
Crédito, Coleção Hulton-Deutsch/CORBIS/Corbis via Getty Images
- Author, Paula Rosas
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 11 min
Existem biografias que parecem não caber em uma vida só.
A vida do explorador, espião, diplomata, militar, tradutor e pesquisador antropológico britânico Richard Francis Burton (1821-1890) dá a impressão de se estender para além do espaço e do tempo, para tentar englobar todas as façanhas e controvérsias dos seus 79 anos de existência.
O aventureiro mais extravagante da era de ouro da exploração vitoriana falava 26 idiomas. Mas, se contarmos os dialetos que ele também dominava, chegamos a 40 línguas.
Burton se infiltrou na cidade sagrada de Meca (hoje, na Arábia Saudita) e nos bordéis masculinos de Karachi (hoje, no Paquistão).
Ele também procurou as nascentes do rio Nilo e traduziu o Livro das Mil e Uma Noites e o Kama Sutra para a pudica sociedade britânica. Sua tradução transformou o clássico indiano em um dos livros proibidos mais pirateados da língua inglesa.
Mas Burton não viajou pelo mundo apenas para ampliar as fronteiras do Império Britânico. Como cônsul do Reino Unido no Brasil, Burton viajou do Rio de Janeiro até o interior de Minas Gerais, navegou de canoa pelo rio São Francisco e registrou os relatos dos campos de batalha da Guerra do Paraguai (1864-1870).
Ele também explorou “outras coisas que teriam dado um infarto fulminante à rainha Vitória [1819-1901]: deuses e religiões exóticas, drogas experimentais e, sobretudo, sexo e erotismo”, destaca o escritor e acadêmico britânico Redmond O’Hanlon, na sua série sobre exploradores do século 19.
“Alguns o descrevem como um gênio”, prossegue ele. “Outros acreditam que ele foi um pervertido.”
Richard Burton nasceu em Torquay, no sudoeste da Inglaterra, em 1821. Ele foi criado em diversos países europeus, incluindo a França e a Itália, onde se estabeleceu com sua família.
Dotado de uma capacidade surpreendente para aprender idiomas (e também com pouca modéstia), Burton afirmava ter aprendido latim com 3 anos de idade e grego, com 4.
Ele foi admitido no Trinity College de Oxford, no Reino Unido. Ali, aprendeu árabe, falcoaria, aperfeiçoou a esgrima, cultivou um “esplêndido bigode” que foi obrigado a raspar, se entediou, desrespeitou normas e foi finalmente expulso em 1842, por assistir a corridas de revezamento sem permissão.
Advertido pelas autoridades universitárias, ele as censurou por tratarem os estudantes como crianças, “fez uma cerimoniosa reverência” e foi embora.
Mas o fez com estilo: alugou uma carruagem a cavalos com outro aluno infrator, e os dois saíram pela rua principal de Oxford, tocando um trompete de folha de flandres, para se despedir dos amigos, beijando as mãos das vendedoras.
Sua teatralidade e rebeldia o acompanharam por toda a vida, valendo a ele um apelido: “Dick, o rufião”.

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Ele próprio se definia como “um vagabundo, um extraviado… um lampejo de luz, sem rumo fixo”. E, talvez pela sua infância na Europa, longe do seu país de origem, ele se queixava de que “a Inglaterra é o único país onde nunca me sinto em casa”.
Diferentes biografias o descrevem como um homem de superlativos e excessos, que frequentava bordéis e bibliotecas, tavernas e drogas, com grande cultura e curiosidade infinita que o impulsionaram a explorar as diferentes sociedades dos locais por onde viajou.
O relatório de Karachi
Uma história curiosa conta como Burton viveu intensamente, sem medo de entrar de corpo e alma em tudo aquilo que o rodeava.
Depois de abandonar Oxford, ele entrou para o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, onde serviu sob o comando do impiedoso general Charles Napier (1786-1860).
