Em 1995, ao lançar seu terceiro álbum de estúdio, “Da Lata”, Fernanda Abreu consolidou seu nome no primeiro panteão da música brasileira. Antes conhecida por ocupar o posto de backing vocal na banda Blitz e, depois, em carreira solo, como nome emergente no então restrito cenário da dance music, a cantora cresceu ao fundir os ritmos nacionais com o som feito para as pistas.
Na noite desta terça-feira (14), celebrando os 30 anos do lançamento de “Da Lata”, Abreu pôs na pista um show tão envenenado quanto o disco que lhe deu origem. Ao subir ao palco do Tokio Marine Hall, a cantora desfilou rosário de hits coletados (essencialmente) ao longo da década de 1990, desde que despontou nas paradas com o seminal “Sla Radical Dance Disco Club”, de 1991.
A década predominou no roteiro, até porque é nela que se encontra o filé do repertório da artista, que sequer fez menção a canções de discos lançados após os anos 2000. Nem mesmo o revigorante “Amor Geral”, de 2016, figurou no roteiro, construído essencialmente ao redor de “Da Lata”, álbum ainda eficiente no poder de fazer ferver a pista.
Compondo a programação do Queremos Festival, Abreu usou seu show para abrir os trabalhos do grupo inglês Soul II Soul, com quem guarda relação de proximidade. Parte do álbum “Da Lata” foi gravado e mixado no estúdio do conjunto, em Londres.
Com cenário formado por telão repleto de referências à cenografia assinada por Luiz Stein para o show de 1995, a cantora entrou em cena recitando os versos de “A Lata”, poema assinado por Chacal e musicado pela artista e por Marcos Suzano, para logo em seguida cair no suingue do hit “Veneno da Lata”.
A pista do Tokio Marine Hall se movimentou, mostrando que mesmo os mais desatentos, à espera do show da banda inglesa, se deixaram contaminar.
Lados B como “Be Sample” e “Tudo Vale à Pena” cresceram em cena, mas foi a energia vibrante de “Brasil é o País do Swing” e a força sexy de “Você pra Mim” que ajudaram a captar o público nem sempre afeito a deixar de lado seus celulares —mal que se repetiu e multiplicou durante o show da Soul II Soul.
Embora resulte menos interessante do que o show anterior da cantora, “Amor Geral”, “Da Lata” cumpre o que se propõe, lançando mão de hits infalíveis, como “Kátia Flávia, A Godiva do Irajá”, e dando nova chance a baladas feitas para dançar grudado, o que a cantora conceituou como “momento baile charm”. “Dois” e “Um Dia Não, Outro Sim” surtiram efeito limitado, mas foram acenos simpáticos aos fãs mais afoitos.
O show voltou à pulsação envenenada quando a cantora lançou mão de títulos como “Rio 40 Graus” e a canção-assinatura “Garota Sangue Bom”, ainda capazes de fazer a pista tremer.
No bloco final, Abreu enfileirou as canções de tom mais conceituais da noite, buscando uma ponte entre o conceito do álbum de 1995 e os tempos modernos.
Se o já clássico Bloco Rap Rio, um tributo à história da música negra brasileira, fez o público dançar com algum interesse pelo mashup de canções de Tony Tornado, O Rappa, Olodum, entre outros, a versão turbinada do “Bloco Funk”, medley de clássicos do gênero carioca, foi responsável por incendiar até os mais desatentos.
O momento serviu ainda para a cantora prestar o que conceituou como uma homenagem crítica à memória do DJ americano Afrika Bambaataa, celebrado como o pai do que viria a ser o funk carioca, que saiu de cena aos 67 anos no último dia 9.
Com funks da primeira safra,como “Rap da Felicidade”, passando pelos consagradores anos 2000 ao som de “Boladona”, em homenagem a Tati Quebra Barraco, “Se Ela Dança eu Danço”, de MC Leozinho, e, claro, “Glamurosa”, imortalizada por MC Marcinho, a artista prestou seu tributo pessoal ao ritmo que sempre defendeu, hasteando a bandeira anti-preconceito musical e social.
Encerrado ao som do samba enredo “É Hoje”, o show “Da Lata” mostra que a obra de Fernanda Abreu segue capaz de incendiar o público de idades diferentes, enfrentando mercado etarista que tende a tentar enterrar cantoras que considere fora dos pretensos padrões ideais de idade.
No que depender de sua energia e repertório, a garota carioca de suingue sangue bom seguirá imune aos males do mercado.
Fonte.:Folha de S.Paulo


