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16 de julho de 2026

Serra do Mar abriga santuários de observação de aves – 15/07/2026 – Turismo

Serra do Mar abriga santuários de observação de aves – 15/07/2026 – Turismo

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Pela primeira vez na vida, desci até o litoral de São Paulo e não pisei na areia. De Ubatuba a Ilhabela, passando por Caraguatatuba, virei as costas para as praias e descobri a Serra do Mar, em refúgios muito bem preservados.

Estávamos atrás de passarinhos, uma vez que a mata atlântica é a casa de algumas das aves mais coloridas e raras do planeta, e aproveitamos o começo do inverno, ótima época para observá-las. Acabamos encontrando também macacos, cobras, sapos e borboletas, além de personagens que dedicam sua vida à floresta.

O Parque Estadual Serra do Mar tem mais de 322 mil hectares, esticados de norte a sul do território paulista, divididos em dez núcleos. De toda a mata atlântica brasileira, que se estende por 17 estados, o litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro é uma das áreas que mais concentram espécies de aves, sendo cerca de 130 endêmicas, ou seja, que não existem em outro lugar.

Para quem desce pela rodovia dos Tamoios (SP-099), a paisagem verde exuberante é parte do Núcleo Caraguatatuba (entrada só com agendamento). Passear por suas trilhas silenciosas é um universo à parte das praias movimentadas da região, ainda que a entrada do parque fique a meros 6km do mar.

“O Núcleo Caraguatatuba se destaca não apenas por estar bem no meio desse olho do furacão das aves”, diz o ornitólogo Luciano Lima, guia da Brazil Birding Experts. “Ele também abriga ambientes muito conservados ao longo de todo gradiente altitudinal. Em poucos quilômetros, você sai da base da serra e sobe a montanha até cerca de mil metros, empilhando num espaço pequeno uma sequência de ambientes bem distintos, cada um com sua própria comunidade de aves.”

Logo na entrada do parque, um comedouro com bananas atrai um desfile de saíras de cores variadas, acompanhadas por um chamativo pica-pau benedito-de-testa-amarela. Por ali, também avistamos uma família de macaco-prego-preto se alimentando nas árvores.

O parque guarda jequitibá-rosas centenários, uma das maiores árvores da mata atlântica, e delicadas palmeiras-juçara, alvos constantes de extrações ilegais de palmito. O símbolo do núcleo é uma onça-pintada, que o gestor da unidade, o engenheiro ambiental Miguel Nema, só viu uma vez, num vídeo captado por uma armadilha fotográfica. Ele trabalha no parque há quase 18 anos.

Nema levou nosso grupo para conhecer a Rota das Aves, uma trilha de um quilômetro de fácil acesso e exclusiva para observadores de aves (é preciso preencher um cadastro prévio online). Com um instrumento de metal que ele tirou do bolso, um tipo de apito chamado pio, Nema conseguia reproduzir diversos sons da floresta, como um capitão-de-saíra, um passarinho de cabeça cinza e corpo alaranjado que logo respondeu ao som.

“É uma ferramenta muito utilizada por caçadores que foi apreendida numa das operações de fiscalização no parque”, contou Nema, que é também músico amador. “Aquilo que antes servia para dilapidar nossa fauna, hoje utilizo para o bem por meio da observação de aves como ferramenta de educação ambiental.”

Durante um passeio noturno, avistamos uma murucututu-de-barriga-amarela, uma coruja enorme e de canto profundo um pouco assustador. “Também já registramos aqui o muriqui-do-sul, o maior primata das Américas e ameaçado de extinção”, continuou. “Foram encontros emocionantes.”

Em Ilhabela, chegamos à noite e corremos de volta para o mato assim que acordamos. Fomos à Trilha do Pico do Baepi atrás das charmosas jacutingas, uma ave ameaçada de extinção, e não tivemos sorte. Mas fomos recompensados na Trilha do Bananal, onde encontramos raridades. O que mais surpreendeu, no entanto, não tinha penas, e sim uma latinha cheia de minhocas. Era o guia local Fernando Moraes, famoso por seus dotes de encantador de aves.

Moraes passou dois anos tentando atrair uma saracura-lisa, um tipo de galinha-do-mato elegante e discreta, considerada um fantasma da floresta. “A gente escuta ela muito, mas como ela vive num ambiente alagado e de vegetação densa, é muito difícil avistá-la”, diz Moraes, que hoje faz o bicho quase comer na sua mão.

Ele chama a saracura-lisa pelo nome que ele mesmo inventou: “Vem, Dedé, tem comidinha”, dizia, jogando minhocas numa clareira da trilha. “Encontrei em 2020 e fiquei tentando me aproximar. Tinha vezes que eu saía daqui chorando. Mas sabia que se rolasse eu tava feito.”

De fato, Moraes passou de pouco mais de dez clientes por ano para mais de cem, incluindo muitos estrangeiros. Ele chama pertinho outros pássaros difíceis de ver, como choquinha-de-garganta-pintada, borralhara e entufado, além de saber a localização de um ninho de gavião-de-penacho.

