
Crédito, Sophia
- Author, Elena Bailey
- Role, Repórter de saúde, BBC News
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Tempo de leitura: 5 min
Mas ela ainda questiona tudo sobre a relação: até que ponto ela e seu namorado são compatíveis, se ela realmente o ama e quais ações ela pode tomar em virtude disso.
“Eu não conseguia sair de casa porque ficava com muito receio de trair meu namorado”, conta Sophia. Ela é garçonete e criadora de conteúdo em Leeds, na Inglaterra.
“No auge da condição, eu não conseguia ir trabalhar. Ficava na cama o dia todo, fazendo centenas de perguntas ao ChatGPT, tentando me reafirmar.”
Sophia descreve como é viver com TOC de relacionamento (TOC-R), uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo. Os especialistas afirmam que ele vai muito além das dúvidas normais sobre relacionamentos que todos nós estamos sujeitos a vivenciar.
O TOC-R traz dúvidas intrusivas persistentes, que causam estresse significativo e geram comportamentos compulsivos, como testar repetidamente seu parceiro, em busca de reafirmação.
O transtorno “pode consumir horas de energia mental e causar muita ansiedade, enquanto, em um relacionamento normal, estes pensamentos não dominam o seu dia”, explica o professor David Veale, psiquiatra do NHS Trust Maudsley e do Sul de Londres.
Sophia descreve seu impacto como “tortura mental”.
“Ter uma voz na sua cabeça criticando constantemente seu relacionamento e trazendo todos aqueles pensamentos horríveis contra o seu parceiro é de partir o coração.”
O TOC-R afeta 1,2% da população do Reino Unido, mas é difícil saber quantas pessoas sofrem o impacto do transtorno, já que ele não é registrado separadamente.
Os dados disponíveis para afirmar se o TOC de relacionamento atinge mais as mulheres do que os homens são insuficientes, segundo Veale. Mas a sua impressão pessoal é que o transtorno é “levemente mais comum nas mulheres”.
O professor Guy Doron, psicólogo clínico da Universidade Reichman, em Israel, começou a pesquisar esta condição mais de uma década atrás. Na época, havia muito pouca informação a respeito.
Agora, ele observa “um aumento dos encaminhamentos para TOC de relacionamento”.
As estatísticas são limitadas, mas as pesquisas e a maior consciência nas redes sociais parecem estar levando mais pessoas a procurar ajuda.
‘Completamente desligada’
O TOC de relacionamento se enquadra tipicamente em duas categorias.
Uma delas é concentrada no relacionamento. Ela ocorre quando você duvida dos seus sentimentos.
A outra é concentrada no parceiro, nas suas possíveis falhas. E os sintomas normalmente presentes nos relacionamentos amorosos também podem atingir outras relações, segundo Doron.
As transições da vida, como tornar um relacionamento oficial, morar juntos ou se casar, muitas vezes, podem funcionar como gatilhos.
O TOC de Sophia costumava levá-la a evitar germes e gerava preocupações com a saúde. No auge, ela lavava as mãos pelo menos 30 vezes por dia.
Quando conheceu seu namorado em um bar no Dia de São Valentim, Sophia se sentiu presente no momento e gostava de passar o tempo com ele.
Mas, quando o relacionamento começou a ficar mais sério, cerca de um mês depois, ela conta que seu TOC atingiu o relacionamento e ela se “desligou completamente”.
As menores coisas a faziam questionar sua relação. Seu namorado vestir uma roupa ou tentar um corte de cabelo de que ela não gostava, por exemplo.
“Meu cérebro começava a gritar para que eu terminasse com ele, mesmo sabendo que não era o que eu queria”, explica ela.
O TOC-R pode atingir qualquer pessoa, mas algumas podem ser mais vulneráveis do que outras, segundo Doron.
Ele destaca que nossas experiências de progresso dos relacionamentos, nossa propensão ao perfeccionismo ou o costume de pensar demais podem influenciar a forma como gerenciamos nossas dúvidas sobre um relacionamento.
E a expansão das redes sociais também trouxe novos tipos de pressão.
“As redes sociais certamente podem servir de gatilho para pessoas com TOC-R, pois elas romantizam o amor e podem fazê-las colocar em dúvida seus próprios relacionamentos”, explica o professor.
Sophia concorda. “Observar casais com aparência perfeita na internet cria expectativas, mas os relacionamentos reais não são perfeitos.”

Crédito, Gracie
Gracie trabalha em uma organização especializada em saúde mental em Bristol, na Inglaterra. Ela explica que não vê dificuldades com as fotos de casais felizes, mas com os dizeres que vêm com elas. Ela vive com TOC-R há sete anos.
Frases como “quem sabe, sabe” e a noção de que você deve se sentir completamente segura de ter encontrado “a pessoa certa” podem ser arrasadoras para ela.
“Podemos estar nos divertindo, mas, por dentro, estou perdendo a cabeça, imaginando se ele é a pessoa certa”, conta a jovem de 24 aos.
“É cansativo. Faz imaginar por que não sinto 100% de certeza de que estou com a pessoa certa.”
Gracie explica que o TOC de relacionamento não é um sinal de que alguém não ama o seu parceiro. “É o contrário”, segundo ela.
“O TOC geralmente atinge aquilo que mais importa para uma pessoa. Ele pode fazer você se sentir desesperada, uma pessoa horrível.”
Sophia e Gracie tentaram diversas medicações e terapia cognitivo-comportamental para ajudar a gerenciar seus sintomas. Mas elas também precisaram aprender sobre a condição com pesquisas na internet e vídeos no YouTube.
É importante conseguir o apoio adequado, segundo a organização OCD Action. E o primeiro passo é conversar com seu médico sobre os impactos dos pensamentos intrusivos na sua vida.
Doron também recomenda evitar testar o seu parceiro em busca de reafirmação ou para comprovar suas qualidades. Isso pode alimentar o ciclo do TOC-R.
Também é importante não exacerbar o uso das redes sociais ou dos aplicativos de namoro, pois a comparação pode reforçar as dúvidas.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


