Gramado é feita de referências e inspirações – e, de tanto reunir histórias, acabou construindo a sua própria. Cada lugar, cada atração, carrega uma narrativa que dialoga com o destino e ajuda a sustentar a ideia de que a cidade é mais do que um refúgio de inverno. Na Cristais de Gramado, não é diferente.

A verdade é que não existe atração melhor do que aquela em que você coloca a mão na massa. Durante minha viagem em Gramado, fiquei empolgada em entender o que existia por trás das vinícolas e chocolaterias que moldam o circuito turístico local. Mas nada se comparou à experiência de, de fato, construir algo meu ali dentro.
A Cristais de Gramado fica logo na entrada da cidade. Quem chega pela RS-115 já dá de cara com o espaço, próximo ao pórtico. Por fora, um edifício cinza, de linhas simples, com uma parede formada por um mosaico de cores.

Fundada em 2002, a Cristais de Gramado se tornou referência na produção de cristal artístico no Brasil ao reproduzir a técnica da ilha de Murano, em Veneza. O espaço funciona como uma mistura de museu vivo e fábrica: ali, o visitante acompanha todas as etapas do processo – do material incandescente ao acabamento final – e entende por que cada peça carrega tanto valor.
Tipos de visitação
A Cristais de Gramado é daquelas atrações que funcionam para toda a família. Do vovô ao netinho, sempre tem alguma etapa que fisga o visitante. A maneira mais comum de conhecer o espaço é pelo tour imersivo (R$ 88 a inteira), uma visita guiada que percorre as criações, explica a técnica e revela as histórias por trás de cada peça, com direito a um encerramento musical que foge do óbvio.
Mas o interessante mesmo é ir além do tour. A fábrica oferece experiências em que o visitante assume o papel de artesão por um dia, criando sua própria peça com a orientação dos mestres vidreiros. Dá para escolher entre joias (R$ 299), flores de cristal (R$ 619) e vasos (R$ 1.189) – e, ao optar por qualquer uma delas, o tour guiado já vem incluído no pacote.

Na minha visita, fiz minha própria flor de cristal Murano.
Cores e Curiosidades
A visita começa depois que atravessamos uma porta que lembra aquelas de cofre, que se abre lentamente após apertar um botão vermelho.
O primeiro espaço é o “Cores e Curiosidades”, onde a história do cristal Murano é apresentada de forma didática. O guia conduz a explicação enquanto mostra os componentes, as ferramentas e algumas peças produzidas na fábrica – incluindo o Kikito de cristal, troféu do Festival de Cinema de Gramado.
No meio da sala, um lustre imponente ajuda a contar a origem da Cristais de Gramado. Foi a partir daquela peça, comprada pelos fundadores Telmo de Freitas Gomes e Irane Land durante uma viagem à Europa, que surgiu a ideia de criar o espaço na Serra Gaúcha.
Para além da magnitude, o mais interessante é poder tocar nos cristais pendurados e sentir seu peso real – eles são bem pesadinhos. O lustre funciona quase como um marco zero, símbolo da paixão que deu início a tudo.

Outro detalhe que acaba roubando a cena são os vasos cheios de água que funcionam como lentes. Dependendo do ângulo, quem está do outro lado parece estar completamente distorcido e alongado. É simples, mas acaba virando uma pequena atração paralela, com gente testando posições, tirando fotos e tentando entender o efeito entre uma risada e outra.

O Inquestionável
Em seguida, a visita avança para a obra “O Inquestionável”, instalada em uma sala própria.
A instalação foi concebida por Telmo como um presente para Irane e funciona como um símbolo da dedicação da família em manter viva a arte do cristal. Fundadores da Cristais de Gramado, os dois seguem envolvidos na gestão e no conselho administrativo. A obra, por sua vez, foi construída a partir do trabalho conjunto dos mestres e artesãos da casa.

Antes de chegar à instalação principal, uma pequena antessala contextualiza o que está por vir, com um teto feito com decorações em cristal.

