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Antes de um evento no tapete vermelho para a série de sucesso Heroes, ela contou que alguém de sua equipe lhe deu um comprimido para aumentar sua energia. A série de ficção científica da NBC catapultou a adolescente para o estrelato, e isso trouxe consigo uma pressão intensa e um cansaço que, segundo ela, eram insuportáveis.
“Em poucos minutos, uma onda de energia me invadiu, como se eu tivesse acabado de acordar da noite de sono mais revigorante da minha vida”, escreveu Panettiere sobre a pílula em suas memórias, lançadas poucos meses antes de sua morte.
Ela chamou isso de “a droga de entrada que me conduziu aos benefícios dos medicamentos e à ruína do vício”.
A morte repentina da estrela aos 36 anos trouxe à tona novamente os problemas de saúde mental e abuso de substâncias, e reacendeu a discussão sobre as pressões de Hollywood sobre as estrelas mirins.
O gabinete do legista em Greenville, na Carolina do Sul, informou que as equipes de resgate atenderam uma mulher em “parada cardíaca” e que a autópsia não apresentou “sinais de trauma”.
A causa da morte ainda não foi divulgada, embora exames adicionais ainda precisem ser concluídos.
Áudios dos atendentes e equipes da polícia que responderam ao chamado indicavam que estavam atendendo a uma “parada cardíaca” e detalhavam os esforços para reanimar a mulher após uma possível “overdose”.
O ex-namorado de Panettiere, Brian Hickerson — que admitiu tê-la agredido — e seu irmão, Zack, estavam com Panettiere quando os serviços de emergência chegaram, de acordo com um boletim de ocorrência.
Segundo a polícia, não há suspeitas de envolvimento deles na morte.
Não se sabe se drogas ou álcool contribuíram para sua morte, mas a Agência Antidrogas dos EUA (DEA) fará parte da investigação, de acordo com relatos da mídia americana.
Panettiere é uma das muitas atrizes que abertamente lutaram contra o vício após a exposição à fama em uma idade precoce, o que, segundo especialistas em dependência química disseram à BBC, pode colocar as pessoas em risco de desenvolver problemas de saúde mental e abuso de substâncias.
Para o resto do mundo, às vezes pode parecer que os atores mirins têm “tudo” ao seu alcance — como fama e dinheiro, diz Lucas Trautman, diretor médico do Oxford Treatment Center, um centro de tratamento para dependentes químicos no Mississippi.
“Mas é importante lembrar que eles também foram expostos, durante um período de desenvolvimento, a muitos aspectos da vida adulta que o resto de nós não foi — incluindo experiências traumáticas — e isso lhes confere fatores de risco únicos para o vício”, disse Trautman.
A morte de Panettiere ocorre após a publicação de um livro de memórias onde ela discutiu detalhadamente seus problemas com o vício, sua depressão pós-parto e a perda de seu irmão de 28 anos.
A decisão de Panettiere de compartilhar publicamente suas dificuldades é digna de respeito, disse William Moyers, vice-presidente de relações públicas da Hazelden Betty Ford, a maior organização sem fins lucrativos de tratamento de dependência química dos EUA. No entanto, ele afirmou que o constante escrutínio público a que ela foi submetida pode não ter lhe dado espaço para lidar com sua saúde mental.
“Toda a vida dela, desde o início, foi centrada nos intensos holofotes da mídia, e isso não deu a Hayden muito descanso”, disse Moyers, que está em recuperação de um vício desde 1989.
Clínica de reabilitação aos 12 anos
Trautman, que já tratou estrelas infantis, disse que elas frequentemente têm o mesmo acesso que um adulto a drogas e álcool, mas sem a proteção de um adulto.
“Não estamos preparados, desde jovens, para dizer não a isso, para lidar com isso, para nos mantermos completamente afastados disso”, disse ele.
Outras estrelas mirins falaram sobre terem sido expostas a drogas ainda jovens, incluindo Drew Barrymore, que foi internada em uma clínica de reabilitação aos 12 anos, e Demi Lovato, estrela do Disney Channel.
“Eu sofri um acidente de carro e me receitaram opiáceos. Minha mãe não achava que precisaria trancar os opiáceos para que sua filha de 13 anos não tivesse acesso a eles, mas eu já estava bebendo naquela época”, contou a cantora ao podcast Call Her Daddy em 2022.
A atriz Michelle Rodriguez, que no passado apresentou o prêmio World Music Awards com Panettiere, disse esta semana que o número de atores mirins que faleceram ainda jovens é estranho.
“Não suporto a quantidade de jovens que estão nos deixando ultimamente. É desanimador e me faz pensar: ‘O que está acontecendo?’ Não é normal”, disse ela à Variety.
A morte de Panettiere ocorre apenas um ano após a morte de Michelle Trachtenberg e meses depois da de Daveigh Chase — duas estrelas infantis que lutaram contra o vício em drogas e álcool.
Em um ensaio que escreveu após a morte de Panettiere, a ex-estrela da Disney, Christy Carlson Romano, comparou a fama precoce a uma doença cerebral traumática.
“Quase não temos palavras para descrever o que acontece quando o estresse, o escrutínio, a rejeição, a pressão dos adultos e o colapso da privacidade se tornam a estrutura da infância”, escreveu ela.
Fim da fama e famílias difíceis
E quando a carreira de um ator mirim muda ou chega ao fim, ele fica sem a dopamina da fama e do dinheiro que vinham com sua identidade como ator, alertou Trautman.
“Ao mesmo tempo, muitos deles se automedicavam… então o cérebro deles ainda depende disso, e é muito, muito difícil parar de usar”, disse ele.
Muitas estrelas mirins também têm relações profissionais com seus pais, o que pode confundir os limites e deixá-las vulneráveis, disse Trautman.
Em seu livro e na mídia, Panettiere falou sobre a pressão que sua mãe exerceu sobre ela para que se destacasse como atriz desde muito jovem. Ela apareceu em seu primeiro comercial com apenas 11 meses de idade.
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“A gente sempre quer pensar o melhor dos nossos pais e vê-los sob a melhor luz possível”, disse a atriz ao New York Times em maio. “Mas muitas coisas foram feitas com uma abordagem que não levava em consideração minha saúde mental ou o que era emocional e mentalmente seguro para mim.”
O abuso de substâncias também coloca as pessoas em risco de desenvolver uma série de problemas de saúde, incluindo doenças cardíacas e danos ao fígado e outros órgãos.
O irmão de Panettiere, Jansen, morreu aos 28 anos devido a um problema cardíaco, e Panettiere revelou em seu livro que ele usava heroína e cocaína.
Mas, após a morte dele, a atriz declarou à revista People em 2024 que estava determinada a permanecer sóbria, afirmando que seu vício estava “no retrovisor”.
Ela contou em seu livro que, em certo momento, um médico lhe disse que, se ela não parasse de beber, estaria “morta em cinco anos”.
Para Moyers e outros especialistas em abuso de substâncias, o vício é uma doença crônica, o que significa que as recaídas ainda acontecem mesmo quando o tratamento salva vidas.
“Viver em recuperação significa fazer o melhor que podemos, mesmo que de forma imperfeita”, disse ele.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


