10:20 PM
12 de maio de 2026

Filhas de condenados por educação domiciliar leem 30 livros por ano

Filhas de condenados por educação domiciliar leem 30 livros por ano

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Relatórios do desempenho das irmãs que recebem ensino domiciliar no município de Jales, interior de São Paulo, apontam que as meninas de 11 e 15 anos leem cerca de 30 livros por ano, enquanto a média de leitura no Brasil — segundo dados da Revista internacional Ceoword — é de 5,6 livros.

Além do incentivo à leitura, os pais afirmam que as filhas têm acesso às demais disciplinas curriculares, como matemática, ciências, história, geografia e educação física. Além disso, relatam que elas aprendem inglês, latim, piano e participam de aulas de canto em coral oferecidas pela paróquia frequentada pela família. No entanto, o casal foi condenado recentemente por abandono intelectual após manter as meninas em ensino domiciliar.

Segundo a advogada Isabelle Monteiro, que representa a família, o juiz da 2ª Vara Criminal de Jales citou em sua decisão que as meninas não gostam de estilos musicais como funk e sertanejo, o que demonstraria, na visão do magistrado, “suposta discriminação e preconceito na educação” domiciliar ministrada pelos pais.

À Gazeta do Povo, a advogada cita ainda outras argumentações utilizadas pelo juiz, como afirmações de que as crianças não aprenderiam sobre religiões e de que não seriam expostas a filmes nacionais e a conteúdos sobre cultura afro-brasileira.

A advogada relata também que o magistrado classificou como insuficientes as aulas de arte baseadas em música e pintura por se limitarem à “arte sacra” e não contemplarem dança e teatro. O juiz ainda apontou, segundo a defesa, que na educação das garotas não há menção ao ensino de temas relacionados à sexualidade, gênero e direitos das crianças e adolescentes.

Exemplos de artes realizadas pelas meninas.Exemplos de artes realizadas pelas meninas. (Foto: Arquivo pessoal/ I.C.M)

Os pais foram condenados ao cumprimento da pena de 50 dias de detenção em regime inicial semiaberto, com suspensão por dois anos mediante prestação de serviços à comunidade e matrícula e frequência das filhas em escola regular. A defesa vai recorrer da decisão.

Mãe se formou em matemática e pedagogia para ensinar as filhas

A mãe das estudantes — que prefere não se identificar — afirma estar triste com a sentença, mas confiante de que tem feito o melhor pelas filhas. “Fizemos o que todo pai e toda mãe deveriam fazer”, disse. “Tudo o que elas aprenderam até agora ninguém irá tirar delas”.

Segundo a paulista, as meninas aprendem todas as disciplinas curriculares e usam diferentes leituras para instigar o estudo de temas abordados nas aulas. “Quando pegamos um livro de literatura como ‘A Volta ao Mundo em 80 dias’, de Júlio Verne, por exemplo, nós olhamos o mapa, vemos como eram as civilizações daquele período, e isso encanta”, descreve a mãe, ao relatar que o mesmo é feito com estudos de ciências, biologia, história do Brasil e qualquer outra temática.

Parte do relatório de leitura de 2025 preenchido pela filha mais velha, que estava com 14 anos.Parte do relatório de leitura de 2025 preenchido pela filha mais velha, que estava com 14 anos. (Foto: Arquivo pessoal/ I.C.M)

“Esses dias, por exemplo, o livro citava um templo hindu, e a gente pesquisou e descobriu como ele é, por que se chama assim, e a etimologia da palavra hindu”, exemplificou a mãe, que é formada em ciências contábeis, mas decidiu estudar matemática e pedagogia para ensinar as filhas. Ela concluiu os novos cursos em 2024 e 2025.

Ainda segundo a mãe, as meninas também têm aulas com outros dois professores, um deles de Portugal, e realizam diversas atividades fora do ambiente domiciliar — como catequese e passeios. Ela também informa que as meninas são incentivadas a realizar pesquisas na internet e em enciclopédias físicas que a família tem em casa.

“Nós ganhamos uma biblioteca antiga, e eu deixo os livros em local de fácil acesso para elas usarem”, relata a mulher, ao pontuar que a educação das filhas é voltada a conhecer o mundo e suas diferentes realidades.

Segundo a contadora, o resultado da educação das meninas é perceptível e elas demonstram isso no dia a dia e através de reconhecimentos recebidos. “Minha mais velha, por exemplo, fez inglês no Kumon e ganhou o prêmio Platinum por concluir o curso com oito anos de antecedência”, comemorou a mãe. “Estou em paz”, finalizou, confiante de que a sentença será revertida em segunda instância.

Os pais afirmam que as filhas têm acesso a todas as disciplinas curriculares, como português, matemática, ciências, história, geografia e educação física.Os pais afirmam que as filhas têm acesso a todas as disciplinas curriculares, como português, matemática, ciências, história, geografia e educação física. (Foto: Arquivo pessoal/ I.C.M)

PL da educação domiciliar segue em tramitação no Senado

Em 2018, o STF reconheceu que a educação domiciliar não é incompatível com o previsto na Constituição, mas que também não é um direito garantido automaticamente ao aluno ou à família. De acordo com o Supremo, o tema precisa de regulamentação por meio de lei federal.

Atualmente, o principal Projeto de Lei a respeito é o PL 1.338/2022, que prevê regras para a educação domiciliar. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados, em maio de 2022, e enviado ao Senado, onde segue parado na Comissão de Educação. O PL teve parecer favorável da relatora — senadora Professora Dorinha Seabra — em 2025, mas não avançou para votação.

Segundo especialistas em educação domiciliar, a demora gera “insegurança jurídica” às famílias que optam por essa modalidade de ensino, pois não há proibição constitucional para a prática, mas também não há ainda lei federal que estabeleça garantias mínimas para o exercício do homeschooling no Brasil.

Atualmente, a prática é regulamentada em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Portugal, Austrália, África do Sul e México.



Fonte. Gazeta do Povo

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