
Crédito, Divulgação
- Author, Valmar Hupsel Filho
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
Tempo de leitura: 9 min
É possível que você nunca tenha ouvido falar em Paulinho da Costa, e isso não é de todo incompreensível. Afinal, trata-se de um instrumentista de perfil discreto, que nunca buscou a fama e dedicou grande parte de sua carreira a ser um músico de estúdio.
Porém, se algum dia você já arriscou alguns passos numa pista de dança, em qualquer lugar do mundo, é muito provável que tenha sido ao som de alguma música gravada por ele.
A despeito de ser um ilustre desconhecido do grande público, Paulinho é dono de um currículo que o coloca num panteão entre os principais personagens da música de todos os tempos.
Não é exagero dizer que ele é o músico brasileiro mais influente no cenário mundial, responsável por incutir a brasilidade nas canções mais definitivas de nosso tempo.
Sua percussão está presente em mais de 180 álbuns e singles de ouro e platina de artistas do mundo todo, entre eles Michael Jackson, que fez questão de ter a participação de Paulinho em todos os seus discos solo, porque o considerava “o maior percussionista do mundo”.
Seu gigantismo será reconhecido no próximo dia 13 de maio, quando receberá uma homenagem digna de seu tamanho: Paulinho será o primeiro músico nascido no Brasil a ser imortalizado com uma estrela na icônica Calçada da Fama, em Los Angeles (EUA) — Cármen Miranda, homenageada na década de 1960, nasceu em Portugal.
A honraria se soma a uma outra iniciativa que tem o mérito de apresentar este personagem ao grande público e contar um pouco de sua história: o documentário The Groove Under The Groove – Os Sons de Paulinho da Costa, dirigido por Oscar Rodrigues Alves, que estreou em março na Netflix.

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Carioca nascido há 77 anos no bairro do Irajá, Rio de Janeiro, mas radicado nos Estados Unidos há mais de cinco décadas, Paulinho da Costa tem uma das mais longevas e profícuas carreiras da história da gravação musical.
Seu nome aparece na ficha técnica de quase sete mil canções. Centenas delas chegaram ao primeiro lugar na lista das mais tocadas no mundo. Ao menos 161 foram indicadas ao Grammy e 59 venceram o prêmio.
A lista dos artistas com quem o músico brasileiro já gravou é extensa. Estima-se que o número passe de mil. Porém, bastam alguns nomes para dar uma noção de seu peso: Quincy Jones, Michael Jackson, Madonna, Prince, Stevie Wonder, Earth, Wind & Fire; Ray Charles, Lionel Richie, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Aretha Franklin, Ella Fitzgerald, Elton John, Eric Clapton e Bob Dylan, entre tantos outros.
Entre os brasileiros estão João Gilberto, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Jorge Ben Jor, Alcione, Djavan, Rita Lee, Ney Matogrosso, Ivan Lins e João Bosco, só para citar alguns.
Paulinho é presença marcante em clássicos como Thriller, faixa-título do disco mais tocado de todos os tempos, de Michael Jackson; We Are The World, produzida por Quincy Jones para reunir fundos para o combate à fome na África; September, do Earth, Wind & Fire, All Night Long (All Night), do Lionel Richie, Hotel California, do Eagles, I Will Survive, da Gloria Gaynor, La Isla Bonita, da Madonna, numa lista interminável.
A estimativa de músicas gravadas, no entanto, é subestimada porque Arice da Costa, esposa de Paulinho, encontrou recentemente cerca de 300 álbuns em que ele tocou mas que, por algum motivo, não consta nos créditos.
O que é certo, no entanto, é que Paulinho é o responsável por incluir a musicalidade brasileira nas canções mais tocadas e lembradas do nosso tempo. É dele, por exemplo, a surpreendente cuíca que quebra a base funk de Wanna Be Startin’ Somethin, de Michael Jackson.