Burton aprendeu grande parte das línguas locais, como gujarati, punjabi, telugu, pashto, marati e hindustâni, além do persa e do árabe, que já dominava. Com isso, ele se tornou peça importante para os serviços de inteligência.
Para se camuflar entre a população local e conseguir entrar onde o homem branco nunca poderia colocar os pés, Burton deixou o cabelo crescer até os ombros, além de cultivar uma barba grande e espessa.
Ele também tingia as mãos e as pernas com henna, para se passar por “Mirza Abdullah”. Ele afirmava ser comerciante do Golfo Pérsico, com ascendência árabe-persa, para camuflar seus possíveis erros de pronúncia.
Sendo o único oficial britânico que sabia falar sindi (a língua da região onde fica Karachi), Napier o destacou em 1845 para investigar os bordéis homossexuais da cidade. Seu objetivo era pôr fim à prostituição masculina.
Acompanhado de amigos locais, “Mirza Abdullah” visitou, noite após noite, diferentes bordéis.
Burton teria realizado seu trabalho com tamanha atenção aos detalhes que causou um grande rebuliço na sociedade vitoriana. Com isso, ele acabou prejudicando seu futuro no exército para sempre.
Seu relato de que grande parte dos clientes dos bordéis era composta de soldados e oficiais britânicos também não serviu à sua carreira, segundo algumas biografias.
Destino: Meca
Burton, então, voltou à Inglaterra, onde escreveu diversos livros sobre os costumes dos vários povos indianos. Mas o comichão da aventura e da exploração não o abandonou.
Um dos seus grandes desejos era visitar Meca e Medina, as cidades sagradas de peregrinação dos muçulmanos. A entrada em Meca era proibida para os que não professam o Islã, como acontece até hoje.
Naquela época, quem violasse a proibição enfrentava a pena de morte. Mas isso não assustou Burton.
Ele passou anos estudando “teologia muçulmana, aprendeu grande parte do Corão de memória e se transformou em um ‘especialista na oração'”, segundo sua exaustiva biografia escrita por Thomas Wright em 1909, The Life of Sir Richard Burton (A vida de Sir Richard Burton, em tradução livre).
Para se camuflar, desta vez, ele adotou a aparência de um médico pashto, com o nome “Sheij Abdullah”, e afirmava ser procedente da região do Afeganistão.
Burton raspou a cabeça e deixou crescer novamente a barba. Um amigo seu afirmou que ele chegou a ser circuncidado, para dar ainda mais realismo ao personagem.
Desta forma, Burton viajou da Inglaterra para o Cairo em 1953, onde comprou seu traje de peregrino e realizou os preparativos para viajar até a Terra Santa do Islã.
Isso, não sem antes sair para beber com um capitão albanês que acabara de conhecer. Quando a notícia se espalhou, Sheij Abdullah achou melhor partir o quanto antes.

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Ele começou uma viagem de camelo até Suez (hoje, no Egito), por meio de “uma terra desértica, infestada de feras selvagens e de homens ainda mais selvagens”, segundo a biografia escrita por Wright.
Em Suez, ele conheceu alguns moradores de Medina e Meca, que seriam seus companheiros de viagem.
Um deles era “Sa’ad, o Demônio” — “um negro que levava duas caixas de roupas elegantes para suas três esposas de Medina”. Outro era Sheij Hamid, “um ‘árabe alto e magro, com cheiro de suor’, que nunca fazia suas orações porque tinha preguiça de retirar roupa limpa da sua caixa”.
Este tipo de detalhe fez do livro sobre a viagem, Pilgrimage to El-Medinah and Meccah (Peregrinação a Medina e Meca, em tradução livre), um grande sucesso na Inglaterra, um país ao mesmo tempo preconceituoso e ávido por relatos exóticos.
Após uma travessia de barco, eles atingiram o porto de Yanbu (hoje, na Arábia Saudita). Dali, eles conseguiram chegar a Medina, depois de serem atacados por beduínos no caminho.
