O italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, morreu nesta quinta-feira (21), aos 76 anos, na cidade de Bra, na Itália. A morte foi comunicada pela organização criada por ele, em um texto no site oficial e em uma postagem nas redes sociais.
Petrini ajudou a sedimentar, em um mundo que via a industriazação da comida se estabelecer, a ideia de que comer é um ato político.
Jornalista gastronômico, ele fundou o Slow Food depois de um protesto em 1986 contra a abertura de uma filial do McDonald’s na piazza di Spagna, em Roma. Na ocasião, manifestantes serviram penne a quem passava no ponto turístimo como maneira de relembrar a cultura alimentar italiana.
Com isso, pavimentou o conceito, repetido por restaurantes em todo mundo até hoje, de trabalhar com alimentos “farm to table” (vindos diretamente do campo à mesa), respeitando a tradição local e a sazonalidade.
O lema difundido pela organização, formalizada em 1989 com a assinatura de manifesto no teatro Opéra-Comique, em Paris, é a popularização de alimentos bons, limpos e justos. Ou seja, a comida deve ser local e sustentável, respeitar o bem-estar animal e remunerar de forma justa trabalhadores do campo.
No final da década de 1990, essas ideias foram abraçadas por chefs, produtores de comida e ativistas nos Estados Unidos, muitos deles integrantes do movimento em favor da liberdade de expressão que explodiu na Califórnia cerca de duas décadas antes.
Um dos nomes mais importantes do grupo é a chef Alice Waters, do restaurante Chez Panisse, em Berkeley, que já recebeu nomes como Bill Clinton e Dalai Lama, Astor Piazzolla e Francis Ford Coppola.
Waters, defensora da noção de que é preciso pagar mais por uma comida justa, chegou a construir uma enorme horta ao lado do Capitólio, em Washington, capital americana, como versão da sua Edible Schoolyard —seu projeto de educação alimentar que levava hortas a escolas.
Em expansão pelos anos seguintes, o movimento do Slow Food chegou a cerca de 160 países no mundo, incluindo o Brasil, onde mantém uma lista chamada de Arca do Gosto, um catálogo que reúne informações sobre ingredientes ameaçados de extinção como araçá-mirim, uxi e maracujá-da-caatinga.
A valorização da biodiversidade e da cultura alimentar foi outro traço visto no Slow Food por meio da Universidade de Ciências Gastronômicas em Pollenzo, na Itália, e do encontro internacional Terra Madre.
No congresso, nascido em Turim, pequenos produtores de alimentos do mundo todo, incluindo de agave do México, de gergelim de Bukina Faso e de azeitonas da Palestina e Israel, se encontravam para trocar experiências sobre alimentos e modelos de produção de comida.
Ainda que reconheçam a importância da organização, críticos, porém, afirmam que o Slow Food não conseguiu obter impacto cultural e político semelhante ao do continente onde nasceu.
O movimento criado por ele se opõe à padronização dos gostos e à perda da cultura gastronômica.
“Por meio dessas iniciativas, ele deu forma a um movimento global enraizado nos valores da comida boa, limpa e justa para todos, conectando comunidades, agricultores, artesãos da gastronomia, chefs, ativistas e jovens em todo o mundo”, diz a nota sobre a morte.
Petrini, que já ocupou o cargo de embaixador especial da FAO na Europa para a estratégia Fome Zero, gostava de repetir a frase “quem semeia utopia, colhe realidade”.
Fonte.:Folha de S.Paulo


