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- e
- Author, Jakub Pohle
- Role, BBC News
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Durante a primeira passagem de Jeffrey Epstein pela prisão, uma pena de 13 meses por aliciamento sexual de uma menor de idade, registros penitenciários mostram que uma mulher o visitou pelo menos 67 vezes.
Essa mulher era Nadia Marcinko. Marcinko foi a principal namorada de Epstein por sete anos — sua parceira mais importante depois de Ghislaine Maxwell — e, anos depois, piloto assistente de seu avião particular.
Ela é relativamente desconhecida do grande público, mas em breve poderá estar no centro das atenções.
Uma congressista quer que as quatro, incluindo Adriana Ross, outra assistente de Epstein, e Marcinko, sejam investigadas, apesar do acordo judicial.
Marcinko nunca foi acusada nem denunciada por qualquer crime. Seus advogados dizem que ela é uma das vítimas de Epstein. Mas jovens em Palm Beach, na Flórida, cujos depoimentos sobre abusos quando eram menores de idade levaram à condenação de Epstein em 2008, disseram à polícia que Marcinko participou desses abusos.
A reportagem da BBC passou meses entrevistando pessoas que conheceram Marcinko e examinando todos os e-mails que conseguiu encontrar entre ela e Epstein nos arquivos divulgados pelo governo americano, em uma tentativa de construir um retrato detalhado de seu papel na vida do financista criminoso.
Os e-mails revelam que Epstein e Marcinko queriam começar uma família juntos. A BBC também encontrou evidências que sugerem que, ao longo de muitos anos, ele pediu que ela recrutasse outras mulheres para ajudar a satisfazer seus desejos sexuais — e que ela concordou.
Mas os e-mails também expõem tendências profundamente coercitivas por parte de Epstein.
Marcinko disse a investigadores que Epstein era fisicamente violento, e chegou a sufocá-la e jogá-la escada abaixo. Tivemos acesso ao relato que ela deu aos investigadores por meio de um documento que foi divulgado — com muitos trechos censurados — pelo Departamento de Justiça dos EUA em janeiro. O nome de Marcinko não está visível, mas as cinco páginas de depoimento coincidem em todos os detalhes com o que sabemos sobre ela de outras fontes.
A BBC entrou em contato com Marcinko para obter sua versão dos fatos, mas ela não respondeu. Desde a morte de Epstein na prisão em 2019, enquanto aguardava novas acusações relacionadas a crimes sexuais, ela desapareceu da vida pública.
Os pedidos de investigação sobre Marcinko levantam questões importantes sobre se uma vítima de coerção sexual também pode ser considerada cúmplice.

Marcinko nasceu Nadia Marcinkova em uma família respeitada e de situação financeira confortável na Eslováquia. Ela disse aos investigadores federais que a entrevistaram após a morte de Epstein que conheceu o financista pela primeira vez em Nova York em 2003, quando tinha 18 anos, em uma festa de aniversário de Jean-Luc Brunel.
Amigo próximo de Epstein, Brunel dirigia a filial de Nova York da agência de modelos Karin Models. Marcinko disse que estava trabalhando para a agência em Paris, e Brunel a trouxe para os EUA algumas semanas antes de sua festa, com um visto que ele havia providenciado.
Isso parece ser confirmado em uma série de e-mails que a BBC rastreou nos arquivos de Epstein, que revelam que, por muitos anos depois, Marcinko e Epstein comemoraram a mesma data — 17 de setembro — como seu “aniversário”.
Marcinko era uma modelo internacional improvável, diz um colega de escola primária que chamamos de “Jozef”. Embora fosse linda, ela era muito tímida — “o que chamamos de šedá myška, um ratinho cinza”.
Ela começou a trabalhar como modelo ainda adolescente, com projetos que logo a levariam para o Japão e Taiwan, segundo uma notícia antiga de um jornal eslovaco.
Alguns dias depois de conhecer Epstein na festa de Brunel, Epstein a convidou para sua mansão em Palm Beach, disse Marcinko aos investigadores. E, de lá, confirmam os registros de voo, ela foi para sua ilha particular no Caribe, a Little St James.
Ela era legalmente adulta, mas o desequilíbrio entre eles em relação a poder, riqueza e idade era enorme. Epstein já tinha 50 anos — 32 anos mais velho que ela.