Seguindo em frente, está então “O Inquestionável”, instalação que reúne cerca de 1.200 peças e é considerada a obra em cristal Murano mais valiosa do Brasil, avaliada em cerca de R$ 1 milhão – e, claro, não está à venda.
Inspirada nas obras de Dale Chihuly, a instalação brinca com formas e cores, com um detalhe que só se revela no completo escuro: uma das peças brilha, reforçando o caráter surreal da obra.
De perto, cada um enxerga algo diferente: há quem veja uma floresta ou até algo quase alienígena. Minha imaginação foi por um caminho mais infantil: a obra me lembrou um fundo do mar fantasioso, mais especificamente a Fenda do Biquíni, do desenho animado Bob Esponja, que eu assistia durante todos os meus almoços quando criança.
Produção ao vivo
Depois de se impressionar, chegou a hora de conhecer a produção de um modo mais direto. Em uma sala bastante quente – vale ir com uma roupa leve por baixo do agasalho -, acompanhei o processo com meus próprios olhos.
Ali, os fornos ficam ligados o tempo todo, passando dos 1.000 °C. É nesse calor que o cristal ganha uma consistência quase líquida, parecida com mel, e começa a ser moldado. Vi de perto cada etapa: os artesãos giram a massa incandescente na ponta da cana de sopro, usam o ar para dar forma e recorrem a ferramentas para ajustar detalhes com precisão. Tudo precisa acontecer de forma rápida, pois em poucos minutos o material começa a endurecer e pode quebrar.

Enquanto o processo acontece, o guia vai explicando como as cores são incorporadas e o que está sendo feito. Bastante simpáticos, os artesãos se aproximam em diversos momentos para mostrar as peças que estão produzindo.

Hora da mão na massa
Chegou então a minha hora de virar artesã – ou pelo menos tentar. Após preencher um documento especificando a cor e o que iria fazer, recebi um jaleco, um óculos e uma luva acompanhada de uma manga para então começar a moldagem.
Escolhi a cor rosa e segui para a minha flor de cristal. Como sou míope, me deixaram usar meus próprios óculos, o que já ajudou bastante na hora de focar no que estava fazendo. Não tem mistério, mas também não é tão simples quanto parece: sentei ao lado do artesão, que foi explicando cada etapa enquanto guiava os movimentos.

Depois de aquecer o material, ele encaixa o cristal em uma espécie de molde inicial, que já sugere o formato da flor. A partir daí, entra a parte manual: precisei puxar a massa ainda quente para formar as pétalas e, depois de um novo aquecimento, afinar e ajustar os detalhes até chegar no resultado final. O tom sai mais escuro no momento da produção, mas vai clareando conforme a peça esfria.

Como o resfriamento precisa ser lento, a flor só fica pronta para retirada cerca de 24 horas depois – ou pode ser enviada para o hotel (ou para casa, caso você more em Gramado) mediante taxa. No fim, além da peça, ainda recebi um certificado de “artesã por um dia”.
A Cristais de Gramado se tornou minha atividade favorita no destino por um motivo simples: pude fazer parte da história do local e levar um pedacinho dele comigo. Ao chegar em casa, a primeira coisa que fiz foi colocar a flor em uma estante alta, longe do alcance dos meus gatos. Agora, toda vez que recebo uma visita, aponto orgulhosa para a decoração e digo: “eu que fiz!”.

Showroom
Depois de fazer a minha flor, circulei pelo showroom, com algumas peças à venda, para ver o que os profissionais conseguem criar. Apesar de orgulhosa da minha produção, a comparação é inevitável: o nível de acabamento das peças expostas impressiona. Há de tudo – vasos, esculturas decorativas dos mais diversos formatos e uma infinidade de joias -, com preços igualmente variados, de lembrancinhas a itens mais elaborados.

Também dá para acompanhar de perto a produção das miniaturas, feitas com a técnica de flamework, em que o cristal é moldado diretamente na chama para ganhar formas delicadas. É um trabalho minucioso, quase hipnótico de assistir. Fiquei especialmente encantada com os bonequinhos em formato de palhaços e pássaros.
Voz do Cristal
Para finalizar a visita, nada como música. Mas aqui, assim como todo o resto, o som vem do cristal. Depois de uma breve espera, a sala escurece e ganha uma iluminação em tons de azul e verde, criando um clima quase etéreo.
Então, o músico entra em cena e começa a tocar usando apenas taças de cristal com água e os próprios dedos. O repertório passeia por estilos e épocas, de Beethoven a Alceu Valença, passando até por Guns N’ Roses. O som é delicado e combina perfeitamente com o ambiente, tendo um quê de magia que funciona como um encerramento à altura para a visita.

Serviço
Onde? Rodovia RS-115, Km 36 – Várzea Grande – Gramado.
Quando? Aberto todos os dias, das 8h30 às 17h. O Voz do Cristal é apresentado às 9h30, 10h, 11h, 12h, 13h, 14h, 15h e 16h.
Quanto? Tour imersivo por R$ 88 (meia-entrada por R$ 44). Experiências: joias (R$ 299), vasos (R$ 1.189) e flores de cristal (R$ 619).
Leia o guia completo de Gramado
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Fonte.:Viagen