Burton visitou os lugares sagrados da cidade e presenciou a entrada em Medina de uma “grande caravana procedente de Damasco [hoje, Síria], composta por 7 mil pessoas: grandes senhores em magníficas liteiras verdes e douradas, enormes dromedários sírios brancos, cavalos e mulas ricamente adornadas, devotos hajis [peregrinos], vendedores de sorvete, carregadores de água e uma imensidão de camelos, ovelhas e cabras”.
Impossível não ser seduzido por tamanho espetáculo.
Burton se juntou a uma caravana que seguia em direção a Meca, onde chegou no dia 11 de setembro de 1853. Ali, como mais um membro da umma, a comunidade islâmica, ele realizou todos os ritos religiosos.
Burton deu sete voltas em torno da Caaba, a construção sagrada em direção à qual os muçulmanos orientam suas orações. E chegou a gerar uma pequena contenda com alguns persas, a quem seu criado Mohamed chamou de porcos, ao abrir caminho para conseguir beijar a Pedra Negra, a rocha sagrada engastada em um dos cantos da Caaba.
“Enquanto a beijava e friccionava minhas mãos e minha frente contra ela, eu a observei detidamente e saí dali convencido de que se tratava de um aerólito”, escreveu Burton.
Ele fez anotações e desenhos escondidos da Caaba e imaginou que, entre todos os fiéis que choravam agarrados às cortinas que cobrem o lugar sagrado, nenhum deles sentia uma emoção mais profunda do que ele, ainda que reconhecendo que se tratava do “êxtase do orgulho satisfeito”.
É possível que Burton não tenha sido o primeiro ocidental a entrar em Meca, mas foi o primeiro a narrar minuciosamente os rituais e costumes muçulmanos, sem poupar detalhes sobre a sua aventura, alimentando assim sua própria lenda.
Em busca das nascentes do Nilo
Seu livro foi um sucesso. Mas, em vez de voltar à Inglaterra para desfrutá-lo, Burton decidiu viajar para outro lugar que, na época, também era proibido para os não muçulmanos: a cidade de Harar, no chifre da África, onde hoje fica a Etiópia.
Desta vez, ele chegou vestido de mercador turco e conseguiu com que o amir (príncipe) da cidade permitisse que ele se alojasse ali por dez dias.
Burton era arrojado, mas tinha consciência, como destaca Thomas Wright.
“Quando pensava que estava sob o teto de um príncipe intolerante e sanguinário, com suas sujas masmorras ressoando com os gemidos de prisioneiros acorrentados e quase mortos de fome, em uma cidade que detestava os estrangeiros, ele, como o único europeu que já havia cruzado aquele inóspito umbral, se sentia naturalmente incomodado.”
Depois de incluir Harar na sua lista de façanhas, Burton se voltou para as lendárias nascentes do Nilo, um mistério que corroía a curiosidade de muitos exploradores.

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Dos dois principais ramos que alimentam o rio, sabia-se que o Nilo Azul tem sua origem na Etiópia, mas não se sabia onde nasce o Nilo Branco.
Sua primeira tentativa de chegar às nascentes foi frustrada quando sua expedição foi atacada por cerca de 300 nativos berberes. Dela também participava o oficial e explorador inglês John Speke (1827-1864),
Os guerreiros mataram alguns membros do grupo e feriram Speke no ombro e nas pernas. Burton recebeu uma lança no rosto que deixou sua característica e assustadora cicatriz.
Ele viajou para a Inglaterra para se tratar. Depois, Burton foi voluntário na guerra da Crimeia (1853-1856) e retomou a aventura em busca das nascentes do Nilo.
Ele partiu da ilha de Zanzibar (hoje, parte da Tanzânia), com Speke e 132 transportadores. E, em vez de percorrer o Nilo rio acima, Burton imaginou que a forma mais rápida de encontrar as nascentes seria atravessando o continente a partir do Oceano Índico.
Sua expedição sofreu todos os males possíveis, atravessando florestas, pântanos e sofrendo picadas de todo tipo de insetos.
