
Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
- Author, Valentina Oropeza
- Role, BBC News Mundo
Published
Tempo de leitura: 8 min
Aviso: Esta reportagem contém descrições que podem ferir a sensibilidade de alguns leitores.
Daniela Villarroel preferiu tirar as botas e o uniforme ainda no jardim. Queria evitar que a sua casa ficasse impregnada pelo “cheiro de morte” que a acompanhava depois de buscar sobreviventes do terremoto duplo que atingiu a Venezuela em 24/6.
Antes de fazer carinho em seus cachorros, sacudiu os cabelos e limpou o rosto para tirar a poeira dos escombros. Depois que seus pais faleceram e seus irmãos emigraram, Emma, Chimuelo e Sisi são a família que lhe resta em Caracas, capital venezuelana.
Villarroel, de 28 anos, interrompeu seu trabalho como nutricionista por três semanas para ajudar no resgate de sobreviventes e na recuperação de corpos em La Guaira, o Estado mais afetado pelos terremotos que atingiram o norte da Venezuela há pouco mais de um mês.
Nos sete anos no Corpo de Bombeiros Voluntários da Universidade Central da Venezuela (UCV), Villarroel já enfrentou incêndios, acidentes e operações de resgate urbano. O que nunca havia vivenciado era o desafio de retirar pessoas presas sob prédios que desabaram.

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
“Bastava os sobreviventes te verem para segurarem a sua mão e te levarem até o lugar onde os familiares haviam ficado soterrados”, conta Villarroel, ao lembrar da primeira vez que chegou a La Guaira depois do terremoto duplo.
“Quando você olhava para dentro das estruturas, via crânios esmagados por colunas das edificações, pés presos sob os escombros, pessoas esmagadas ao meio e sangue fresco, sem conseguir enxergar quem havia sido esmagado.”
Mas Villarroel nunca retrocedeu. Durante 18 dias contínuos, se adaptou à rotina dos bombeiros voluntários da UCV: saía do quartel-central às 8h, percorria cerca de 40 km até as áreas devastadas na carroceria aberta de um caminhão e entrava nos edifícios desabados para resgatar sobreviventes e recuperar corpos.
À meia-noite, retornavam ao quartel dos bombeiros em Caracas, limpavam os equipamentos usados ao longo do dia e só iam para casa depois das 2h.

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
Dentro de um ‘espacinho’
Como integra um corpo de bombeiros voluntários, Villarroel e seus colegas não recebem salário e utilizam equipamentos comprados com o próprio dinheiro.
“Quando o terremoto ocorreu, eu só tinha minhas luvas e uma cordinha de cerca de um metro e meio que você carrega no bolso para amarrar alguma coisa, se precisar”, disse Villarroel.
Além da formação no Corpo de Bombeiros da UCV, Villarroel obteve certificação como paramédica em Dublin antes de iniciar a faculdade, durante uma temporada em que visitou os irmãos, que vivem na Irlanda.
Com 1,60 cm de altura e 58 kg, ela era a candidata perfeita para entrar nos espaços mais estreitos, que em alguns casos descreve como equivalentes à área de “quatro folhas de papel carta” dispostas em forma de quadrado.
“Imagine que você está dentro de um túnel, naquele espacinho, acontece um outro tremor e ouve pessoas dizendo: ‘Está tremendo de novo’. Então você vê pedras e terra caindo”, lembra Villarroel, ao recordar os primeiros dias.
“E nesse momento, o mais importante é o apoio psicológico ao sobrevivente. Dizer para ele se acalmar, dizer que já estamos ajudando. Por isso, é preciso manter a calma, porque você é o ponto de apoio dele. Se você desabar, ele vai desabar ainda mais rápido.”

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
O resgate de Gabriel
A primeira vez que Villarroel prestou apoio a uma vítima sob os escombros foi durante o resgate de Gabriel, um homem de 22 anos que respirava graças a uma “espécie de colchão de ar” formado pelos corpos do pai, da mãe e da esposa grávida, que impediram que ele fosse completamente esmagado pelos destroços.
“Eu desci seis metros por um túnel de um metro de diâmetro. Tive que entrar me arrastando, como uma minhoca. Apesar do desconforto, comecei a abrir espaço para conseguir usar as duas mãos e fazer força com os pés.”
Quando Villarroel chegou até Gabriel, viu que ele estava de bruços. Só conseguia enxergar os pés, o abdômen e a cabeça. Ao perguntar se tinha algo nos bolsos, ele respondeu que guardava o relógio que havia tirado do pulso do pai, um colar que sua mãe usava no pescoço e a aliança de casamento de sua esposa.
“Por favor, não jogue isso fora. Guarde tudo com muito cuidado, porque é a única coisa que vou levar deles”, teria dito Gabriel pouco antes de os colegas de Villarroel iniciarem a operação para retirá-lo dos escombros em uma prancha de resgate.
Naquela noite, depois de se limpar e abraçar os cães, Villarroel tomou um longo banho quente e dormiu profundamente, satisfeita por ter conseguido salvar uma vida.
Mas, à medida que os dias passavam e os resgates se tornavam mais difíceis, a rotina antes de dormir deu lugar à necessidade de lavar as roupas para tentar eliminar o cheiro de decomposição dos corpos.
“Esse cheiro impregna o uniforme, as luvas, tudo o que você estiver usando. Tive que jogar roupas fora e lavar meu uniforme sem parar, porque só tinha um. Depois, tudo parecia ter o mesmo cheiro, até as toalhas”, disse Villarroel.

