
O ex-marido da ativista Maria da Penha, Marco Antônio Heredia Viveros, tem usado entrevistas há anos para contestar sua condenação por tentativa de homicídio. Preso neste último domingo (9) por suposto descumprimento de medidas protetivas após conceder uma entrevista, ele nega ter cometido o crime e apresenta uma versão dos fatos que foi rejeitada pela Justiça.
Ao longo dos anos, Viveros tem sustentado uma narrativa distinta daquela acolhida pela Justiça. Em entrevistas e outras manifestações públicas, ele afirma ser inocente e atribui o disparo que deixou Maria da Penha paraplégica a um grupo de assaltantes que teriam invadido a residência do casal, questiona elementos da investigação e destaca um processo para revisão do julgamento.
O processo de Maria da Penha e Marco Antônio ganhou enorme repercussão nacional e deu origem à Lei Maria da Penha, que completou 20 anos em agosto. A norma é um dos principais marcos legais de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil.
No último domingo (9), a Justiça do Ceará determinou a prisão preventiva de Viveros por suposto descumprimento de medidas protetivas. O motivo foi a participação em uma reportagem do Domingo Espetacular, da TV Record. O juiz Cesar Morel Alcantara, responsável pelo plantão judicial, também determinou a retirada imediata de conteúdos que anunciavam a entrevista e proibiu a veiculação da reportagem, sob pena de multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento da emissora.
Apesar da nova prisão e da censura ao conteúdo, não é difícil encontrar entrevistas de Marco Antônio na internet. Em 2023, por exemplo, ele participou de uma conversa com mais de três horas de duração no canal Não Minta Pra Mim, do psicanalista e influenciador Ricardo Ventura, no YouTube. Na ocasião, o ex-marido de Maria da Penha se definiu como um “sobrevivente da injustiça” e afirmou estar “lutando para levar a verdade dessa história que acabou com a minha vida”.
Na mesma entrevista, Viveros revelou que já havia sido procurado pelo jornalista Roberto Cabrini para falar sobre o caso, mas disse ter recusado o convite por acreditar que experiências anteriores com a imprensa teriam distorcido suas declarações. Anos depois, porém, ele aceitou conceder uma entrevista ao repórter. O material seria exibido pelo Domingo Espetacular em 2026, mas acabou barrado por decisão judicial.
Marco Antônio rebate acusações feitas por Maria da Penha
Durante a conversa com Ricardo Ventura, Marco Antônio afirma que a perícia nunca teria comprovado uma suposta encenação do assalto relatado por ele. No episódio, também participou o advogado criminalista Otacílio Guimarães, que sustentou que perícias teriam identificado vestígios compatíveis com uma possível escalada do muro e sinais de arrombamento em veículos estacionados e em acessos à residência.
Outra acusação contestada por Viveros envolve o episódio em que Maria da Penha afirmou ter sofrido uma tentativa de eletrocussão durante o banho. Segundo sua versão, ela teria levado um choque ao tocar no registro do chuveiro e acreditava que o então marido havia alterado o sistema elétrico com o objetivo de matá-la. Viveros, por sua vez, afirma que parte das acusações associadas ao episódio teria sido divulgada à imprensa, mas não constaria da forma como foi apresentada publicamente nos autos do processo.
“Ela precisava colocar alguma safadeza que eu fiz. Ela disse: ‘Marco me disse para fechar a torneira para que parasse de cair água, mas como eu fiquei com medo, ele ficou bravo e deu um chute na cadeira de rodas’”, relatou.
Em seguida, questionou a lógica do relato. “A história não bate, pois para ela abrir a torneira ela teria que encostar na torneira, pressionar com a mão e girá-la para sair água. Ela só fez a primeira [encostou, tomou o choque e retirou a mão]. Então para quê diabos eu pediria para ela fechar a torneira?”, disse.
Viveros também contestou as alegações de que teria tido motivação financeira para matar a ex-esposa. Uma das versões difundidas ao longo dos anos sustenta que ele teria pedido que Maria da Penha contratasse um seguro de vida em seu favor, de modo que recebesse o valor em caso de morte.
“Eu nunca vi esse seguro. O que eu vi foi um seguro que tinha no meu nome, cuja beneficiária era ela. Inclusive, isso está no processo. Meses depois dos fatos, eu fiz um outro seguro em outro banco beneficiando ela e as crianças. Isso também deve estar no processo”, declarou.
Versão se repete em outras entrevistas
A entrevista a Ricardo Ventura seguiu uma linha que se repete em praticamente todas as manifestações públicas de Viveros sobre o caso. Ao comentar sua condenação, ele costuma negar as agressões e afirmar que foi vítima de um erro judicial.
Em entrevista à jornalista Leda Nagle, Viveros adotou postura semelhante. “Nunca bati em Maria da Penha. Nunca bateria em uma mulher e nunca bati nas minhas filhas. Eu estou sendo bem claro: fui condenado injustamente, sem uma prova sequer”, afirmou.
As alegações apresentadas por Viveros ao longo dos anos não alteraram o entendimento da Justiça sobre o caso. Após uma longa disputa judicial marcada por recursos e novos julgamentos, ele foi condenado em 1996 a 10 anos e 6 meses de prisão por tentativa de homicídio contra Maria da Penha. O processo se arrastou por cerca de 17 anos entre o crime, ocorrido em 1983, e o início do cumprimento da pena, em 2000.
Fonte. Gazeta do Povo


