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30 de maio de 2026

Minas e Ouro Preto vencem lugar histórico, diz Datafolha – 27/05/2026 – Turismo

Minas e Ouro Preto vencem lugar histórico, diz Datafolha – 27/05/2026 – Turismo

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Foram quase quatro horas de marcha, entre momentos marcados pela prosa mansa e outros prolongados por um silêncio imenso. A paisagem se revelava aos poucos: ao fundo, a serra que sugeria não ter fim; ao lado, o rio que margeava os passos. Estávamos em um dos trechos mais intocados da Estrada Real, que liga Ouro Preto a Diamantina, cortando a Cordilheira do Espinhaço. E aquele era apenas o sopé da viagem.

O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. O aviso de João Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, não funciona ali como ornamento literário. É advertência ao viajante apressado. Quem chega a Minas Gerais querendo apenas cumprir etapas no mapa corre o risco de atravessar o estado sem perceber aquilo que ele tem de mais revelador.

Minas surge na curva empoeirada da estrada, na prosa que se alonga sem pedir licença enquanto se toma uma pinguinha no armazém, de cara para o cavalo arreado que espera pelo dono. A calçada é de todos.

Há de se fazer o sinal da cruz, independentemente da fé que se carrega, ao passar pelas capelas e igrejas que pontuam praticamente todos os caminhos de Minas.

Essa combinação de história e afeto está consolidada na memória de quem visita o estado. Neste especial Viaja São Paulo, a pesquisa Datafolha feita com viajantes paulistanos coroou Minas Gerais e uma de suas joias coloniais mais célebres, Ouro Preto, como os melhores destinos históricos do país —20% para cada um.

O estado ainda estreou no topo de outra categoria: o de destino mais acolhedor do Brasil, liderando de forma isolada, com 13%.

Algumas dessas cidades de interior são alcançadas em poucas horas de estrada partindo de São Paulo, como Passa Quatro, Carrancas, Aiuruoca. Lá, a vida frequentemente se organiza ao redor de uma praça, em seus coretos e bancos de madeira.

É nesse cenário que a fama de povo desconfiado se desfaz em folclore após um dedinho de prosa. O uso quase ritualístico dos diminutivos na fala entrega o sotaque e o espírito do lugar. A hospitalidade aparece nos gestos pequenos: no convite para entrar, no café que chega antes da pergunta, no bolo recém-saído do forno ou no pedaço de queijo.

A comida, aliás, é a sequência natural dessa acolhida. É quase impossível desassociar o território de sua cozinha de afeto, do estalo do torresmo pururucado ao feijão tropeiro, passando pelo perfume do ora-pro-nóbis, folha que é a própria tradução das Minas, como se avista nos quintais de São Gonçalo do Rio das Pedras.

Também se caminha demais. Exige esforço vaguear pelas calçadas e ruas de pedra de Tiradentes, as mesmas que acolhem festivais de cinema e gastronomia. O respiro vem nas trilhas que despencam em cânions de águas esmeraldas, em Capitólio, ou no alto de São Thomé das Letras, para ver o pôr do sol acima das nuvens. É chão para andar à procura da sombra dos buritis lá pelo norte ou para alcançar as cavernas de pinturas rupestres milenares nos arredores de Januária.

O território também sabe aquietar-se. Abre espaço para quem quer simplesmente desfrutar do ócio em estâncias hidrominerais de São Lourenço e Caxambu, voltar ao passado no balanço de uma maria-fumaça em São João del-Rei ou se perder no maior museu a céu aberto do mundo, em Inhotim. Minas é vasta.

E sua imensidão guarda quase um terço dos patrimônios históricos brasileiros reconhecidos pela Unesco. Quatro tesouros nacionais estão fincados em terras mineiras: entre eles, o centro histórico ouro-pretano, reconhecido como o conjunto urbano colonial mais bem preservado do Brasil.

“Minas —a gente olha, se lembra, sente, pensa”, escreveu Guimarães Rosa. No ano em que se celebram as sete décadas de “Grande Sertão: Veredas”, de onde saiu a frase do começo deste texto, faz-se o silêncio necessário para compreender a sentença do mestre.

Diante de tanta terra e tanta história guardada no segredo de serras, montanhas e ladeiras, a certeza que fica ao fim da travessia é uma só: “Minas são muitas”.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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