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
‘Vamos tirar você daqui’
O resgate mais longo de que Villarroel participou no Estado de La Guaira durou oito horas. A sobrevivente era tia de um colega bombeiro. Ela estava presa sob escombros de um prédio em Caribe, um dos bairro da cidade de Caraballeda que foi quase totalmente destruído pelos terremotos.
“Os quatro primeiros andares daquele prédio ficaram achatados como panquecas, e a senhora estava presa no segundo andar”, conta Villarroel. Os escombros eram tão instáveis que os bombeiros se organizaram em duplas, revezando-se em turnos de 20 minutos para abrir caminho aos poucos.
Mais uma vez, ser baixa e leve foi uma vantagem para localizar a sobrevivente, que desde o início da operação passou a ser chamada de “tia”. “Enfiei a cabeça e a lanterna e perguntei: ‘Tem alguém aí? A senhora consegue me ouvir?'”
A mulher respondeu. “‘Tia’, me explique o contexto para que eu possa ajudar”, disse Villarroel. Ela pediu que a sobrevivente descrevesse a posição do corpo, se conseguia mexer as mãos e as pernas e o que havia ao seu redor.
Quando a “tia” bateu na porta que a mantinha presa, o som revelou a Villarroel onde ela estava. Assim, os bombeiros descobriram que precisariam desmontar uma mesa de madeira para conseguir retirá-la.
“Ela parecia muito distante. Naquele momento, a situação era tão complicada que parecia impossível, mas entrávamos e saíamos o tempo todo, discutindo como poderíamos chegar até ela, até que conseguimos.”
Depois de muito tempo removendo escombros, Villarroel encontrou dois corpos. “Cobri a moça e o senhor com chapas de metal para não precisar vê-los nem pisar neles toda vez que passávamos por ali.”
Horas depois, Villarroel finalmente conseguiu ver a “tia”. “Ela estava com um vestido rosa, sentada em posição fetal. Dava para ver suas nádegas e a parte inferior das costas.”

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
A socorrista estendeu a mão e conseguiu tocá-la. “Ela estava quente. Quando perguntei se tinha sentido meu toque, disse que sim.” Assim que a alcançou, Villarroel limpou sua cabeça e seu pescoço. “Ela estava tão presa, tão comprimida, que eu não sabia o que fazer.”
“Vamos te tirar daí”, dizia Villarroel enquanto a equipe se revezava usando uma esmerilhadeira para cortar os pés da mesa que bloqueava a saída da “tia”. “Todo o peso tinha caído sobre o quadril dela. Precisávamos retirá-la pelos pés.”
Enquanto Villarroel a ajudava a esticar as pernas para prepará-la para a retirada, a “tia” gritou de dor. “Tivemos que empurrar, puxar, colocá-la sentada e levantá-la.”
“Naquele momento, você não sente nada além da vontade de ajudar”, disse Villarroel. O que ela não esperava era que todas aquelas imagens voltassem durante a noite e a impedissem de dormir.

Crédito, Cortesia de Daniela Villarroel
‘Me livrar deste cheiro de morte’
Todas as noites, Villarroel tirava as botas e o uniforme ainda no jardim de casa, sacudia os cabelos para remover a poeira dos escombros e limpava o rosto. Depois, fazia carinho nos cães e lavava as roupas o máximo que conseguia.
Mas, a partir da segunda semana, quando tentava dormir, as vozes das pessoas pedindo socorro sob os escombros ecoavam dentro de seu quarto, assim como o barulho das esmerilhadeiras cortando móveis e barras de aço.
“Eu não conseguia dormir, não tinha apetite, ouvia vozes. O mais difícil para mim foi o cheiro… Era um cheiro tão forte que não consigo comparar com nada. Sinto que nunca vou me livrar deste cheiro de morte.”
Villarroel só conseguiu chorar três semanas depois do terremoto, durante uma sessão com sua terapeuta. Foi ela quem a ajudou a entender que as lembranças eram tão vívidas porque envolviam todos os seus sentidos.
“O sentimento que me persegue é o de que eu poderia ter feito mais”, disse, com a mesma voz firme e serena com que relata tudo o que viveu.
Emma, Chimuelo e Sisi passavam o dia inteiro esperando Villarroel sem comer. Quando ela se senta com eles no jardim para descansar, eles a lambem mesmo quando ela já não tinha forças para retribuir o carinho.
Quatro semanas depois dos terremotos na Venezuela, que deixaram mais de 5 mil mortos e cerca de 50 mil desaparecidos, os cães continuam sem sair dos pés de Daniela quando todos vão dormir.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


