O fim do encontro entre o líder do regime chinês, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim, foi marcado pela ausência de grandes anúncios. O americano voltou para Washington com menos negócios do que o esperado, enquanto o chinês pregou a “estabilidade estratégica” como a nova moldura para a relação bilateral entre os países nos próximos anos.
Trump deixou a capital chinesa à bordo do Air Force One no meio da tarde desta sexta-feira (15) no horário local, madrugada do mesmo dia no Brasil, após uma manhã de reuniões com Xi no complexo Zhongnanhai, local que abriga as principais lideranças do Partido Comunista Chinês e do regime.
O americano viajou à China acompanhado de CEOs de algumas das maiores companhias do mundo na expectativa de fechar novos negócios e diminuir o déficit comercial, mas o divulgado até agora foi mais modesto do que o esperado.
Havia a expectativa, por exemplo, de que Pequim comprasse cerca de 500 aeronaves da Boeing, mas a quantidade adquirida foi de 200. A última grande compra que o país asiático fez com a fabricante foi em 2017, durante a primeira viagem do americano a China como chefe de Estado, quando foram encomendadas 300 unidades.
Não foram publicados detalhes das negociações envolvendo os empresários, apenas relatos da Casa Branca indicando que Xi estaria disposto a abrir mais o mercado chinês para as empresas americanas, o que também foi considerado uma vitória para Washington.
China, terra do meio
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No campo das commodities, um comunicado emitido pela chancelaria chinesa afirma que os líderes concordaram em maior cooperação na agricultura, enquanto as autoridades americanas dizem que o Xi aceitou ampliar as compras na área. Nenhum dos lados, porém, deu detalhes do suposto arranjo.
A soja, que era um dos principais temas a ser levado pelo americano, parece ter ficado de lado, sem promessas de Pequim de aumentar o compromisso de compras, que estão na casa de 25 milhões de toneladas por ano até 2028.
Trump também tinha como objetivo ampliar a exportação de carne bovina americana para a China, mas até agora não foi anunciado se houve avanço nessa frente. Uma apuração da Reuters mostrou que Pequim renovou temporariamente uma série de licenças vencidas de frigoríficos americanos, sugerindo que a conversa sobre o tema havia progredido. As renovações, porém, ficaram em vigor apenas por algumas horas durante a cúpula.
O americano também teve ganhos modestos em relação à guerra do Irã. Na noite de quinta-feira (14), após os primeiros encontros, a Casa Branca afirmou que os dois lados concordaram que o Estreito de Hormuz deve permanecer aberto, e que Xi teria deixado claro que é contra a militarização do trecho e a cobrança de pedágios. Os dois países também teriam convergido na rejeição à posse de armas nucleares por Teerã.
Na manhã seguinte, a China fez seu pronunciamento mais enfático sobre o assunto desde o início da visita de Estado. Enquanto os líderes se reuniam no complexo do partido, Pequim pediu, por meio da chancelaria, cessar-fogo “abrangente e duradouro”, além de afirmar que o conflito “jamais deveria ter acontecido” e “não tem razão para continuar”.
O porta-voz da pasta declarou que as rotas marítimas devem ser reabertas o mais rápido possível em nome da estabilidade e do fluxo contínuo das cadeias de suprimento.
Embora em posição sensível pelo fechamento do trecho, já que os portos chineses são os principais destinos do petróleo que passa por Hormuz, um estoque bilionário da commodity deixa Pequim em posição confortável.
A Casa Branca também afirmou que Xi teria manifestado interesse em comprar mais petróleo americano para reduzir a dependência do Oriente Médio.
Xi aproveitou o momento para dar uma mensagem contundente sobre Taiwan e para pregar a “estabilidade estratégica construtiva”, afirmando que esse seria o novo posicionamento para as relações bilaterais pelos próximos três anos “e além”.
“Estabilidade estratégica construtiva deve ser uma estabilidade positiva com a cooperação como pilar, uma estabilidade sólida com competição moderada, uma estabilidade constante com diferenças administráveis e uma estabilidade duradoura com promessas de paz”, disse, segundo a agência estatal Xinhua.
Para analistas, o recado é que ações americanas para minar o desenvolvimento chinês —como a intensificação de controles de exportação e a imposição de tarifas consideradas injustificadas— poderiam ser lidas por Pequim como uma forma de violar o novo posicionamento.
Xi também deixou claro que o maior risco para a relação entre os países, pela ótica chinesa, é Taiwan, e alertou que lidar com a questão de maneira inadequada pode colocar as nações em rota de colisão.
“A independência de Taiwan e a paz no Estreito de Taiwan são incompatíveis. Manter a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan é o maior denominador comum entre a China e os EUA”, afirmou, segundo a Xinhua.
Pequim tem elevado o tom com Washington em relação à ilha, que considera parte do seu território apesar de Taiwan ter um governo democraticamente eleito e se declarar independente.
Os EUA têm sido historicamente o maior fornecedor de armas para a ilha, e havia a expectativa de que Xi pedisse a Trump que encerrasse as vendas, mas nenhum dos lados citou o assunto como parte da mesa de negociação.
O americano convidou o líder chinês para visitar Washington em setembro, mas a chancelaria chinesa não confirmou se Xi aceitou o convite.
Fonte.:Folha de S.Paulo


