4:16 AM
4 de agosto de 2026

O animal que desliga o próprio coração para fugir e sai ileso de uma parada cardíaca voluntária

O animal que desliga o próprio coração para fugir e sai ileso de uma parada cardíaca voluntária

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Imagine um animal que, no exato momento em que decide se mover, dois de seus três corações simplesmente param de pulsar. O sangue deixa de circular por órgãos vitais. Para qualquer outra criatura, isso seria uma sentença de morte instantânea.

Só que o polvo não apenas sobrevive a essa parada cardíaca voluntária como a repete incontáveis vezes ao longo da vida. Um paradoxo biológico que desafia tudo o que entendemos sobre circulação e fisiologia animal.

A arquitetura impossível de três corações

O sistema circulatório do polvo é uma obra-prima da cefalópode que não encontra paralelo em nenhum outro grupo animal. Um coração central, chamado sistêmico, bombeia sangue oxigenado para o corpo.

Outros dois corações branquiais, posicionados um em cada brânquia, empurram o sangue desoxigenado de volta para oxigenação. Três bombas independentes trabalhando em sincronia fina, cada uma com seu ritmo e sua função.

A arquitetura desse sistema cardiovascular já seria extraordinária por si só. Mas o que realmente intriga os cientistas é o que acontece quando o polvo decide nadar.

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O paradoxo biológico que a fisiologia não resolveu

O momento exato em que dois corações desligam

Durante a natação por propulsão a jato, o coração sistêmico e os dois corações branquiais entram em um estado que os fisiologistas chamam de parada cardíaca funcional. O órgão principal reduz drasticamente sua atividade, e os corações branquiais simplesmente param.

O sangue rico em oxigênio deixa de chegar às brânquias. O esforço muscular intenso consome oxigênio em ritmo acelerado. Em um ser humano, esse cenário provocaria desmaio em segundos e dano cerebral irreversível em minutos.

O polvo, no entanto, segue nadando como se nada estivesse acontecendo. Uma contradição que desafia o princípio mais básico da fisiologia: esforço exige irrigação, e irrigação exige coração batendo.

O sangue azul que guarda parte do segredo

Um dos fatores que tornam esse fenômeno possível está na própria composição do sangue do polvo. Em vez de hemoglobina, baseada em ferro, esses moluscos cefalópodes utilizam hemocianina, uma proteína com cobre que confere ao sangue uma coloração azulada.

A hemocianina tem uma afinidade diferente pelo oxigênio e funciona com mais eficiência em ambientes de baixa temperatura e alta pressão, como o fundo do mar. Essa química sanguínea atípica permite que os tecidos armazenem oxigênio de forma diferente dos vertebrados.

Alguns fisiologistas acreditam que essa proteína respiratória também desempenhe um papel na tolerância à parada cardíaca transitória, permitindo que o oxigênio residual nos tecidos seja utilizado com eficiência extrema.

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Como sobreviver com dois corações parados enquanto foge

O que a ciência compara e o que ainda não consegue explicar

Nenhum vertebrado conhecido consegue sobreviver com o coração parado durante esforço físico. Atletas humanos de elite conseguem reduzir a frequência cardíaca em repouso para níveis impressionantes, mas nunca a zero — e muito menos durante uma corrida.

Mesmo entre os invertebrados, o polvo é uma exceção radical. Insetos e outros artrópodes possuem sistemas circulatórios abertos que funcionam em pressões baixíssimas, mas nenhum deles desliga propositalmente bombas cardíacas enquanto se movimenta ativamente.

O que exatamente acontece nos tecidos branquiais quando o sangue para de chegar? Como as células sobrevivem a repetidos episódios de hipóxia transitória sem sofrer dano cumulativo? E qual é o gatilho molecular que faz os corações voltarem a bater assim que a natação termina? Essas perguntas ainda não têm resposta definitiva.

Os corações do polvo em números

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3 corações independentes

Um coração sistêmico central mais dois corações branquiais, cada um com ritmo próprio e função específica no bombeamento do sangue azul.

⏸️

Parada total durante a natação

Os dois corações branquiais desligam completamente durante a propulsão a jato, fenômeno documentado pela Universidade de Nápoles Federico II.

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Sangue azul com hemocianina

A proteína baseada em cobre transporta oxigênio com mais eficiência em água fria, ajudando os tecidos a tolerar a parada circulatória.

As lições que o polvo guarda para a medicina humana

Entender como as células do polvo sobrevivem sem oxigênio por períodos curtos e repetidos pode abrir caminhos inesperados para o tratamento de isquemia e infarto em humanos. Se conseguirmos decifrar os mecanismos de tolerância à hipóxia desses animais, talvez seja possível proteger tecidos humanos contra a falta temporária de irrigação.

Laboratórios de fisiologia comparada nos Estados Unidos e no Japão já investigam as proteínas envolvidas nesse processo. A molécula que permite ao polvo sobreviver com os corações parados pode, um dia, inspirar fármacos capazes de reduzir os danos de um ataque cardíaco em humanos.

A natureza levou centenas de milhões de anos para criar essa solução. Cabe à ciência, agora, desvendar seus segredos mais profundos

Comparação entre o sistema circulatório do polvo e de outros animais

CaracterísticaPolvoHumanoPeixe ósseo
Número de corações311
Tipo de sangueAzul (hemocianina)Vermelho (hemoglobina)Vermelho (hemoglobina)
Para durante esforçoSim (2 corações)NãoNão
Tolerância à hipóxiaAltaBaixaModerada
Sistema circulatórioFechadoFechadoFechado

O polvo carrega no corpo uma contradição que desafia a lógica fisiológica: para se mover rápido, ele desliga a própria circulação. Para sobreviver, ele para o que deveria mantê-lo vivo. E a cada nova descoberta, fica mais claro que ainda estamos longe de entender todos os mistérios que esses invertebrados inteligentes guardam nas profundezas do oceano.



Fonte. MG.Superesportes

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