A história de Hélia Kumaruara começa com um milagre. Quando criança, foi atingida por uma flecha e passou três dias desacordada. Sobreviveu com a força dos encantados do seu território indígena, na margem esquerda do rio Tapajós. Essa foi só uma das muitas batalhas que precisou enfrentar durante a vida.
Nasceu na Aldeia Solimões, em Santarém (PA), em 1962, onde passou a infância. Mas, por volta dos 12 anos, teve de sair de casa. Foi para a cidade junto com as irmãs fugindo da epidemia de tuberculose que tomou conta da região. Um irmão já tinha sido acometido e deixado a família enlutada.
A menina, que caminhava mais de um quilômetro até a escola e só pôde estudar até a quinta série, desde muito nova precisou trabalhar em casa de família. Com eles foi levada para Belém.
Seu primeiro casamento foi com um não indígena com quem teve três filhas. O relacionamento difícil acabou e ela voltou para a aldeia, mas o ex-marido tomou a guarda das crianças. “Foi até um processo meio violento. Naquela época, não tinha como a mulher reivindicar seus direitos”, afirma a filha Luana Kumaruara, 40.
Dois anos depois, com o falecimento do pai, as meninas foram devolvidas. E foi ao buscar escola para elas que Hélia também viu a oportunidade de voltar a estudar.
Formou-se em magistério e abriu uma escolinha em casa, a Meu Guri. Depois, já concursada pelo município, passou a dar aulas em outras aldeias.
Cursou letras na Universidade Luterana do Brasil e fez duas especializações. Conquistou o título de mestra pela Universidade Estadual do Estado do Pará (Uepa).
Dentre muitos projetos, foi uma das fundadoras do Departamento de Educação Indígena do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (Cita), do qual era coordenadora.
“Acabou sendo a referência para ser a voz do direito do povo, principalmente ao ensino”, afirma a filha.
Sua dedicação ia além das salas. Quando precisavam de uma articulação ou dar entrada em documentos no Ministério Público, era a ela que recorriam.
Há dois anos, uma das ações a fez ser a primeira do território a conseguir inserir a etnia em seu nome. Seu empenho impactou toda a região, que abrange três municípios e mais de cem aldeias. Depois que entrou com uma ação coletiva, cidadãos das 14 etnias conseguiram o registro.
De liderança comunitária foi consagrada cacica da Aldeia Muruary. Lutou diversas vezes com seu povo pelo meio ambiente. Em janeiro, esteve na defesa do rio Tapajós ocupando uma multinacional agrícola durante 33 dias.
Também esteve entre os fundadores da brigada Guardiões Kumaruara, formada por moradores de dez aldeias do Pará para combater incêndios florestais.
Mesmo tão forte, a educadora tinha ansiedade e síndrome do pânico, desenvolvidas após a morte do filho Wemerson em um acidente de moto. Mas dizia que estar no movimento indígena lhe dava vida.
Morreu no dia 26 de fevereiro, aos 62 anos, dois dias após desmaiar em sala de aula por conta de um infarto.
Deixa o marido, Edson Carlos, e cinco filhos, Elen, Luana, Tainan, Suelen e Hélida, além de sete netos: Taissa, Wemerson, Julia, Ayla, Yara, Kauê e Teça.
Fonte.:Folha de S.Paulo


