Os Estados Unidos ofereceram uma recompensa de US$ 25 milhões (R$ 128 milhões) por sua captura; os promotores federais afirmam que ele ajudou a traficar toneladas de cocaína; o Tesouro lhe impôs sanções por desvio de fundos, e a ONU o acusa de aterrorizar os opositores.
Esse longo histórico de supostas irregularidades, porém, não impediu Diosdado Cabello, importante ministro do regime venezuelano, de colaborar com o alto escalão americano, em uma parceria que se tornou mais evidente após os dois terremotos de junho.
Este mês, por exemplo, um diplomata experiente o cumprimentou com um aperto de mão e um tapinha no ombro em um evento público. Numa reunião no dia seguinte, diversos generais se sentaram à sua frente, e foram fotografados rindo ao seu lado antes do início do encontro.
A transformação repentina daquele que até então era um dos principais alvos de Washington em aliado tolerado e até aceito foi, sem dúvida, o resultado mais inesperado da intervenção militar do governo Trump na Venezuela, em janeiro.
Para os defensores, essa aproximação é uma concessão pragmática como meio de conseguir maior estabilidade. Já para os críticos, sua permanência é o exemplo mais flagrante da traição oficial ao desejo popular de mudança política.
A ação das Forças Especiais que derrubou Nicolás Maduro transformou o país em um protetorado da Casa Branca. Para controlar Caracas, porém, Trump optou por trabalhar com os membros do regime autocrático do republicano, e não com a oposição pró-democracia; como resultado, diversos dos executores mais famosos do aparato repressivo do regime foram reintegrados ao novo “governo”.
Cercanías
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Os terremotos que atingiram o país apenas aprofundaram essa cooperação, com as autoridades americanas declarando apoio incondicional à líder interina, Delcy Rodríguez, e enviando ajuda emergencial e centenas de soldados para auxiliar no resgate e na reconstrução.
Na prática, gerou uma dinâmica chocante, pois muitas das autoridades venezuelanas que se veem lidando diariamente com os americanos são procuradas pelo governo de lá, ou proibidas de fazer negócios com seus representantes. Em alguns casos, foram alvo de processos durante o mandato atual e/ou o anterior.
É o caso de Cabello, um dos fundadores do Partido Socialista, no poder há três décadas. Considerado um dos homens mais poderosos da Venezuela, ele não só manteve o cargo ministerial após a operação de janeiro, como assumiu um novo papel: o de promotor dos interesses americanos.
Acontece que ele também é réu em um processo por tráfico de drogas que a Promotoria dos EUA moveu contra Maduro, preso em Nova York e aguardando julgamento, com a acusação formal afirmando que “com outros membros do regime venezuelano, coordenou o transporte de cinco toneladas e meia de cocaína“.
Em outra ação durante o primeiro mandato de Trump, o governo lhe impôs sanções por corrupção, e a ONU o acusou de ser um dos líderes do aparato de repressão venezuelano.
Para completar, o governo do Chile o acusa de ter ordenado o assassinato de um dissidente venezuelano exilado em Santiago em 2024. O promotor responsável pelo caso, Héctor Barros, afirmou em comunicado que seu gabinete quer levá-lo à Justiça, mas acrescentou que o caso é complicado por restrições de extradição. Um porta-voz de Cabello não atendeu aos pedidos de comentário.
O Departamento de Estado americano o lista como “procurado”, e oferece US$ 25 milhões “por informações que levem à sua prisão e/ou condenação”. No entanto, está fortemente envolvido na resposta de seu regime ao terremoto, tendo visitado uma das áreas destruídas este mês com John Barrett, chefe da embaixada americana na Venezuela –que aparece no vídeo postado pelo Corpo de Bombeiros de Los Angeles, participante dos resgates, apertando-lhe a mão e lhe dando um tapinha no ombro.
Questionado em uma entrevista coletiva, ele evitou responder se a recompensa pelo venezuelano continuava em vigor. O mesmo fez o secretário de Estado, Marco Rubio, em maio, quando afirmou que a política dos EUA sobre a questão não tinha mudado. O Departamento de Estado não se pronunciou oficialmente.
Cabello, que já foi adversário ferrenho dos EUA, mudou drasticamente sua retórica, reformulando a imagem pública desde a queda de Maduro. Segundo quem o conhece, essa transformação é motivada por um único objetivo: o de ser útil aos americanos e, com isso, poder desempenhar um papel importante na nova fase de seu país.
Depois de décadas de picuinhas contra o “imperialismo” de Washington, abandonou todas as críticas, trocando as camisas vermelhas berrantes e os trajes paramilitares habituais por roupas mais sóbrias, incluindo até terno e gravata em algumas ocasiões; meses depois de prever que um ataque à Venezuela resultaria em “outro Vietnã“, passou a promover a cooperação militar com a Casa Branca.
A enorme influência que exerce sobre as Forças Armadas e a polícia lhe rendeu um lugar no círculo informal do poder do país, efetivamente dividindo forças com Delcy e seu irmão, Jorge, presidente da Assembleia Nacional.
Todos são colaboradores antigos de Maduro e Hugo Chávez. Os analistas se referem a esse arranjo como “triunvirato”, sendo Cabello responsável por manter a segurança e a estabilidade internas.
Ele também exerce influência sobre vários grupos paramilitares pró-governo que, com exceção de uma breve demonstração de força na semana seguinte à captura de Maduro, vêm se mantendo, em grande parte, afastados das ruas, fato que alguns analistas atribuem às suas instruções.
Cabello também quer ampliar o próprio poder promovendo a filha, Daniella, 30, como candidata do partido da situação nas próximas eleições, de acordo com várias pessoas próximas ao regime que pediram anonimato para discutir esses temas. Ainda segundo elas, ele e seus aliados argumentam que a atual ministra do Turismo teria um desempenho melhor do que a impopular líder interina.
O fato é que o futuro de Cabello continua incerto, mesmo tendo assumido um papel público mais proeminente, pois corre o risco de ser preso caso os planos de Washington para a Venezuela mudem.
Dentro do triunvirato, já provou ser um parceiro valioso para Rodríguez e o irmão; por enquanto, a rivalidade antiga foi deixada de lado em nome do desejo mútuo de manter o poder diante da pressão externa –ainda que não tenha resultado em confiança mútua, segundo pessoas próximas ao regime.
Fonte.:Folha de S.Paulo