Além disso, Paulinho também tem relevante participação no cinema. Contribuiu para mais de 350 filmes, alguns deles clássicos como A Cor Púrpura, The Wiz (O Mágico Inesquecível), Os Embalos de Sábado à Noite, Dirty Dancing, Purple Rain, Jurassic Park, e Indiana Jones. Ao menos 12 das trilhas sonoras em que Paulinho participou ganharam Oscars.

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Se ao grande público Paulinho é um ilustre desconhecido, no meio musical ele é respeitado e cortejado por onde anda.
Era tratado por Quincy Jones como membro da família, que o considerava “a essência do Brasil”. Whitney Houston achava que ele havia sido “tocado por Deus” e bandas como Earth, Wind & Fire adiavam datas de gravações para garantir a presença de Paulinho no estúdio.
A fama é de uma espécie de Midas — personagem da mitologia grega conhecido por transformar em ouro tudo o que tocava. Ou seja, tudo em que Paulinho da Costa coloca seu groove, vira sucesso.
A despeito de sua relevância para a música, Paulinho nunca deu muita importância à fama. Pelo contrário, até curtia o anonimato.
“Até hoje não me considero famoso. Na verdade, nunca quis ser famoso. Posso passar os dias levando minha vida normal e não ser reconhecido. Isso é muito confortável”, disse à BBC Brasil.
“Claro que gosto de retribuir o carinho dos fãs quando sou reconhecido. Mas a fama não é importante para mim. Ela é resultado de anos de muito trabalho, talento e profissionalismo.”
Aos poucos, porém, Paulinho vem se tornando mais conhecido do grande público brasileiro. Isso se deve, principalmente, ao lançamento do seu documentário.
A obra levou Paulinho de volta ao Brasil, depois de décadas sem retornar ao seu país natal. No último mês, Paulinho visitou o Brasil e deu uma série de entrevistas para divulgar a obra.
“O sentimento com a repercussão do filme é de muita alegria. Saber que tanta gente admira e quer conhecer mais da minha história me deixa muito emocionado. Numa época em que o mundo precisa de boas vibrações, acho que nosso documentário veio na hora certa!”.
Carreira
Paulinho começou tocando pandeiro ainda criança e logo se destacou. Aos 15 anos já fez sua primeira viagem internacional como músico, tocando e dançando inspirado nos movimentos de corpo de Jair Rodrigues.
Ele já fazia algum sucesso nas boates cariocas em 1972, quando recebeu o convite de Sérgio Mendes para se mudar para Los Angeles. Aceitou e, aos 24 anos, com mulher e filho recém-nascido, mudou-se para os EUA, onde vive até hoje.
Nos três anos tocando na banda de Sérgio Mendes, suas performances no palco chamavam a atenção e logo Paulinho passou a receber convites de músicos para participar de gravações.
Um deles foi o trompetista de jazz Dizzy Gillespie. Os dois ficaram amigos. Foi Gillespie quem apresentou Paulinho a Norman Granz, dono da Pablo Records.
Por meio de Norman, Paulinho lançou dois dos seus primeiros discos solo. Ao todo são cinco: Agora (1977), Happy People (1979), Tudo Bem! (1982), Sunrise (1984) e Breakdown (1987). Algumas de suas músicas foram sampleadas por outros artistas, como Love Till The End Of Time, pelo Black Eyed Peas.
Outro músico que se impressionou com as apresentações de Paulinho na banda de Sérgio Mendes foi o arranjador John Barnes, reconhecido por ter criado o riff de piano de I Will Survive. Ele então chamou o brasileiro para participar da gravação do primeiro disco da banda The Miracles, que estava em crise, com risco de acabar, após a saída de seu principal integrante, Smokey Robinson.
A primeira música gravada com a participação do percussionista brasileiro, Love Machine, rapidamente alcançou a primeira colocação entre as mais tocadas do mundo, e salvou a banda.
Participar da gravação de uma música que chegou a ser a número 1 abriu portas. E Paulinho passou a receber convites de muitos músicos. Era a hora de deixar a banda de Sérgio Mendes. Paulinho passou a emprestar seu groove a uma série de trabalhos de bandas e artistas dos mais variados estilos.
