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20 de maio de 2026

Educação financeira é ferramenta de inclusão social – 20/05/2026 – Papo de Responsa

Educação financeira é ferramenta de inclusão social – 20/05/2026 – Papo de Responsa

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Como, de fato, você aprendeu a lidar com dinheiro? Se essa pergunta fosse feita na rua, dificilmente alguém diria que teve uma disciplina estruturada na escola ou um guia claro dentro de casa.

A maioria dos brasileiros aprendeu na prática, muitas vezes em contextos de dificuldade, observando os pais esticarem o salário, adiarem desejos e lidarem com o aperto dos imprevistos.

Sem uma cultura consistente de educação financeira nas escolas ou nas famílias, crescemos tomando decisões no improviso, muitas vezes sob pressão. Para agravar o quadro, o ambiente financeiro se sofisticou rapidamente.

Num país em que grande parte da população lida com dificuldades de compreensão básica, navegar nesse ecossistema de tecnologia e inovações é muito complexo. Sem letramento, a sofisticação não liberta; ela ergue muros e afasta as pessoas da tomada de decisão consciente.

No meu dia a dia à frente do Instituto Marina e Flávio Guimarães, lidando com públicos em situação de vulnerabilidade, vejo que o que falta não é capacidade, é acesso a conhecimento aplicável. Quem tem menos recursos é quem mais precisa de estratégia, mas é justamente quem menos acessa orientação adequada.

As decisões são tomadas sem uma base mínima de informação: usa-se o crédito disponível, não necessariamente o mais adequado, e compromete-se a renda futura para resolver o presente. E essa “escola da vida” tem um custo alto.

Não por acaso, os dados mais recentes do Banco Central mostram que o endividamento das famílias brasileiras permanece elevado, com grande parte da renda comprometida com dívidas de curto prazo, enquanto a reserva financeira para lidar com imprevistos ainda é limitada para a maioria da população.

Para o público acima de 60 anos, o cenário é ainda mais sensível, pois esses percalços ocorrem num momento em que a capacidade de recompor a renda tende a ser consideravelmente menor. Estudos recentes do Serasa mostram que mais de 14 milhões de idosos estão inadimplentes no Brasil.

Esse avanço silencioso ocorre em paralelo a uma imensa lacuna de conhecimento: cerca de 60% desse público reconhece ter pouca ou nenhuma familiaridade com a própria organização financeira.

A verdadeira independência financeira não é, necessariamente, sobre ganhar muito dinheiro. É ter poder de escolha. É a liberdade de dizer “sim” ou “não”, criando alternativas reais para não depender de terceiros e garantir a própria dignidade.

A educação, sob essa ótica, deixa de ser uma operação matemática e passa a ser uma ferramenta de inclusão. Mais do que ensinar conceitos, trata-se de apoiar escolhas que impactam diretamente o bem-estar. Entender para onde o dinheiro vai, fazer escolhas conscientes, priorizar o essencial, planejar o mês e se preparar para o imprevisto.

No Instituto, vivenciamos diariamente o letramento financeiro como um verdadeiro passaporte para a autonomia. Por meio de projetos como o Bemi, levamos conteúdos de forma simples e lúdica, com um foco muito especial em crianças e adolescentes e em acolher os desafios do público com mais de 60 anos.

O impacto se torna profundamente real quando nos deparamos com histórias concretas —como a de uma cabeleireira aposentada que, a partir de orientações muito básicas sobre como anotar os próprios gastos, conseguiu finalmente retomar as rédeas do orçamento. Ao conquistar essa clareza, ela não apenas organizou suas contas, mas decidiu buscar uma renda extra para realizar um sonho antigo que parecia esquecido.

A autonomia se constrói aos poucos, com passos possíveis. A educação não resolve as questões estruturais complexas do dia para a noite. A transformação profunda exige tempo, rede de apoio e continuidade.

Contudo, o conhecimento inegavelmente abre portas. Ele traz a clareza necessária para organizarmos a vida e viver com mais tranquilidade. Que possamos assumir o compromisso coletivo de democratizar a informação, garantindo a cada cidadão o direito inegável de viver com verdadeira liberdade de escolha.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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