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28 de maio de 2026

Os vinhos que são feitos por um casal no sul do mundo – 27/05/2026 – Isabelle Moreira Lima

Os vinhos que são feitos por um casal no sul do mundo – 27/05/2026 – Isabelle Moreira Lima

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Muitas coisas encantam sobre os vinhos feitos pela Casa Yague, na indicação geográfica de Trevelin, província no sul da Patagônia argentina. Localizada no estado de Chubut, a propriedade do casal Patricia Ferrari e Marcelo Yagüe foi fundada há pouco mais de uma década, inaugurando, junto a outros poucos pioneiros, uma nova fronteira vitivinícola no continente.

“Estamos na latitude 43°10′ sul, tão ao sul quanto a África do Sul, os vinhedos do Chile, a Nova Zelândia; é como se estivéssemos na fronteira sul do mundo”, diz o produtor.

Trevelin, que significa povoado do moinho em galês, parece um cartão-postal. Tem montanhas cobertas de gelo (a cordilheira dos Andes), campos com flores coloridas, um ar meio de filme dos anos 1970 quando as imagens da TV tinham cores bem saturadas. Fundado no século 19, é um vale fértil cheio de rios que fica a pouco mais de 300 m de altitude e a 90 km do pacífico. Essas características geográficas interferem decisivamente no perfil de seus vinhos.

Os feitos pela Casa Yague são muito elegantes e equilibrados. Na verdade, mais que isso: dá vontade de bebê-los até o fim dos tempos. Têm ótima acidez, corpo leve a médio, são fáceis de beber, mas não menos complexos por isso. Revelam novos aromas e sabores à medida que repousam na taça.

No Brasil, três são importados pela Flaks Wines. Há o sauvignon blanc, que é perfeito pra quem está cansado do perfil tropical chegado a maracujá mais comum nos vinhos da América do Sul. Este é mais herbáceo, mas sem traço de pirazina —aquele aroma de pimentão que uma vez que você nota não consegue esquecer—, com acidez bem redonda e pouco agressiva, mas marcada. Há também o chardonnay, que traz notas cítricas, além de frutas e flores brancas, e uma salinidade excelente na boca. Tem corpo médio e pede comida.

O tinto que chega por aqui se chama Río Frío e é um inusitado corte de pinot noir com cabernet franc. Provei varietais das duas castas, que não chegam por aqui, e entendi tudo: um dá mais complexidade ao outro, num casamento ideal. É que o cabernet franc patagônico é meio um milagre (e oremos que chegue por aqui logo), considerando que é uma casta que se dá bem com calor, e que por ali é leve e macia como seda.

Já a pinot noir da região ficou célebre por seu equilíbrio, pela preservação da acidez e pela forte presença de fruta vermelha fresca, mas com eventuais aparições de notas terrosas ou mesmo sanguíneas.

Esses vinhos são feitos num lugar onde faz até menos 12 graus abaixo de zero, com alta umidade. É tão frio que as videiras estão plantadas em pé franco, direto no solo, sem enxertos de outros plantas, e não há necessidade de uso de agrotóxicos, tornando o cultivo orgânico óbvio. O grande drama aqui seriam as geadas, mas a família tem um sistema que asperge água para que esta congele ao redor dos brotos e assim os protejam quando a previsão acusa risco. A imagem que se forma é quase daqueles globos de neve tão comuns no Natal.

Este frio é o que dá elegância e frescor aos vinhos e é também uma promessa de que, se o mundo aquecer, a fronteira da produção dos vinhos há de se expandir ainda mais ao sul. Marcelo Yagüe, originalmente corretor imobiliário, já tem os olhos em terras em que prevê um grand cru patagônico.

Vai uma taça?

Também da Patagônia, prove os vinhos de Marcelo Miras, que faz um Chardonnay que lembra Champagne, o Miras Jovem Chardonnay 2025 (R$ 110 na Volo Vinum). Adoro a Família Schroeder Saurus Pinot Noir 2024 (R$ 115 na Divinho), uma compra certa que traz fruta bem fresca e bom corpo para não pesar no seu churrasco. Se há mais recursos, Chacra e Otronia são ótimos produtores patagônicos.


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Fonte.:Folha de São Paulo

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