Como Brunel patrocinou seu visto e porque Epstein financiava a agência de Brunel — na ordem de milhões de dólares — ela sentia, segundo relatos posteriores aos investigadores, que “Epstein poderia deportá-la com um único telefonema para Brunel”.

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Ela viajava com ele constantemente, segundo contou aos investigadores. E os e-mails, tanto no tom quanto no conteúdo, sugerem que eles rapidamente se tornaram um casal.
Ghislaine Maxwell ainda era amiga íntima de Epstein e estava procurando outras mulheres para ele, mas sua relação sexual estava chegando ao fim, aponta nossa pesquisa. Marcinko agora era sua principal namorada, mostram os e-mails.
Mas embora haja muito sentimento nos e-mails — e que Epstein tenha escrito para outra pessoa em 2009 dizendo “Estou apaixonado por Nadia” — as trocas também revelam o quão dominador ele era.
Um e-mail daquele ano dá uma ideia do que ele parecia esperar dela.
“Eu quero que você aprenda a cozinhar ovos. Mexidos, pochê com a gema mole… Eu quero que você aprenda a administrar uma casa. Não quero discussões durante a semana de segunda a sexta-feira… quero que você leia um dos cem grandes livros todos os meses… quero coisas bonitas apenas em casa. você não pode colocar nada sem me deixar ver primeiro. J”
Após a morte de Epstein, Marcinko disse aos investigadores que ele controlava todos os aspectos de sua vida, incluindo seu peso e roupas. Ela disse que ele a obrigou a fazer várias cirurgias plásticas e abusou dela fisicamente.
Não encontramos nenhuma menção direta a esses incidentes em suas trocas de e-mail, mas isso não significa que eles não existam em algum lugar nos arquivos. Em um e-mail que encontramos, ela o acusa de “comportamento abusivo de parceiro”.
E há referências repetidas à expectativa de Epstein de que Marcinko encontre outras mulheres ou meninas com as quais ele pudesse se relacionar.
Em 2006, ela escreveu: “O que você acha que é uma coisa divertida de sexo? Eu farei o que puder, mesmo que seja simplesmente você fazer sexo com outra pessoa, eu não sei como isso melhora nosso relacionamento. Vou tentar encontrar garotas sempre que estivermos em Nova York.”
Algumas mensagens sugerem que Nadia sabia que Epstein preferia mulheres jovens. Mas não encontramos nenhuma evidência nos arquivos de que ela o tenha apresentado a menores de idade. Ainda assim, mesmo o recrutamento de adultos por meio de fraude e para fins de exploração sexual pode ser configurado como tráfico.
No mesmo ano de 2006, Epstein enviou por e-mail um pedido a Brunel para colocar Marcinko na folha de pagamento da nova agência de modelos de Brunel, MC2, com pagamento de US$ 50 mil (R$ 250 mil) por ano. Não está claro para que servia o salário, pois Marcinko não trabalhava mais como modelo. Mas seja o que for que ela fazia, ela parecia nitidamente desconfortável com sua dependência de Epstein.
Em um e-mail para ele naquele ano, ela escreveu: “Desde que te conheci, minha vida gira em torno de você, não há mais nada que eu tenha e isso me deixa muito desconfortável”.
Mas em 2009, ao mesmo tempo em que visitava Epstein na prisão, ela parece ter começado a diminuir sua dependência financeira ao trabalhar como piloto. Epstein pagou dezenas de milhares de dólares para que ela treinasse como piloto, mostram e-mails entre ambos, o que ela aparentemente fez com grande entusiasmo, promovendo-se nas redes sociais com o nome “Global Girl”.
“Isso foi lucrativo para ela, porque ela foi convidada para pilotar muitos aviões e fazer muitos vídeos”, diz a jornalista de aviação Christine Negroni, que diz ter conhecido Marcinko em 2013.
“Nadia era ótima. Ela era uma companhia encantadora… E trabalhou muito duro frequentando escolas de aviação para obter seus certificados, um após o outro… Essas não são conquistas fáceis.”

Apesar de sua nova independência, o relacionamento de Marcinko com Epstein continuou após sua libertação da prisão em julho de 2009, mostram e-mails. Parece até ter se intensificado.
Em outubro daquele ano, eles estavam tentando ter um filho juntos, os e-mails sugerem.
