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23 de julho de 2026

Etnoturismo mostra que há muito em comum entre os povos – 22/07/2026 – Turismo

Etnoturismo mostra que há muito em comum entre os povos – 22/07/2026 – Turismo

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Há quem diga que viajar já não é mais uma aventura. Se por um lado a massificação do turismo deixou tudo meio previsível para o viajante, este por sua vez também prefere a certeza de que tudo será como ele imaginou. Sobra, ao final, muito pouco espaço para o incerto e o diferente —justamente o que dá ares de aventura às andanças.

De certa forma, as experiências de turismo de base comunitária (ou etnoturismo, no caso de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas) pretendem ir na contramão disso ao se basear em modos de vida, hábitos e tradições que têm um valor em si.

É um turismo que tem crescido no Brasil, inclusive com destaque nas ações de promoção do país no exterior, na esteira da demanda dos viajantes por experiências tidas como mais significativas e responsáveis.

A reportagem visitou a Terra Indígena Haliti Paresi, no norte de Mato Grosso, que desde a pandemia vem se organizando para receber turistas de maneira regulamentada —a visitação precisa constar no plano de gestão do território e ter anuência da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), por exemplo. Os primeiros grupos estão chegando agora.

Para recebê-los, a aldeia Katyalarekwa (uma das cinco abertas à visitação no território) passou por algumas adaptações. A Vivalá, agência especializada em turismo sustentável, ajudou a comunidade a desenhar uma experiência que buscasse conciliar anfitriões e visitantes. Uma das hatis, as habitações tradicionais do povo paresi, recebeu barracas com colchão inflável, lençol, travesseiro, manta e saco de dormir —o lugar é uma chapada, e à noite faz frio.

Também foram construídos dois banheiros para os visitantes. Eles ficam do outro lado da aldeia, a cerca de 200 metros da hati —uma dinâmica parecida com a de um toalete de hostel. Está longe de ser um grande perrengue, mas pode ser incômodo para alguns. Desafiador mesmo é o banho frio, já que a energia elétrica é incipiente, e um chuveiro pode derrubar a luz da aldeia inteira.

Com uma área equivalente a três campos de futebol, a aldeia fica a 360 quilômetros de Cuiabá, e a 110 km de Tangará da Serra, onde é possível pernoitar caso as quase seis horas de estrada a partir da capital sejam demais. Por serem rotas do agro, as estradas são ótimas, e mesmo os 20 km finais, de terra, são viáveis até mesmo para carros de passeio.

Há dois jeitos de visitar o local. Com os grupos da Vivalá, que costumam sair durante os grandes feriados, o pacote completo (incluindo todas as refeições, transfer a partir de Cuiabá, uma noite em Tangará da Serra e outras três na aldeia) sai por R$ 3.980 por pessoa.

Também é possível ir por conta própria, reservando diretamente com a agência montada pelos próprios indígenas, a Menane Haliti —nesse caso, dois dias na aldeia, apenas com alimentação, saem por R$ 800 por pessoa.

Os visitantes são recebidos por toda a aldeia com danças típicas, seguida por uma roda de apresentações em um espaço circular dedicado a cerimônias.

Na sequência, todos se instalam em suas barracas (há também redes e camas comuns para quem preferir). É preciso se abaixar para entrar na hati, mas o espaço é amplo, bem ventilado e conta com pontos de luz e tomadas. Mas o wi-fi só pega num terceiro espaço, onde são servidas as refeições.

O almoço já quebra aquela ideia de que, em um lugar isolado, a alimentação pode ser um problema. Pelo contrário, o cardápio é simples, mas bastante variado. São servidos arroz, feijão, salada, alguma proteína (carne ou peixe, e às vezes frango), farofa, frutas e até um doce de abóbora caseiro de verdade. Quem prefere opções industrializadas, porém, não fica com fome: há refrigerantes, sucos de caixinha e nuggets. Mas o inesquecível mesmo é o pão de queijo, caseiro, quase cremoso por dentro.

À noite, todos se reúnem em volta de uma fogueira —ou dentro da hati, caso o frio seja demais— para ouvir as histórias do povo paresi. Como a do mito de origem, que fala de um herói ancestral, Wazáre, que em tempos imemoriais teria destinado a eles as terras daquele imenso chapadão que divide as cabeceiras das bacias hidrográficas dos rios Amazonas e Paraguai, e que leva o nome deles, chapada dos Parecis.

Também se aprende a importância mítica das flautas sagradas, usadas em rituais e festejos. Elas ficam em uma hati específica, guardada apenas pelos homens, os únicos que podem tocá-las.

Entender essas histórias não é exatamente fácil porque ali o português é uma segunda língua, o que naturalmente deixa a comunicação um pouco truncada, mas nada impossível de compreender.

A roda de conversa é aberta a perguntas dos visitantes e, entre uma e outra, vamos descobrindo, por exemplo, que os jesuítas passaram por aquela região no final do século 17 (daí os muitos nomes bíblicos dos indígenas) e que os paresi foram parceiros do marechal Rondon na construção das linhas telegráficas naquela região no começo do século 20.

Os momentos de aprendizado se estendem aos cafés da manhã, embalados pelas divertidas aulas da língua paresi do professor Salomão Nezokemazokai, o mesmo que ensina as crianças da aldeia.

A língua pertence ao tronco aruak, a maior família de línguas da América em extensão geográfica (outros troncos são o tupi e o macro-jê). “Explicar aos turistas é explicar também às crianças”, diz Pedro Kezowe, secretário da associação indígena Arara Azul, uma das aldeias do território.

Mas nada é tão divertido quanto as tardes, quando todos se juntam para fazer trilha até o rio, aprendendo sobre as plantas medicinais pelo caminho, nadar, jogar peteca ou tidimore, que consiste em arremessar um marmelo para derrubar as estacas do adversário.

Há também um outro jogo, jikyonahati, que é uma espécie de futebol praticado apenas pelos homens e apenas com a cabeça —nesse é difícil competir com a habilidade dos paresi. Melhor tentar o arco e flecha e dedicar um tempo à pintura corporal com grafismos tradicionais. A tinta vem do sumo do jenipapo ralado, e fica na pele por até 15 dias.

Como os roteiros têm de dois a três dias, essas atividades às vezes acontecem sem muito tempo para contemplação entre elas. Mas vale a pena aproveitar os poucos momentos livres para observar o pôr do sol, ouvir o silêncio do lugar e, à noite, ver a mancha da via láctea a olho nu, graças ao céu limpo do lugar.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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