O órgão de turismo da ilha tem apostado na observação de aves, uma atividade que movimenta US$ 279 bilhões (aproximadamente R$ 1,5 trilhão) só nos EUA, entre viagens e compra de equipamentos, segundo dados do governo do país. Desde 2019, acontece o Ilhabela Bird Week, e a próxima edição será entre 21 e 27 de setembro.

Embora longe do mar, não faltam rios e cachoeiras nos passeios pela mata. Em Ilhabela, dá para combinar um banho numa piscina natural com observação de passarinhos na Cachoeira da Toca. Logo na entrada, um “enxame” de cambacicas domina os bebedouros de beija-flores.

A propriedade é também o último alambique de cachaça em atividade em Ilhabela, que no passado contou com mais de 30 engenhos de açúcar. Há degustação no local, com destaque para a cachaça envelhecida no barril de jequitibá-rosa.

Em Ubatuba, as estrelas são os beija-flores dos inúmeros bebedouros de Jonas D’Abronzo, um técnico de eletrônica aposentado que construiu um santuário para os bichos em sua própria casa, o Sítio Folha Seca. A propriedade fica aos pés da Serra do Mar, vizinha do Núcleo Picinguaba do parque estadual e a menos de quatro quilômetros da praia.

Apesar de não cobrar ingresso, é costume dos visitantes levar açúcar e frutas para ajudar na alimentação das aves. A estrada é de difícil acesso, e D’Abronzo pede para ser avisado antes. “Gosto que venham observadores e amantes da natureza, e fico temeroso de atrair curiosos que chegam da praia de chinelo, sem os cuidados devidos”, disse D’Abronzo. “Aqui é borda de mata, e principalmente em época mais quente, há cobras.”

O sítio já registrou 22 espécies de beija-flores, entre residentes e migratórias. Vimos de pertinho o beija-flor-rajado, o topetinho-verde e o beija-flor-rubi. Outros 30 tipos de pássaros se esbaldam nas frutas, como o tiê-sangue e a saíra-sete-cores.

Para se hospedar e acordar com os beija-flores, a pousada Ninho de Cambacica fica no alto das montanhas de Ubatuba, a 6km da praia. São apenas três quartos, mas diversos alimentadores para passarinhos, além de uma trilha com cerca de 400 metros. O espaço foi criado por um casal de biólogos, que organizam oficinas de fotografias de aves (as próximas são no final de julho e em outubro).

Com a chegada do inverno, os comedouros começam a ferver. “É a melhor época, fica bem movimentado”, diz a proprietária, Aline Alegria Marinelli. “Tem a chegada de espécies migratórias, como o gaturamo-bandeira, saí-de-perna-preta e a saíra-lagarta. Até o fim da primavera ainda é bem legal.”

Subindo a serra, deixamos o mar ainda mais longe e paramos no Núcleo Cunha do parque estadual em busca de espécies que gostam de altitude e muita neblina. A chuva constante não colaborou, e seguimos para a parada final, no Macuquinho Lodge, em Salesópolis, a 115 km de São Paulo.

Era a minha segunda visita à pousada, e foi como encontrar velhos conhecidos, tamanha a hospitalidade dos proprietários, o casal Elvis Japão e Nanda de Fátima Souza de Jesus. Enquanto ela cuida das refeições dos hóspedes, que degustam de frente para o jardim de beija-flores, ele cuida das refeições dos passarinhos, em comedouros repletos de frutas e em três “hides” (esconderijos para ver animais).

Num deles, ele toca um sininho para chamar a sanã-vermelha, que surge prontamente atrás da comidinha de tenébrios. Foi nosso último suspiro de mata atlântica, antes da volta à selva de pedra da capital.

A reportagem viajou a convite do Festival Avistar

PARA SE LOCALIZAR

Caraguatatuba

Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Caraguatatuba

Entrada apenas com agendamento: https://tinyurl.com/visitacaragua

Cadastro para Rota das Aves: https://tinyurl.com/rotadasaves


Hotel Hampton by Hilton Caraguatatuba Serramar

https://tinyurl.com/hiltoncaragua

Diária: a partir de R$ 379

Telefone: +12 3885-1230


Ilhabela

Hotéis e guias voltados à observação de aves

https://ilhabelabirdwatching.com.br/parceiros/


Guia Fernando Moraes

WhatsApp: +12 98894-9636

Instagram: @fernandobirdingilhabela


Cachoeira da Toca

https://www.cachoeiradatoca.com/

Entrada: 9h às 17h, R$ 40

WhatsApp: +12 99793-3354


Ubatuba

Pousada Ninho da Cambacica

http://ninhodacambacica.com.br/

WhatsApp: +11 97168-8222

Diária: R$ 800 (casal com pensão completa)


Sítio Folha Seca – Jonas D’Abronzo

Apenas com agendamento: +12 99753-2587


Cunha

Pousada São Miguel

https://tinyurl.com/pousadasaomiguel

WhatsApp: +55 12 98109-0121

Diária: R$ 680 (casal, duas diárias, chalé com lareira)


Salesópolis

Macuquinho Lodge

@macuquinholodge

WhatsApp: +11 94225-6794

Diária: R$ 1.200,00 (casal, pensão completa)

Day-use: R$ 250,00 (pessoa, com o almoço incluso, 7 às 17h)



Fonte.:Folha de S.Paulo

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