E ela manteve seu papel de recrutadora, revelam os arquivos. Em um e-mail daquele ano, ela pergunta a opinião dele sobre uma mulher específica que, segundo ela, se ofereceu para vir da Europa Oriental.
Mas em 2010, eles finalmente se separaram depois que ele foi particularmente violento com ela, disse aos investigadores.
No ano seguinte, de acordo com o relato que ela lhes deu, ela conseguiu um novo visto de trabalho com base em seu próprio emprego na aviação.
No entanto, ela e Epstein claramente permaneceram amigos. Ela foi copiloto de seu jato particular em alguns voos para sua ilha a partir de 2012. Em 2013, ele arranjou para que ela conseguisse um emprego como instrutora de voo na empresa do empresário Dean Kamen, inventor do Segway. Mensagens entre Marcinko e Epstein em 2015 confirmam o que ela disse aos investigadores: que ele concordou naquele ano oferecer em dobro qualquer renda que ela ganhasse de outras fontes.
Pedimos à empresa de Kamen, a DEKA, um comentário sobre sua associação com Nadia Marcinko, mas não recebemos resposta. Um porta-voz de Kamen já havia declarado em outra ocasião que o inventor lamenta profundamente ter tido qualquer interação com Epstein e que não teve nenhum envolvimento ou conhecimento de seus crimes.
Mas, embora Marcinko pareça ter sido leal a Epstein por anos, em 2018 ela finalmente mudou de lado. Um documento nos arquivos descreve como ela começou a cooperar com o FBI naquele ano em uma investigação.
No ano seguinte, Epstein foi preso novamente enquanto aguardava acusações de tráfico sexual. Em troca, quatro anos depois, o FBI apoiou o pedido de permanência de Marcinko nos EUA após o término do visto em 2022. A agência disse que ela foi “recrutada, abrigada e obtida por Jeffrey Epstein e outros para fins de uma relação sexual coercitiva”.
Desde então, Marcinko desapareceu da vida pública. Postagens nas redes sociais sugerem que ela foi, pelo menos até o ano passado, membro ativo de um centro zen-budista em Nova York. Anteriormente, seu advogado disse que ela quer eventualmente falar sobre sua condição de vítima e ajudar outros sobreviventes, mas que atualmente está “trabalhando em sua cura”.
Entretanto, a imunidade dada a Marcinko e às outras três mulheres no acordo judicial de 2008 agora está sendo questionada. A congressista republicana Anna Paulina Luna, do Comitê de Supervisão da Câmara, disse em fevereiro, aparentemente depois de ver documentos não censurados de Epstein: “Todas essas mulheres se envolveram no tráfico de menores quando adultas. Eles estavam trabalhando e eram cúmplices da operação de Jeffrey Epstein.”

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Embora Kellen e Groff estejam prestes a prestar depoimento, o comitê ainda não parece ter decidido se convocará Ross ou Marcinko.
O julgamento sobre até que ponto uma vítima também pode ser chamada de cúmplice tem nuances, diz Bridgette Carr, professora de direito da Universidade de Michigan, que trabalhou extensivamente com vítimas de tráfico humano.
Ela procura determinar se a vítima continuou cometendo crimes depois de escapar do controle de um agressor, tendo em mente que o controle pode continuar mesmo que o agressor não esteja fisicamente presente na vida da vítima.
“A linha que eu traço é se a vítima já estava longe do poder e do controle do agressor.”
A questão é “se é razoável que [a vítima] acredite que o agressor [ainda] tem poder sobre ela”.
Que escolhas Nadia Marcinko teve, se é que teve alguma, ao longo de sua longa associação com Jeffrey Epstein, é impossível para um observador externo saber. Documentos nos arquivos dão apenas pistas de sua vida. Mas um e-mail de 2012 é talvez mais revelador do que a maioria.
“Eu não quero ficar com você, mas me chateia ver você usar exatamente os mesmos padrões para seduzir, manipular e, finalmente, controlar e ferir outras garotas. Eu nem gosto delas e, na verdade, me sinto culpada por saber como elas vão acabar”, escreveu ela.
“Eu sei do que você é capaz e sempre serei protetora em relação a você por pura lealdade e teimosia, mas minha consciência está longe de estar limpa.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


