
Casos recentes registrados por autoridades mostram que cartões e recursos do Bolsa Família aparecem com frequência em ocorrências ligadas à compra de drogas e ao tráfico. O tema voltou ao debate público depois de uma audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, realizada em 9 de junho, que tratou de denúncias de retenção de cartões do programa por traficantes em troca da entrega de entorpecentes a moradores de rua beneficiários do Bolsa Família.
O tema foi levado à comissão pelo deputado Kim Kataguiri (Missão-SP). Na audiência, o vereador de Joinville Mateus Batista (União-SC) afirmou ter ouvido relatos de agentes públicos sobre moradores de rua do município catarinense e de outras cidades que deixariam o cartão do Bolsa Família com traficantes para receberem drogas.
“A gente ouviu esses relatos em vários lugares: em Chapecó [SC], em Joinville, em Florianópolis, em São Paulo, em todas as cidades que eu visitei para entender melhor como alguns modelos funcionavam de maneira mais eficiente em relação aos moradores de rua. O problema era o fácil acesso, aliás, o quase livre acesso do morador de rua ao Bolsa Família. E o que a gente vê a partir de 2023 é justamente uma série dessas portarias facilitando o acesso”, afirmou Batista na audiência.
A discussão ganhou força desde que o governo federal incluiu, em 2025, famílias com pessoas em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no Bolsa Família. A medida entrou em vigor por uma portaria de julho de 2025 do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
A quantidade de moradores de rua cresce com rapidez nos últimos anos. Segundo dados mensais do CadÚnico, o número de pessoas em situação de rua inscritas no cadastro passou de 198,7 mil em dezembro de 2022 para 392,4 mil em junho de 2026, uma alta de 97,4% no período.
Não há dado nacional recente que informe quantas pessoas em situação de rua são dependentes químicos. Levantamentos oficiais e municipais, porém, indicam que o uso de álcool e outras drogas é recorrente nesse público. Um diagnóstico do governo federal publicado em agosto de 2023, por exemplo, apontou que 29% das pessoas em situação de rua declaravam o alcoolismo ou o uso de drogas como um dos motivos para estarem nessa condição.
Em junho, o Bolsa Família chegou a 19,3 milhões de famílias, cerca de 50,1 milhões de pessoas, com investimento mensal de R$ 13 bilhões, segundo o MDS.
Diversos episódios recentes mostram cartão usado como moeda ou retido por criminosos
A multiplicidade de casos recentes confirmados oficialmente mostra que o uso do Bolsa Família para compra de drogas é frequente.
Em Caçador (SC), em junho de 2026, uma publicação oficial do 15º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina registrou a apreensão de um cigarro artesanal de maconha junto a um cartão do Bolsa Família.
Em Birigui (SP), em 2025, a Polícia Militar informou que um casal foi preso por tráfico de drogas depois que policiais encontraram cocaína dentro de sua residência, além de materiais usados no preparo de drogas e diversos cartões do Bolsa Família em nome de terceiros.
Em São José do Rio Preto (SP), em 2024, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo fez a Operação Bolsa Crack, mirando uma associação criminosa que explorava moradores em situação de rua usuários de crack. Segundo o MPSP, investigados retinham cartões do Bolsa Família de alguns usuários como forma de garantir o pagamento da droga consumida.
Em Remígio (PB), em setembro de 2024, uma idosa de 63 anos e seu neto de 16 foram assassinados, de acordo com o site Metrópoles, por causa de um conflito envolvendo o cartão do Bolsa Família da filha da idosa. Segundo a reportagem do Metrópoles, uma facção usava o cartão para realizar saques e, em troca, a mulher recebia drogas. O assassinato teria sido uma retaliação porque ela exigiu a devolução do cartão.
À Gazeta do Povo, o deputado Kim Kataguiri afirma que vê uma solução simples para evitar casos como esses: “exigir comparecimento periódico em centros de assistência social para que, caso o sujeito seja usuário de drogas, tenha o benefício negado e seja encaminhado para tratamento psiquiátrico e psicológico”.
Governo trata associação entre Bolsa Família e compra de drogas como desinformação
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome rejeita a tese de que o Bolsa Família favoreça o tráfico. Em página de combate à desinformação, o governo afirma que é falsa a alegação de que o programa facilite esse tipo de desvio e cita estudo da Fiocruz, em parceria com Harvard, segundo o qual beneficiários do Bolsa Família tiveram risco 17% menor de internação por transtornos relacionados ao uso de substâncias.
O estudo, publicado na revista científica The Lancet Global Health, analisou dados de 35 milhões de pessoas entre 2008 e 2015. Segundo o MDS, houve redução de 26% no risco de internações por uso de álcool e de 11% no risco de internação por outras substâncias entre beneficiários do programa.
Na audiência da Câmara, Edson Moreira Lima, representante do MDS, ressaltou que o objetivo do Bolsa Família é o alívio imediato da pobreza e da fome. Ele disse que a dependência química deve ser enfrentada por outras políticas públicas, inclusive de estados e municípios, com acolhimento e tratamento, e não pela retirada automática do benefício.
Não há um levantamento nacional que dimensione quanto dinheiro do Bolsa Família acaba usado na compra de drogas ou capturado por traficantes, ainda que registros policiais mostrem que esse tipo de desvio de finalidade é frequente. Por se tratar de comércio ilegal e pouco rastreável, o valor total não é tão mensurável como no caso, por exemplo, das apostas online, em que o volume transferido por beneficiários do Bolsa Família para as bets já foi medido.
Além dos casos policiais em que recursos do Bolsa Família aparecem diretamente ligados à compra de drogas, há uma frente correlata de investigação sobre o uso de contas de beneficiários em esquemas de lavagem de dinheiro do crime organizado, como revelou reportagem da Gazeta do Povo em 2025.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhados à Polícia Federal e ao Ministério Público apontaram movimentações financeiras suspeitas de beneficiários de programas sociais em apurações sobre fintechs usadas pelo PCC. Em um dos casos citados, uma mulher de 32 anos, beneficiária de programas como Auxílio Brasil e Bolsa Família, teria sido usada como “laranja” pelo crime organizado para movimentar R$ 3,3 milhões em três contas bancárias entre outubro de 2022 e março de 2023.
Fonte. Gazeta do Povo


