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16 de maio de 2026

Filme português aposta no presente, tempo dos mal-entendidos – 16/05/2026 – Bernardo Carvalho

Filme português aposta no presente, tempo dos mal-entendidos – 16/05/2026 – Bernardo Carvalho

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Numa entrevista ao jornal Público, em outubro do ano passado, o português Pedro Pinho, diretor do surpreendente “O Riso e a Faca“, em cartaz em São Paulo, disse que chegou a temer por seu filme diante da densidade da discussão em torno das questões identitárias.

Havia de fato o risco de mal-entendidos —o filme acompanha um engenheiro português, branco, em missão à Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa—, mas uma “afinação da palavra no tempo” terminou por dissipar o temor do cineasta.

“[Tenho a impressão de que] está a nascer uma estética radicalmente diferente, em que há uma espécie de necessidade de ‘pornografia’, de explicar tudo e mostrar tudo, no sentido discursivo […], na relação com a palavra explícita, quase pornográfica, e o tempo dado à palavra e ao pensamento. […] Aquilo que eu tento é criar um ambiente de polifonia, de perspectivas contraditórias.”

O presente é o tempo dos mal-entendidos, o lugar onde as coisas acontecem. Só depois, com a confirmação de uma coisa e não de outra, é que vem o entendimento retroativo, as garantias e a chancela. “O Riso e a Faca”, citação da canção homônima de Tom Zé, faz a sua aposta no presente, tempo em que as coisas acontecem contraditórias, antes do entendimento. É o lugar da arte. A “pornografia discursiva” é o contrário de calar, oposto dos cancelamentos e da autocensura.

Cada um procura o seu caminho. A beleza de “O Riso e a Faca” é que, nele, o caminho é uma pergunta lançada não à conveniência das normas (ou à reiteração programada dos algoritmos e da inteligência artificial), mas à imprevisibilidade do acaso.

O tempo da confirmação é o da peça de propaganda. Sem certezas prévias, porém, nada está sob controle. “O Riso e a Faca” aposta no inesperado, no que está por vir, em aberto. É um “documentário da construção da ficção”.

Atraído por um brasileiro que ele encontra num bar, o engenheiro português lhe pergunta, hesitante, o que o levou à Guiné-Bissau, e o que ele descobriu na África. O brasileiro diz que descobriu que não veio de onde imaginava. A resposta é ambígua, diz respeito a dois lugares distintos e misturados, a um só tempo Brasil e África. E anuncia a abertura e a disponibilidade do filme para o caos irresoluto do mundo. Na mesma cena, o brasileiro, que é negro, acaba interpelado por um personagem local que insiste em dizer que ele é branco.

Mais adiante, uma mulher numa aldeia no interior do país pergunta ao engenheiro se é verdade que no lugar de onde ele vem as pessoas jogam água de beber nas latrinas. Entre envergonhado e cúmplice, o engenheiro responde que sim. A mulher, que vem de onde falta água, não acredita, ri da burrice dos brancos, insiste na pergunta. E ele, sem graça, confirma: sim, assim são as coisas.

A irresolução dos diálogos prossegue quando o engenheiro, como se exibisse um atestado de hombridade e caráter à protagonista solar do filme, por quem ele está absolutamente fascinado, diz que recusou o suborno dos que lhe pediam para acelerar a conclusão de um relatório sobre os impactos ambientais da construção de uma estrada.

Ela reage indignada e sarcástica. Confronta a idoneidade e as boas intenções do engenheiro com a realidade na qual apenas privilegiados como ele, herdeiros de uma longa história de corrupção, opressão e violência, têm condições de recusar propinas, exibindo uma moral aparentemente imaculada.

Na canção da qual o filme tira seu título, Tom Zé diz: “Quero ser o riso e o dente/ Quero ser o dente e a faca/ Quero ser a faca e o corte/ Em um só beijo vermelho/ Fiz meu berço na viração/ Eu só descanso na tempestade/ Só adormeço no furacão/ Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”.

O “lugar errado” do engenheiro europeu na ex-colônia africana, peixe fora d’água, é o presente inconclusivo entre o risco e o mal-entendido, o riso e a faca, lugar da liberdade de se recriar, porque é também onde tudo está sempre por dizer.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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