Por isso, Burton e Speke chegaram acometidos de malária e quase cegos ao lago Tanganica, que nenhum homem branco havia visto até então.
Speke se recuperou mais rapidamente e, quando ambos comprovaram que o lago Tanganica não era a nascente do Nilo, ele seguiu caminho em direção a uma outra grande massa de água que, segundo seus homens, ficava a várias semanas de viagem para o norte.
Speke deixou Burton para trás se recuperando e chegou ao local, a que ele deu o nome de Lago Vitória, em homenagem à monarca britânica. Atualmente, o lago é compartilhado por Uganda, Quênia e Tanzânia.
Speke, então, concluiu ter resolvido o mistério. Mas sua descoberta gerou um ácido confronto com Burton, que não acreditou nele. E a disputa foi aumentando quando eles regressaram à Inglaterra.
Uma segunda expedição de Speke ao lago Vitória confirmou sua teoria, manchando ainda mais a reputação de Burton. Mas aquela não foi a última aventura do explorador.
Cônsul e tradutor
Burton viajou para os Estados Unidos para estudar os mórmons em Salt Lake City. Ele escreveu um livro a respeito, intitulado The City of the Saints (A cidade dos santos, em tradução livre).
Ele se casou com uma aristocrata e foi enviado como cônsul a Fernando Pó, onde ficava a capital da então colônia espanhola Guiné Equatorial.
Dali, ele lançou novas expedições para diferentes pontos da África e escreveu pelo menos mais cinco livros sobre os costumes dos povos que ele encontrava, com seus fetiches, canibalismo e rituais sexuais.
Burton também esteve no Brasil. Ele foi cônsul britânico em Santos (SP), onde traduziu para o inglês Os Lusíadas e outros escritos de Luís de Camões (c.1524-c.1579).
Suas obras (escritas originalmente em inglês) também incluem Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico (Ed. Garnier, 2019), Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (Ed. Itatiaia, 1976) e Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai (Ed. Ponto da Leitura, 2001).
Burton também trabalhou como cônsul em Damasco e, em 1872, aceitou o consulado de Trieste, na Itália, seu último destino.

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Em Trieste, longe do exotismo que perseguiu por toda a vida, Richard Burton se dedicou à literatura. Ele escreveu sobre a Islândia e os etruscos e traduziu Catulo (c.84 a.C.-c. 54 a.C.) e Giambattista Basile (1566-1632).
Agora, ele viajava com a imaginação e sua própria erudição.
Talvez essa curiosidade sem complexos, especialmente em relação aos aspectos mais íntimos das relações humanas, tenha oferecido a ele os rendimentos que permitiram que ele vivesse confortavelmente na velhice.
Correndo o risco de ser preso, Burton traduziu e publicou secretamente o Kama Sutra. Com isso, ele trazia para o Ocidente a sabedoria sexual dos manuais orientais sobre o amor.
E também publicou uma versão sem censura do Livro das Mil e Uma Noites, acompanhada de ensaios sobre pornografia, homossexualidade ou educação sexual para mulheres.
“Traduzo um livro duvidoso na minha velhice e imediatamente ganho 16 mil guinéus”, teria ele dito à sua mulher, Isabel. “Agora que conheço os gostos da Inglaterra, nunca nos faltará dinheiro.”
Mas ela, católica praticante, não parecia tão satisfeita com os gostos do seu marido.
No dia seguinte à morte de Burton, temerosa da reputação póstuma que perseguiria seu marido na pudica Inglaterra vitoriana, Isabel entrou no seu escritório e queimou vários manuscritos.
Entre eles, havia uma nova tradução do manual amoroso árabe do século 15, O Jardim Perfumado. Ele havia passado os últimos 14 anos trabalhando na obra e incluído um último capítulo sobre a homossexualidade, que nunca havia sido traduzido antes.
Foi preciso esperar quase cem anos para que outra tradução pudesse vir à luz.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