Em outubro de 1976, a banda Earth, Wind & Fire convidou Paulinho para participar de um disco que estava gravando. Sem qualquer briefing, os músicos apresentaram o esboço de uma canção que estava no forno.
O brasileiro escutou a primeira vez e, na segunda, já sabia o que fazer. Pegou um cowbell (instrumento de percussão também conhecido como cincerro) e criou uma linha melódica definitiva. Depois de ouvir a contribuição de Paulinho, Maurice White, compositor e arranjador da banda, afirmou que ele “salvou” a música. Era Serpentine Fire.
Em 1978, Paulinho estava no avião quando foi abordado por um jovem de voz suave. Era Michael Jackson, que o convidou para participar do disco dos Jacksons 5. Foi o início de uma parceria que durou até a morte do cantor. Paulinho participou ainda de todos os discos solo de Michael Jackson a partir de Off The Wall.
Logo em seguida, Paulinho conheceu o produtor Quincy Jones, responsável por revolucionar a música americana e mundial. Gravou diversas músicas com ele. Em The Dude, um dos mais aclamados discos de Quincy, Paulinho faz uma “mouth percussion” (percussão com a boca) que influenciou toda uma geração de percussionistas que surgiram depois.
Um músico com essa trajetória é, claro, dono de histórias incríveis.
Em uma delas, Paulinho conta que ele e a esposa, Arice, têm participação direta na existência da canção Give Me the Night, estrondoso sucesso na voz de George Benson. Foi o casal brasileiro que levou a canção ao conhecimento do músico americano. Nem é preciso dizer que ele também está tocando nesta gravação.
Documentário

Crédito, Arquivo Pessoal
O documentário conta a trajetória de Paulinho desde os primeiros batuques com as costas da mão na mesa da sala de jantar de sua casa, no Irajá, enquanto sua mãe cantava o hino da Portela.
A escola do coração, onde chegou a integrar a ala jovem, é o chão que sustenta toda a sua musicalidade, mesmo após tantos anos morando no exterior.
No documentário, Paulinho retorna à Portela, desfila com a escola, e visita terreiros de Candomblé em Cachoeira, na Bahia, para voltar a beber da fonte da percussão ancestral.
A obra exibe momentos de especial emoção para amantes da música, como aquele em que Paulinho retorna ao estúdio ao lado de integrantes do Earth, Wind & Fire e, juntos, eles voltam a escutar, efusivos, In The Stone.
Um dos integrantes da banda resume: “Neste dia, Paulinho, você tocou tudo!”.
Um dos momentos mais marcantes é protagonizado pelo cantor e compositor Bill Withers. Há décadas, Withers estava recolhido. Não era visto tocando nem cantando. No documentário, ele revela o motivo de seu recolhimento: desde a década de 1950 sente fortes dores.
Mas, acompanhado de Paulinho na percussão, ele canta Use Me, um de seus sucessos. E arremata dizendo: “Desde que me sentei aqui eu não tinha percebido, não sinto dor.”
O diretor do filme, Oscar Rodrigues Alves, disse que conheceu Paulinho durante a gravação de um comercial com a participação de percussionistas em diversas partes do mundo, mas que acabou não sendo veiculado. Mas ficou a amizade com Paulinho e a noção do quão importante é contar sua história.
Para ele, o mérito do filme é apresentar a grandeza da obra do Paulinho ao grande público que não o conhecia e aprofundar as informações de quem já havia ouvido falar nele, mas não tinha noção da dimensão de seu trabalho.
“Minha maior alegria é ouvir das pessoas que, depois de conhecer a história de Paulinho, elas nunca mais vão escutar aquelas músicas do mesmo jeito”, disse.
Já Paulinho, embora não esconda a emoção de receber essas homenagens em vida, mantém a discrição que sempre marcou sua trajetória.
“Saber que tanta gente admira e quer conhecer mais da minha história me deixa muito emocionado”, disse.
“Espero que minha história abra portas para novos músicos que vêm por aí”.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


