global das populações de borboletas e intensificar os esforços para conservá-las, tanto nos locais onde vivem quanto naqueles para onde poderão ser obrigadas a fugir no futuro. Para quem deseja ajudar, ele recomenda cultivar plantas nativas, evitar aparar os gramados e registrar avistamentos de borboletas em plataformas como o iNaturalist.

“É possível fazer uma grande diferença no próprio quintal”, disse ele.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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