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12 de junho de 2026

Crítica de vinhos ensina a decifrar termos como ‘rústico’ – 12/06/2026 – Isabelle Moreira Lima

Crítica de vinhos ensina a decifrar termos como ‘rústico’ – 12/06/2026 – Isabelle Moreira Lima

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É sabido que o nível de ódio em comentários é sempre muito alto e que, portanto, eles devem ser lidos com parcimônia e consciência. Mas, às vezes, a curiosidade é mais forte que a inteligência e incorremos no erro. Eu incorri recentemente e fiquei ciente do incômodo de um leitor sobre alguns termos usados por mim para descrever vinhos.

Quando comecei a cobrir essa área no jornalismo, entendi que eu começava ali um trabalho de tradução. O vinho tem uma língua própria, criada por seus produtores, estudiosos e críticos, para que o efeito que ele tem nos nossos sentidos possa ser compartilhado —mesmo que esse efeito não seja exatamente comum a todos.

Há convenções para que se evite sensações únicas e individuais. Por exemplo, não é simples afetação chamar um vinho de “elegante”. Pelo termo, sabemos que a bebida tem acidez alta, que é mais contida e pouco exuberante no nariz, que os taninos (se presentes) serão bem redondos, e que não haverá excessos nem no corpo nem em álcool.

Um vinho com muita acidez pode ser descrito como vertical ou ainda como crocante, uma tradução meio sem-vergonha do inglês “crispy” que pegou mais em Portugal, mas que também aparece por aqui.

Se você não conhece esse significado e lê que um vinho é elegante e vertical, realmente, pode achar que é balela. Mas, uma vez familiarizado com a linguagem, vai comprar com mais segurança do que vai encontrar na garrafa.

Do outro lado do espectro da elegância, se o vinho é apresentado como rústico, sabemos que podemos encontrar algo mais áspero na boca e/ou o tal “funky” no nariz. Se esse cheiro estranho está presente na taça, o vinho pode estar reduzido e precisa entrar em contato com oxigênio por algum tempo para que abra e mostre aromas mais agradáveis.

O jeito de fazer isso é agitando a taça, ação que é vista pelos caçadores de enochatos como um maneirismo irritante. Podemos também usar um decanter (ou mesmo uma jarra de suco) para que a superfície do líquido encontre o ar.

Em boa parte dos casos, funciona. Em outros, nada disso dá jeito, pois o cheirinho desagradável pode indicar defeito na bebida, como a presença de bactérias.

Seguindo no vocabulário: se um vinho é potente, sabemos que tudo vai ser meio intenso, tanto a sensação na boca (corpo, álcool, adstringência), quanto no nariz. Se é chato ou plano, não tem acidez.

Se é equilibrado, nenhuma de suas características se sobressai sobre as outras: nem álcool, nem tanino, nem acidez. Se é fácil de beber —ou, como na cerveja, tem alta drinkability— provavelmente tem menos corpo e menos tanino. Se é complexo, significa que apresenta muitas notas de aroma e na boca também.

As notas são lembranças de aromas que conhecemos, sejam de frutas, flores, laticínios (isso mesmo, se o vinho fica algum tempo em barricas, pode ter aroma de manteiga; se passa por fermentação malolática, lembra iogurte), pães, minerais (até querosene!) e o que mais você puder imaginar. Para isso, foi criada até uma roda que organiza as famílias de cheiros e, de novo, adotamos as convenções para evitar que um certo aroma que é descrito como cedro seja chamado de “bolsa da minha avó”.

É um pouco como aprender outra língua. Com esse idioma, temos acesso a informações mais imediatas sobre a bebida e podemos desenvolver uma relação diferente com seu universo. Mas é claro: você não precisa ser fluente nessa linguagem para saborear um vinho. Para isso, é preciso apenas estar disposto a prestar atenção nele e em você mesmo.

Vai uma taça?

Um bom, bonito e amigo do bolso é o espanhol Dominio Vega Linde Rosé Navarra D.O. (R$ 86 na Grand Cru), de garnacha, bom para a comida mas também para abrir os trabalhos enquanto se cozinha. Um dos melhores torrontés que eu já provei, o Kaiken Divina 2025 (R$ 199,) vem de Gualtallary, um dos grandes terroirs de Mendoza, na Argentina. É mais elegante e menos exuberante que a média. Na boca, é untuoso e equilibrado. Outro argentino delicioso é o Riccitelli The Party 2023 (R$ 129 na Bog Store), um malbec fermentado com os cachos inteiros. O resultado é um vinho bem redondo, com muita drinkability.


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Fonte.:Folha de São Paulo

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